Imobiliário

Brasileiros têm deixado de investir nos Estados Unidos e cada vez mais procuram Portugal para a compra de imóveis, aponta especialista

CEO do Coldwell Banker Portugal avalia que o perfil daqueles que têm adquirido imóveis mudou e hoje já há investimentos cada vez maiores no país europeu

Maio 6, 2026

Brasileiros têm dominado o mercado imobiliário português entre os estrangeiros. Crédito: Divulgação

O investimento estrangeiro nos imóveis em Portugal tem sido frequente nos últimos anos. Mas engana-se quem pensa que a lista é dominada apenas por norte-americanos e europeus. Os brasileiros têm sido presença constante nos rankings das nações compradoras.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), os brasileiros lideram entre os estrangeiros que mais compraram imóveis em Portugal em 2025, com 9.808 aquisições. O número representa um aumento de 27,5% em relação a 2024 e um total de 23,9% do total de transações entre os estrangeiros. Ao todo, foram gastos 256,6 milhões de euros.

O grande movimento de aquisições de imóveis vai ao encontro do aumento no número de brasileiros vivendo em solo português, que hoje já representam mais de 500 mil pessoas registradas oficialmente, segundo dados do governo.

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Se a onda de migrações só cresceu ao longo dos últimos anos, o comportamento dos compradores foi se modificando ao longo do tempo, segundo Frederico Abecassis, CEO da Coldwell Banker Portugal, imobiliária americana com presença em 45 países. Com presença no país português desde 2017, a rede possui 12 agências, com 250 colaboradores, e gera mais de 120 milhões de euros em cerca de 750 transações anuais.

De acordo com o executivo, se há alguns anos o brasileiro investia pensando no Golden Visa e em questões fiscais, hoje ele procura imóveis para investir ou mesmo para morar de maneira permanente. Ele explica que há brasileiros de diferentes perfis, incluindo grandes empresas investidoras, e que buscam Portugal para ter mais segurança e qualidade de vida.

Além disso, ele também tem sentido um forte movimento por parte de americanos e de brasileiros que estão deixando de investir nos Estados Unidos para adquirir imóveis em Portugal, devido ao contexto geopolítico conturbado do governo Trump. Em todos os casos, os brasileiros têm se tornado um ativo cada vez mais essencial para esse mercado.

Confira abaixo a entrevista na íntegra com Frederico Abecassis:

Frederico Abecassis, CEO da Coldwell Banker Portugal. Crédito: Divulgação

Qual é a relevância dos brasileiros no mercado imobiliário português hoje?

Os brasileiros hoje têm um papel fundamental no mercado imobiliário português. Existe uma relação histórica entre os dois povos, muita proximidade a nível de hábitos, a nível de cultura. Os brasileiros veem em Portugal um excelente lugar para viver, residir e mesmo para investir.

Os brasileiros fazem parte da população local em Portugal e representam 28% das transações a nível nacional. Eles começaram a investir em Portugal por volta de 2013, 2014 quando começou a haver incentivos fiscais para residentes não habituais, como o Golden Visa, que dava acesso de certa forma ao espaço Schengen. Com o Golden Visa, poderiam também usufruir de benefícios fiscais.

O fim do Golden Visa impactou de alguma maneira na questão do número de pessoas que compram imóveis para investimentos?

Sinceramente não. Estávamos à espera que o impacto fosse muito maior, mas a pirâmide inverteu-se porque as necessidades hoje do brasileiro não estão se preenchendo com a questão de de eficiência fiscal, nem na questão do acesso. Já existem muitas facilidades, sobretudo para brasileiros com profissões de agregado valor para o estado português. Por isso, o fim do Golden Visa não surtiu muito impacto.

Hoje, o brasileiro que está a vir para Portugal já não tem mais isso como prioridade. É acima de tudo um destino que lhes oferece segurança, proximidade às principais capitais europeias e que oferece a possibilidade de criar suas famílias. Portugal acaba por ser um destino óbvio para os brasileiros que querem viver fora. Para nós, do Coldwell Banker Portugal, os clientes brasileiros estão no Top 3, atrás apenas dos americanos.

O que os brasileiros que vêm de lá procuram em Portugal?

Sentimos que o brasileiro procura segurança. Temos assistido cada vez mais as famílias mais jovens a querer mudar para Portugal. Em Portugal, a qualidade dos hospitais públicos e das escolas é muito boa, as crianças podem se movimentar sem riscos nos transportes públicos e isso é algo muito valorizado pelas famílias mais jovens.

Temos um seguro saúde muito econômico em que uma boa cobertura ronda os 30 euros, valor muito inferior ao do praticado no Brasil. Também é muito valorizado o fato de você ter curtas distâncias entre as cidades, já que Portugal é um país pequeno. Você tem ainda proximidade com as principais cidades europeias.

Hoje, temos muitas pessoas a trabalhar remotamente, portanto não existem as barreiras de antigamente. Há muitos brasileiros que vivem em Portugal e trabalham para empresas brasileiras, mas deslocam-se uma vez por mês ao Brasil. Esse tipo de barreira já não existe no mundo. Acima de tudo, os brasileiros sentem-se muito bem integrados na comunidade portuguesa.

Um dos empreendimentos da Coldwell Banker Portugal. Crédito: Divulgação

Os investidores têm sentido essa instabilidade em relação ao próprio Estados Unidos ultimamente e têm preferido vir investir em Portugal?

Eu diria que muitos investidores internacionais e mesmo residentes nos Estados Unidos, com toda esta situação atual, estão a sair dos Estados Unidos e a vir para Portugal. E há outro aspecto que são os brasileiros relacionados com empresas tecnológicas, investidores na área na área de tecnologia. Nós temos alguns benefícios que oferecemos a empresas de tecnologia em Portugal e muitos deles têm olhado para o país quase como um novo Silicon Valley da Europa.

O brasileiro por hábito comprava a segunda residência nos Estados Unidos, sobretudo em Miami. Hoje, por conta de diversas questões geopolíticas, muitos estão a vender ativos nos Estados Unidos para virem investir em Portugal. E pelo fato da Colwell Banker ser uma empresa com forte presença nos Estados Unidos, nos tornamos uma marca de proximidade para todos os clientes estrangeiros que querem vender ou comprar. Por isso temos recebido também muitos clientes através das nossas agências locais nos Estados Unidos.

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Em relação ao perfil dos compradores, os brasileiros compram imóveis para investimento ou como primeira residência?

Temos o perfil de grandes promotores imobiliários que investem em Portugal porque aqui existe um controle maior sobre a inflação, algo que é muito sentido no Brasil. Ao mesmo tempo é uma forma de minimizar o risco, diversificar os mercados. Para as incorporadoras, representa um portfólio mais diversificado, não só como primeira, como também como segunda residência. Temos players de diversos setores que está vindo para investir.

Há ativos de grande porte, como o Hotel Estoril Eden que foi adquirido pelo BTG Pactual, o The Oitavos que era um hotel de referência em Cascais, que foi comprado pelo BTG Pactual e vai se tornar um Hotel Fasano. Temos a Marina de Cascais adquirida por um grupo brasileiro (empresa Marina 5 Gold Anchor) e que fez um trabalho fantástico de reabilitação como destino acessível. Vemos também grandes grifes brasileiras a enxergar Portugal como destino de investimento.

Entre os clientes particulares, o público mais predominante é o que vem para morar de fato ou para investir aqui?

Para morar de fato. Temos muitos clientes destes que inicialmente vinham viver temporariamente em Portugal e que optaram por residir permanentemente visando se estabilizarem a médio e longo prazo. Há aqueles que também se dividem ente Portugal e o Brasil. Temos os clientes de alta renda que, por norma têm residência no Brasil, mas também têm outras cidades mundiais. E Portugal inverteu o seu lugar e começou a estar na primeira linha no que toca à compra da segunda residência.

Temos vários perfis diferentes e Portugal, apesar de ser um país pequeno, oferece muita diversidade. Temos brasileiros que gostam muito do Douro Vinhateiro, com muitos empresários que a investir forte neste negócio de vinhos em Portugal. Há uma classe média alta brasileira que está a viver em Braga que é a maior comunidade brasileira em Portugal e temos pessoas que procuram um clima mais urbano, como no Porto e Lisboa, além do Algarve que é um estilo mais descontraído, mais praiano.

A procura dos compradores brasileiros é mais de imóveis de luxo ou há os acessíveis também?

O nosso valor médio de venda em Portugal é de 500 mil euros. Nós somos uma marca que é muito centrada nas necessidades do cliente. Portanto, independentemente do orçamento que tenham os nossos clientes, nós vamos acompanhá-los no processo de compra ou de venda. Trabalhamos com todas as corretoras que existem no mercado e isto permite oferecer um serviço de excelência aos nossos clientes.

Independentemente do orçamento que você tenha você consegue encontrar excelentes lugares para morar. E tem outro aspecto que é o próprio financiamento, ou seja, é possível um brasileiro financiar a compra de imóvel em Portugal com taxas de juros muito mais competitivas do que aquelas que existem no Brasil.

A questão das restrições de imigração não tem sido um problema para os compradores?

Um dos desafios que temos tido é essa lentidão burocrática dos organismos ligados à imigração. Mas tem havido um esforço, sobretudo por parte do atual governo em combater desburocratização e de olhar para a imigração com uma visão diferente, com uma ótica de agregação de valor para o próprio país. Acho que a preocupação maior com o controle de imigração é garantir que as pessoas que imigraram tenham qualidade de vida.

Nós sabemos que para nós conseguirmos captar investimentos, seja ele nacional ou internacional, a questão da celeridade processual é fundamental. Por isso acreditamos que podemos melhorar nesse aspecto.

Qual é a perspectiva para 2026 e para os anos seguintes em relação à presença de brasileiros por aqui?

O Brasil infelizmente não está a viver um bom momento no que toca à segurança. Com a situação geopolítica nós estamos aqui em um cantinho seguro e isso faz de nós também um dos destinos com mais capacidade para conseguir abrigar quem esteja à procura de uma qualidade de vida em todos os níveis.

Portugal é um destino que consegue oferecer conforto, um lifestyle distinto e a nossa previsão é que esta procura se mantenha bastante ativa. Temos que criar mais produtos para atender a essa demanda. Temos uma previsão de aumento da procura entre 3 e 6% e isso se traduz em novas oportunidades.

renan@revistaentrerios.pt

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