Turismo

Cabo Verde: por que a ilha de São Vicente merece entrar no seu roteiro de viagem neste verão

A quatro horas de voo de Lisboa, a ilha é conhecida por festivais vibrantes, sabores autênticos e águas cristalinas

Junho 22, 2026

Praia da Laginha. Crédito: Renata Telles
Praia da Laginha. Crédito: Renata Telles

Poucos lugares no mundo têm o poder de fazer a gente se sentir em casa logo no primeiro sorriso. São Vicente, uma das dez ilhas de Cabo Verde, é assim: acolhe os brasileiros com tanta alegria que, ao descobrir a nacionalidade, logo vem o cumprimento carinhoso — “Bem-vinda, brasiliana”. E a verdade é que, entre o calor humano, a música que embala as ruas e os sabores intensos da gastronomia, não é difícil entender por que tanta gente se apaixona por essa pequena joia no Atlântico.

Localizada na costa oeste da África, o arquipélago está a apenas quatro horas de voo de Portugal. Por lá, o verão reina o ano inteiro. As temperaturas variam entre 22°C e 27°C, e a brisa suave do Atlântico torna o clima ainda mais convidativo, criando o cenário perfeito para quem busca relaxar em meio à natureza e ao ritmo tranquilo.

É em Mindelo, a cidade principal da ilha, que São Vicente revela sua alma. Conhecido como a capital cultural de Cabo Verde, o local é pura energia: arquitetura colonial colorida, praças animadas, bares de música ao vivo e, claro, as canções eternizadas por Cesária Évora (1941-2011), ícone mundial e orgulho local.

Mural Cesária Évora, ícone mundial e orgulho local. Crédito: Renata
Mural Cesária Évora, ícone mundial e orgulho local. Crédito: Renata

A cantora levou a música cabo-verdiana para o mundo e tornou-se a primeira artista do país a conquistar um Grammy, em 2004, com a canção Voz d’amor. Em Mindelo, é impossível não se encantar com o mural dedicado a ela, criado pelo artista português Vhils. É uma impressionante obra de 10 metros de altura que eterniza sua imagem e seu legado.

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Explorar as vibrantes ruas de Mindelo, onde a vida cotidiana pulsa com cores, aromas e sabores únicos, é um passeio interesante. Pelas calçadas do centro, é comum encontrar mulheres equilibrando balaios de palha sobre a cabeça, oferecendo frutas tropicais, legumes frescos e peixes. As vendedoras, conhecidas como “peixeiras”, são figuras emblemáticas da cidade, e desempenham um papel vital na economia local e na preservação das tradições cabo-verdianas.

Ruas de mindelo com casarões coloniais. Crédito: Renata Telles
Ruas de mindelo com casarões coloniais. Crédito: Renata Telles

Entre tantos cenários pitorescos, uma parada obrigatória é o Mercado de Peixe, um espaço onde a cultura e a atividade comercial se encontram em harmonia. Lá é possível encontrar uma grande variedade de peixes frescos, como atum, cavalinha, badejo e garoupa, trazidos diariamente pelos pescadores. “O peixe é um dos nossos principais produtos, e a tradição de vendê-lo nas ruas nasceu porque o mercado não comportava todos os comerciantes. Com o tempo, as mulheres passaram a ocupar as avenidas para garantir a venda do seu pescado”, explica a guia turística Lina Rosário à EntreRios.

A poucos passos dali, o Mercado Municipal, na Rua António Aurélio Gonçalves, é um ponto de encontro essencial para vivenciar o cotidiano da ilha. Instalado em um edifício colonial construído nos anos 1930, oferece uma variedade de produtos frescos, desde frutas e legumes até ervas medicinais e artesanato local. Difícil é sair de lá de mãos vazias — ou sem provar alguma iguaria local. Dica: experimente o suco de calabaceira, fruto do baobá, rico em antioxidantes e com uma concentração de vitamina C seis vezes maior do que a da laranja.

Suco de calabaceira, fruto do baobá. Crédito: Renata Telles
Suco de calabaceira, fruto do baobá. Crédito: Renata Telles

Caminhar pelas ruas de Cabo Verde é como reencontrar velhos conhecidos a todo momento. Para portugueses e brasileiros, alguns traços da arquitetura e dos costumes soam familiares. Afinal, o arquipélago foi colônia de Portugal por quase 500 anos. No entanto, o que realmente chama a atenção é a Torre de Belém de Mindelo, uma réplica cheia de charme do icônico monumento de Lisboa.

O edifício, inaugurado em 1921, é a sede do Museu do Mar. No lugar, tudo gira em torno da relação especial que Cabo Verde e São Vicente têm com o oceano. O espaço celebra profissões ligadas ao mar, a tradição do carnaval local e a época em que a ilha era um ponto estratégico de abastecimento de carvão para navios, no século passado.

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No topo da Torre de Belém, a recompensa é uma vista daquelas que ficam na memória: Mindelo, os pescadores na lida com seus peixes e a faixa de mar que se estende até o porto. Entre as praias de Mindelo, a estrela é a Praia da Laginha, colada ao centro da cidade. Com areias clarinhas e mar azul-turquesa, é o lugar ideal para um mergulho refrescante ou simplesmente para esticar uma canga e aproveitar o clima tranquilo. Não à toa, é a queridinha dos locais e visitantes. “Eu me encantei pela beleza ‘sobrenatural’ de Laginha. Fiquei impressionada com os diferentes tons de azul da água”, diz a professora brasileira Joelma Santos, que recentemente passou férias na ilha.

Mercado Municipal de São Vicente. Crédito: Renata Telles
Mercado Municipal de São Vicente. Crédito: Renata Telles

Se quiser acrescentar um toque de aventura à viagem, siga até a Praia de São Pedro, a apenas 15 minutos de carro de Mindelo. Com ventos constantes, o lugar é disputado por praticantes de windsurf. E, de bônus, ainda dá para nadar com tartarugas marinhas nas águas cristalinas. “Aqui se vivem experiências autênticas. Não é um destino polido, é real”, destaca a portuguesa Catarina Correia, que mora na ilha há um ano. O estilo de vida conquistou a produtora de conteúdo. “São Vicente tem uma energia muito própria. Vim inicialmente para um projeto de voluntariado, e senti ligação imediata com a ilha. Me toca muito ver como as pessoas vivem com tanta leveza, mesmo nas dificuldades.”

Depois de São Pedro, outra ótima pedida é subir o Monte Verde. O ponto mais alto de São Vicente, com cerca de 750 metros de altitude, garante uma das vistas mais espetaculares do arquipélago, que inclui a cidade, praias e montanhas se estendendo no horizonte. É possível ainda avistar o extinto vulcão Viana, na parte sudeste da ilha.

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Vale incluir no roteiro a Praia do Flamengo, a Praia Grande, a Praia do Calhau e a Baía das Gatas, essa última famosa não só pela beleza, mas também por ser palco de uma das maiores festas culturais da África: o festival de música de Cabo Verde. O evento, realizado anualmente no mês de agosto, reúne músicos de várias partes do mundo. Na edição de 2024, Ivete Sangalo cantou para 28 mil pessoas e homenageou Cesária Évora com a música Sodade.

Praia do Calhau. Crédito: Renata Telles
Praia do Calhau. Crédito: Renata Telles

“Em São Vicente, há música para todos os gostos, e ainda temos o Carnaval, com ensaios lindos com folia e dança. É o que caracteriza a ilha: festa!”, afirma a atriz e cantora cabo-verdiana Eliana Rosa. No palco, a artista premiada transita entre funaná (gênero musical tradicional de Cabo Verde), morna (mistura de estilos musicais com raízes africanas) e coladeira (ou koladera, que mistura música tradicional com influência brasileira e de países lusófonos), passeando por temas como amor e saudade.

O Carnaval de Mindelo é, realmente, um dos momentos mais esperados do calendário cultural. Inspirado na energia do Rio de Janeiro, o desfile cabo-verdiano ganhou vida própria: não tem um sambódromo, mas as ruas da cidade são tomadas por fantasias, carros alegóricos e muito batuque. Cada bairro escolhe seu tema, capricha nos ensaios e encara com paixão a disputa, que envolve jurados e toda a ilha.

Outra tradição é a dos Mandingas. Com corpos pintados de preto, saias de ráfia e colares, os foliões tomam conta das ruas nos domingos que antecedem o desfile oficial. O grupo é pura vibração: dança, brinca com o público e espalha alegria por onde passa. E não para por aí. Depois de abrir a temporada de folia, são também os Mandingas que dão adeus ao Carnaval. No tradicional Enterro dos Mandingas, eles voltam às ruas num cortejo animado de despedida. Um ritual que simboliza o fim da festa — e deixa no ar a certeza de que, em São Vicente, a celebração da vida e da cultura nunca termina de verdade.

O sabor de São Vicente

A gastronomia de São Vicente é um verdadeiro reflexo da cultura cabo-verdiana: simples, acolhedora e cheia de sabor. Entre os pratos típicos, a cachupa se destaca. É um ensopado robusto feito com milho, feijão, legumes e, às vezes, carnes ou peixes.

Pode ser servido fresco ou refogado. Para adoçar a experiência, experimente doces tradicionais, como o bolo de milho verde ou o pudim de queijo. Tudo isso acompanhado de um grogue, aguardente tradicional feita de cana-de-açúcar que é motivo de orgulho nacional e presença garantida em qualquer boa mesa cabo-verdiana.

Não deixe de visitar:

  • Restaurante Chicau – Sem menu fixo, a casa surpreende os clientes com pratos inspirados na culinária local. A única carta disponível é a de vinhos.
  • Terra Lodge – O rooftop serve coquetéis e petiscos e é parada obrigatória para quem deseja admirar a vista da Baía de Mindelo e arredores.
  • Bombu Mininu – Espaço cultural com workshops e shows de artistas locais.

renata@revistaentrerios.pt

Renata Telles
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