Carnaval pode aumentar negócios em 60% e movimenta turismo em cidades portuguesas
Lisboa tem se tornado uma referência para o carnaval de rua em Portugal e tem parceria com Câmara Municipal, mas blocos ainda enfrentam dificuldades
- Lisboa
Fevereiro 13, 2026
A Câmara da Indústria e Comércio Luso-Brasileira estima que o Carnaval represente um aumento de 60% no volume de negócios para pequenas cidades portuguesas, como Loulé e Torres Vedras enquanto em grandes cidades como Lisboa e Porto isso possa representar um incremento de 10%. A data traz um reforço para o turismo português em uma época de inverno considerada baixa e menos atrativa para o setor.
“O Carnaval virou mais uma oportunidade para a geração de vendas e de novos negócios em cidades do norte a sul do país e têm atraído cada vez mais turistas para as nossas cidades. Isso já se tornou uma tradição em Portugal e acaba por ser um reforço para uma época baixa para os negócios”, afirmou Paulo Mesquita, CEO do Hotel Dom Pedro Lisboa e sócio da Câmara.
Paulo lembra que, para além do turismo, o carnaval também movimenta o comércio e todo um setor cultural, no qual milhares de pessoas se engajam para celebrar, o que também incrementa a geração de novos empregos. Ele destaca a presença de escolas de samba, desfiles, bailes e diversas tradições brasileiras para celebrar o carnaval presentes em Loulé, Torres Vedras, Sesimbra e Figueira da Foz.
Para além delas também lembra que há importantes manifestações culturais presentes em Mealhada, Almada, Sines, Loures, Ovar e até mesmo Cabanas do Viriato, em Carregal do Sal, que possui uma celebração tipicamente portuguesa.
Apesar disso, ele demonstra preocupação com as fortes chuvas que vêm afetando Portugal desde o início do ano e que colocaram várias cidades em situação de emergência. “Isso pode ter potencial para prejudicar um pouco esse ano na comparação com anos anteriores, mas vamos torcer para que haja bom tempo”, reforçou.
Por conta do mau tempo, o tradicional carnaval de Torres Vedras foi adiado pela Câmara Municipal. Alguns festejos em cidades afetadas como Castelo Branco, Tomar, Caldas da Rainha, Leiria e Nazaré também foram cancelados ou transferidos para outros locais. O governo português adiou o estado de calamidade até o dia 15 de fevereiro para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio de 2,5 bilhões de euros.
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Blocos brasileiros em Lisboa

Nos últimos anos, o carnaval em Lisboa tem ganhado cada vez mais espaço e tem lutado para melhorar a estrutura para acomodar milhares de pessoas que acompanham os blocos. Hoje, já há 14 blocos oficiais e, desde 2024, eles se organizam oficialmente por meio da União dos Blocos de Carnaval de Rua de Lisboa (UBCL) para reivindicar melhores condições para suas apresentações na cidade. A Câmara Municipal de Lisboa fala em 17 blocos. A expectativa para esse ano é receber o maior público da história do carnaval na cidade.
“O carnaval de rua, além de importante vetor de promoção da cultura brasileira, apresenta, por meio dos blocos e associações afins, um grande potencial de fortalecimento dos vínculos entre os imigrantes brasileiros, bem como a integração destes com a sociedade portuguesa”, destaca Diogo Lyra, diplomata responsável pelo setor cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa
Não há números oficiais a respeito das movimentações econômicas trazidas para a cidade, mas os impactos são significativos.
“O Carnaval de rua envolve centenas de pessoas de forma direta, sobretudo considerando que a comunidade brasileira é hoje a maior comunidade imigrante em Portugal. De maneira indireta, impacta milhares de pessoas, incluindo comércio local, turismo, serviços e restauração. Há uma relevante movimentação financeira nos territórios onde os blocos atuam e na cidade de Lisboa como um todo”, afirma Karlla Tavares, diretora artística, fundadora do Bloco Viemos do Egyto e Presidente da União dos Blocos de Carnaval de Rua de Lisboa (UBCL).
Ela também relata que tem havido um aumento do fluxo aéreo e de serviços de hospedagens durante o período que tradicionalmente era de baixa procura. Um levantamento da Decolar mostra que Lisboa é o quarto destino internacional mais procurado pelos brasileiros no período do carnaval. “Recebemos uma centena de mensagens de foliões que vem de fora de Portugal para Lisboa só para curtir o carnaval de rua”, afirma o diretor-geral do bloco Colombina Clandestina, Thiago Hallak.
O bloco, um dos mais antigos de Lisboa, estima ter recebido mais de 20 mil pessoas no ano passado e possui mais de 100 pessoas regulares, entre ritmistas, músicos e equipes de apoio, além de movimentar outros empregos indiretamente como equipes de produção aos artistas, designers, equipes técnicas, funcionários públicos e comerciantes. Outros blocos também têm levado cerca de 2 a 8 mil pessoas para as ruas.

As movimentações ultrapassam o período do carnaval e se espalham ao longo do ano, com aulas regulares de percussão e apresentações culturais. O Bué Tolo, bloco que existe desde 2018, é um exemplo de grupo que ajuda a difundir a própria cultura brasileira. “Hoje, para além de um bloco, que tem cerca de 25 pessoas, somos uma banda que se apresenta em palco o ano todo em eventos, festas corporativas e até festivais de música”, destaca Leonardo Mesquita, maestro e fundador.

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Parceria com a Câmara e necessidade de melhorias
Em 2025, a Embaixada do Brasil, em parceria com a União dos Blocos, assinou um protocolo de cooperação com a Câmara Municipal de Lisboa que reconhece o carnaval brasileiro de rua como um “evento de manifesto interesse cultural para a cidade” e que visa para apoiar e oferecer melhor estrutura para o carnaval na cidade. O acordo está em vigor até 2027. O processo ainda envolve as Juntas de Freguesia, a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Polícia Municipal.
A Embaixada afirma que há espaços para melhorias, “sobretudo na antecipação do calendário preparatório das festividades, de maneira a garantir maior previsibilidade na definição da agenda dos festejos, assim como no estabelecimento de diretrizes mais claras para o cumprimento das exigências legais por parte dos blocos”, destaca Lyra. A Embaixada, a União dos Blocos e a Câmara se reunirão logo após o carnaval para fazer um balanço do que passou e agilizar os preparativos para 2027.
Para Karlla, apesar de alguns avanços pontuais, o processo ainda está em construção e precisa de mais sistematização para garantir o planejamento e o apoio institucional isento de custos. Com o crescimento consistente do carnaval, ela diz que é preciso pensar em políticas públicas especialmente para o festejo.
“Temos negociado a revisão e racionalização dos custos e das exigências dos processos de licenciamento junto da Câmara de Lisboa e da PSP. Além disso, um planeamento que permita aos blocos organizar-se com mais segurança e aceder a outras linhas de financiamento e apoio. Apoios de infraestrutura básica fariam uma diferença decisiva para garantir a continuidade e a sustentabilidade dos blocos”, destaca ela.
O Bué Tolo também lamenta a morosidade por parte do poder público e das altas taxas cobradas para que o bloco possa se apresentar na rua, o que levou o bloco a realizar o evento desse ano em local fechado. “O objetivo é que o carnaval de rua de Lisboa possa fazer parte do calendário oficial da cidade. O apoio de uma empresa privada poderia ser interessante, como acontece nos blocos de rua do Rio de Janeiro, por exemplo”, aponta Mesquita.
Já Hallak, do Colombina Clandestina, destaca que são necessários dois pontos essenciais. O primeiro é o apoio financeiro direto da Câmara Municipal de Lisboa, considerando que o carnaval atinge diversas freguesias da cidade. “Um valor financeiro que possa parecer pequeno para o município faz toda a diferença para os blocos”, diz.
O segundo ponto diz respeito aos processos de licenciamento que ainda são pouco claros e possuem mudanças ano a ano, o que dificulta a organização dos blocos. “O ideal mesmo seria ter um processo definitivo, para os blocos iniciarem seus trabalhos de licenciamento o quanto antes e todos os órgãos saberem do que se trata e de como prosseguir. Ainda vamos ver como vai ocorrer. Posso dizer que tenho confiança que isto tudo vingará”, finaliza.
Procurada, a Câmara Municipal de Lisboa não respondeu a reportagem.
renan@revista@entrerios.pt