MODA

Chinelo deixa a praia e vira símbolo de estilo na moda global

Com modelo de 780 dólares, o calçado brasileiro desfila em passarelas e ganha novos usos

Janeiro 4, 2026

Primeiro chinelo impresso em 3D, parceria Havaianas e Zellerfeld. Reprodução: Instagram @maluborgesm.

As fotos de pessoas estilosas nas ruas, conhecidas como street style, especialmente durante as semanas de moda, definem tendências tanto quanto as passarelas. Na mais recente Copenhagen Fashion Week, para além das bolsas com bonecos Labubus pendurados, chamou a atenção o número de pessoas usando chinelos de dedo.

De Havaianas a modelos com salto ou meias transparentes, o modismo fez surgir a expressão “estilo Copenhagen”, em referência à mistura do casual com o chique. Seria uma apropriação cultural do jeito que as cariocas se exibem nas ruas há décadas?

A criadora de conteúdo Klara Gomes, brasileira, viralizou no TikTok ao ironizar, de sandália na mão: “Pronta para lidar com as ‘gringas’ que querem gentrificar as Havaianas”.

De fato, no Brasil, a relação com o chinelo é antiga e vai além de um simples calçado. Virou sinônimo de categoria. O estranhamento não está no uso urbano em si, mas no apagamento dessa origem.

A grife internacional acaba de apresentar, em parceria com a marca Zellerfeld, o seu primeiro chinelo impresso em 3D.

O modelo mantém a clássica tira, mas em silhueta robusta e escultural que cobre os dedos — pela primeira vez na história. Bem apropriado ao inverno europeu.

“Levar a originalidade do nosso design para tecnologias inovadoras foi essencial para re forçar a atemporalidade da nossa estética. É uma forma de honrar nossa essência enquanto nos conectamos com novos públicos”, disse, em nota, a diretora da Havaianas, Ieda Pavani.

Copenhagen Fashion Week 2025. Crédito: James Cochrane.

Para a gaúcha Symone Rech, especialista em negócios de moda e fundadora da plataforma New & Now, estamos em um momento de ruptura na forma como definimos sofisticação.

“O chinelo sempre carregou o DNA do descanso. Era sinônimo de pés livres na praia ou dentro de casa. Agora, ele caminha pela cidade como um objeto de desejo, atravessando a fronteira entre o básico e o aspiracional”, afirma.

Segundo ela, esse não é um fenômeno isolado, mas parte de um movimento que reflete a desconstrução das hierarquias do vestir. “Nos últimos anos, vimos o crescimento do tênis como ícone de status, e agora a consagração de calçados ultracasuais. Quando o chinelo é reposicionado dessa forma, deixa de ser apenas um item de verão e passa a representar um estilo de vida”, diz.

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Estilo esse que pode ser bem luxuoso. O chinelo do momento, por exemplo, é um modelo da marca americana The Row, das famosas irmãs Mary-Kate e Ashley Olsen. O ator Jonathan Bailey usou-o no ‘tapete vermelho’ da estreia do filme Jurassic World: Rebirth em Londres. No site oficial, o item custa 780 dólares e estava esgotado. Em aplicativos chineses, já há réplicas.

“Há algum tempo, a moda é mais sobre como usar um de terminado item do que sobre o objeto em si. Mas o chinelo grifado, convenhamos, é idêntico a qualquer Havaianas. Que não é chinelo, é Havaianas, marca pelo produto”, analisou a consultora de moda Thais Farage em texto na plataforma Substrack.

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Seja em versão hi-tech ou no par clássico de borracha, o velho chinelo que já foi considerado “calçado de pobre” deixou de ser apenas funcional para se tornar uma declaração.

Crocs e Birkenstock são prova disso: também nascidos como utilitários, conquistaram lugar no circuito fashion. Mais do que a ascensão de um produto, o que se observa é uma mudança nos códigos culturais da moda.

O chinelo — com ou sem meia, aberto ou fechado — consolidou-se como símbolo de conforto elevado ao patamar de sofisticação, atravessando fronteiras climáticas e geográficas. Tão legítimo no verão brasileiro como no inverno europeu.

Essa reportagem foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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Fernanda Baldioti
fernanda@revistaentrerios.pt