Comer em Portugal está cada vez mais caro
Esta é a segunda reportagem da série sobre a alta do custo de vida. Agora, saiba porque os preços dos alimentos estão elevados e quais as alternativas para enfrentar o problema
- Lisboa
Abril 3, 2026
Depois da moradia, a alimentação é o gasto mais oneroso no orçamento familiar em Portugal. A alta é reflexo da inflação vinda da guerra na Ucrânia, um grande exportador de cereais e matérias-primas consumidos na União Europeia. Isso pressiona o setor agroalimentar, que estava já sufocado desde a pandemia de covid-19 e a seca.
“A limitação da oferta de matérias-primas e o aumento dos custos de produção, nomeadamente dos fertilizantes, e da energia, refletiu-se em um incremento dos preços nos mercados internacionais e, consequentemente, nos preços ao consumidor de produtos como a carne, hortofrutícolas e óleo vegetal, entre outros”, explica Nuno Pais de Figueiredo, porta-voz do Deco Proteste, associação de defesa do consumidor.

O problema levou o governo a adotar, em abril de 2023, a isenção de IVA para mais de 40 alimentos essenciais. A medida ajudou a controlar a subida dos preços, mas poucos meses depois o custo da chamada cesta básica (cabaz alimentar) voltou a disparar.
Em 2024, a volta do imposto tornou mais caros produtos como o azeite virgem extra, que atingiu o valor mais alto em abril do ano passado — resultado da quebra da produção na Espanha, o maior produtor mundial.
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Desde então, o preço do azeite começou a descer devido ao aumento da produção no mesmo ano. Já em 2025 houve uma tendência de queda, e, para 2026, há boas expectativas para a estabilização. Mas especialistas recomendam cautela.
“Qualquer acontecimento que leve a aumentos de valores nos mercados internacionais ou dos custos de produção terá impacto no custo final, ou seja, no consumidor”, referiu Figueiredo.
A crise desencadeada pelos Estados Unidos é um exemplo de acontecimento que pode alterar os cenários previstos para este ano. Os dados mais recentes indicam que 2025 foi marcado por subidas nos preços de alguns produtos, como os ovos e o café torrado moído.
O aumento do preço dos ovos pode ter a ver com fatores como a pressão exercida pelo mercado americano, afetado com um surto de gripe aviária, o aumento do consumo e a redução da produção decorrente do processo de substituição de jaulas pelos sistemas de produção alternativos (solo, ar livre ou biológica), segundo apontam os produtores.
No caso do café, os efeitos das alterações climáticas em importantes exportadores estão a provocar uma subida dos preços. De acordo com a Organização Internacional do Café (OIC), só no terceiro trimestre de 2024, o aumento chegou aos 20%.
Segundo a DECO Proteste, entre 5 de janeiro de 2022 e 10 de dezembro de 2025, o preço total da cesta básica para 63 produtos essenciais aumentou 56,99 € (aumento de 30,36%), passando de 187,70 para 244,69 euros.
A subida é ainda maior na comparação com o dia de início da guerra na Ucrânia (23 de fevereiro de 2022), a partir do qual os preços subiram 33,25% (61,06 € a mais). Os preços dos alimentos, especialmente os “não processados”, subiram bastante, o que pesa fortemente no orçamento das famílias.
Em abril de 2025, a inflação desses produtos subiu 3,2% em relação ao ano anterior. Um estudo da GfK/NIQ geomarketing coloca Portugal no 22º lugar entre 42 países europeus em termos de poder de compra per capita, com 16.943 euros/per capita.
Isso sugere que, mesmo com aumento de salários ou alguma recuperação, o “custo de vida real” para muitos portugueses ainda está relativamente pressionado para baixo quando comparado com países europeus mais ricos.
Para ilustrar, um casal gasta em média 350 a 450 euros por mês no supermercado. Produtos como café, peixe e hortifrutis tiveram aumentos acima de 20% no último ano (2025). Além disso, um litro de leite custa cerca de 0,94 euros, uma dúzia de ovos 3 euros, e um quilo de frango cerca de 6 euros. Os valores variam pouco de uma região para outra, mas os hábitos alimentares podem fazer muita diferença no orçamento final.
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Célia Aleixo, 48 anos, professora de natação, confirma que o aumento de custos em supermercado impactou no seu orçamento familiar. “Atualmente escolho bem os produtos e prefiro os de marca branca, na maioria das vezes com um preço menor aos produtos de marca. Antes eu escolhia pela minha preferência, hoje decido mais em função do preço”, aponta. Sempre que pode ela vai ao mercado para comprar apenas a quantidade que precisa, “o que acaba por sair mais em conta”.
Já Mariana Gama, brasileira, casada e com filhos, voltou com a família no fim do ano passado para o Brasil após 12 anos na região de Lisboa. Entre os motivos do retorno está justamente o aumento do custo de vida.
“O preço das compras do supermercado demorou para subir, mas do dia para a noite qualquer comprinha que eu fazia dava 100 euros ou mais. Antes, aumentava aos pouquinhos e a gente nem sentia, mas acho que de um ano para cá, aumentou demais”, afirmou.
Ela aponta uma inversão: “Há 12 anos, eu reclamava muito dos
preços do Brasil e achava Portugal mais acessível. Hoje, acho tudo no Brasil mais barato, exceto roupas e aparelhos tecnológicos. Mas, coisas básicas como moradia, transporte, alimentação e combustível nem se compara, estão menos onerosos”.
Comida mais cara já afeta restaurantes
Um estudo da consultoria NielsenIQ revela que cerca de 41% dos
consumidores relatam ir menos a restaurantes devido ao alto custo e, para economizar, têm preferido refeições em casa. É o caso de Célia Aleixo: “Hoje em dia como mais em casa e reservo as saídas para datas especiais”, diz ela.

João Ricardo Moraes, proprietário do restaurante Gruta, no Porto, diz que teve de se adaptar à nova realidade: “Reduzimos a nossa margem de lucro, retiramos alguns pratos do menu para que os aumentos fossem menores e não impactar negativamente nossos clientes”.
Ele se queixa dos insumos que registram uma alta acumulada bastante significativa nos últimos anos. “Peixes e mariscos, por exemplo, aumentaram mais de 60%. Há outros alimentos que superam os 100%”.

Alexis Bourrar, fundador do Boubou’s, restaurante francês em Lisboa, também reconhece que o setor “enfrenta tempos difíceis”. E comenta: “Com a quebra de procura e de receitas, e com vários restaurantes a fechar, o cenário se agrava durante os meses de inverno porque o turismo trava abruptamente e os visitantes são uma fatia muito significativa dos clientes de fine dining (jantar fino)”.
Apesar de tudo, Bourrar garante que “nunca a cozinha e o serviço do Boubou’s estiveram em um nível tão elevado como nos dois últimos anos”. Segundo ele, o restaurante se adaptou, criando menus mais curtos que permitem também chegar a mais pessoas, com valores a partir de 75 euros”.
renan@revistaentretios.pt