Chef Caroline Giandalia conquista o Porto com cozinha que mistura Brasil e Portugal
À frente da cozinha do restaurante Gruta, ela mostra uma cozinha autoral marcada por identidade, técnica e sensibilidade
- Lisboa
Março 24, 2026
No coração do Porto, em meio ao fluxo constante de turistas que percorrem a Rua de Santa Catarina, um portão discreto guarda um dos espaços mais singulares da cena gastronômica local. O restaurante Gruta, escondido atrás da movimentação urbana, propõe uma experiência que vai além do prato: um encontro entre culturas, memórias e sensibilidades, conduzido por uma cozinha de identidade muito própria.
À frente da cozinha do projeto está a chef carioca Caroline Giandalia, que imprime à casa uma abordagem que cruza Brasil e Portugal com técnica refinada e forte carga emocional. Em entrevista à revista EntreRios, Carol fala sobre suas origens, os desafios da imigração, o protagonismo feminino na cozinha e o momento atual da gastronomia brasileira em território português.
EntreRios: Conta um pouco sobre a sua história, suas memórias gastronômicas no Brasil e o que te trouxe a Portugal. Na nossa breve conversa você mencionou a batata frita de Marechal…
Carol: Minhas primeiras memórias na cozinha estão ligadas à minha mãe. A comida sempre teve um papel central na nossa casa. Quase todos os dias havia bolos no forno para o café da tarde, e minha mãe também fazia uma torta de maçã que deixava a casa inteira perfumada. Cresci cercada por esses momentos e, quando chegou a hora de escolher uma profissão, não via outro caminho. Decidi seguir essa paixão. Mais tarde, resolvi emigrar, em busca de novas experiências e possibilidades. Foi uma das decisões mais acertadas que já tomei e acabou sendo essencial para o desenvolvimento da minha carreira.
EntreRios: Você saiu do Brasil e construiu sua carreira em Portugal, um movimento hoje compartilhado por muitas mulheres da gastronomia. Em que momentos essa trajetória foi mais desafiadora e em quais ela se transformou em potência criativa na sua cozinha?
Carol: Sair do meu país e da minha zona de conforto para começar do zero foi muito transformador, mas também cheio de desafios. Um dos momentos mais difíceis foi me adaptar a uma nova cultura e provar meu valor em um ambiente completamente diferente daquele em que cresci. Estar longe da família pesou bastante. Ao mesmo tempo, essa experiência acabou se transformando em uma grande fonte de inspiração. O contato com novos ingredientes, técnicas e tradições ampliou muito meu olhar sobre a gastronomia. Comecei a perceber que podia trazer minhas raízes brasileiras para a cozinha e dialogar com os sabores e produtos de Portugal.

EntreRios: A Gruta ficou conhecida por ter uma equipe de cozinha majoritariamente feminina, algo ainda raro em restaurantes profissionais. Liderar uma brigada composta principalmente por mulheres muda a forma de lidar com pressão, criação e colaboração?
Carol: Com certeza, trabalhar em um ambiente majoritariamente feminino faz diferença em muitos aspectos. Na nossa cozinha existe um forte senso de colaboração, escuta e apoio mútuo. Isso cria um ambiente mais sensível, mas também muito forte. Liderar uma equipe composta principalmente por mulheres traz uma energia muito particular para o dia a dia. Existe muita troca, cuidado e construção coletiva. Isso não significa menos exigência; pelo contrário. Disciplina, organização e respeito continuam sendo fundamentais. As mulheres carregam uma força enorme, e eu me sinto mais feliz e motivada trabalhando cercada por essas potências. É uma energia de apoio, sensibilidade e determinação que torna o ambiente muito especial e inspirador.
EntreRios: Você costuma dizer que cozinha a partir do ingrediente e da memória. Quanto da sua identidade brasileira permanece nos pratos que cria hoje no Porto e quanto foi transformado pela convivência com a cultura gastronômica portuguesa?
Carol: Minha cozinha nasce muito das memórias e experiências que carrego comigo. Minhas inspirações estão profundamente ligadas ao que vivi no Brasil. Mas já são quase sete anos vivendo em Portugal, e essa convivência naturalmente transformou minha forma de cozinhar. A influência brasileira está muito presente em tudo o que faço, nos sabores, nas memórias e na forma de pensar os pratos. Ao mesmo tempo, procuro integrar isso com tudo o que aprendi aqui, com os excelentes produtos portugueses disponíveis. Minha cozinha hoje é justamente esse encontro entre as minhas raízes brasileiras e a cultura gastronômica portuguesa.
EntreRios: Uma chef brasileira conquistou recentemente uma estrela Michelin em Portugal, e você já foi indicada no guia Repsol. Você vê isso como um sinal de uma nova geração de cozinheiras brasileiras ganhando espaço e reconhecimento na gastronomia portuguesa?
Carol: Fiquei extremamente feliz com a conquista da chef Angélica Salvador. É uma representatividade enorme e muito gratificante ver uma mulher brasileira ocupando esse espaço. Sinto que estamos vivendo um momento especial, em que uma nova geração de cozinheiras brasileiras começa a ganhar mais visibilidade e reconhecimento em Portugal. Cada conquista abre caminhos e inspira outras mulheres a acreditarem no próprio trabalho. Mais do que um reconhecimento individual, vejo isso como um sinal de que há cada vez mais espaço para diferentes vozes, histórias e identidades na cozinha. É muito bonito ver a cultura brasileira sendo valorizada aqui.
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EntreRios: O jantar a quatro mãos com a chef Ana Carolina Miranda, que vai acontecer no dia 28 de março, chama atenção por reunir duas brasileiras à frente de cozinhas em Portugal. Como surgiu essa ideia e que tipo de diálogo gastronômico vocês pretendem criar?
Carol: Eu sempre tive vontade de criar um menu com a mandioca como protagonista. É um ingrediente muito especial para mim, faz parte da minha vida desde sempre. Essa ideia ficou guardada por muito tempo, até que resolvi colocá-la em prática. Quando pensei nisso, fez muito sentido convidar a chef Ana Carolina Miranda, que admiro muito. Reunir duas brasileiras para desenvolver esse menu é uma forma bonita de celebrar nossas origens. A proposta é criar um diálogo gastronômico em torno da mandioca, explorando suas possibilidades e trazendo para o prato nossas memórias e experiências. É uma forma de contar nossas histórias através da comida.

EntreRios: Esse encontro pode abrir caminho para novas colaborações?
Carol: Com certeza! Existem muitas chefs incríveis em Portugal com quem eu adoraria cozinhar. Para mim, encontros como esse são sempre um ponto de partida, uma oportunidade de aprender, trocar experiências e explorar novas possibilidades.
Mais sobre a Gruta
Inaugurada em 2021, a Gruta nasceu da transformação de um espaço tradicional e rapidamente conquistou destaque na cena gastronômica do Porto. A proposta segue baseada na valorização de produtos portugueses, especialmente da costa atlântica, combinados com ingredientes e referências brasileiras, como mandioca, tucupi e cupuaçu, além de técnicas da alta cozinha francesa.
Com 48 lugares e funcionamento exclusivo no jantar, o restaurante oferece uma experiência intimista, na qual cada detalhe, da cerâmica ao menu, reforça a narrativa de encontro entre territórios, memórias e identidades.
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