Como é usar o sistema de saúde em Portugal sendo imigrante
A presença de estrangeiros no SNS cresce em ritmo acelerado: em julho de 2025, quase um milhão estavam inscritos no Registro Nacional de Utentes
- Porto
Abril 20, 2026
Quando a paulistana Liliane Brenes chegou à unidade de saúde no Porto, numa manhã de fevereiro, carregava uma pequena contradição: tinha cancelado a consulta no aplicativo do Sistema Nacional de Saúde (SNS) na noite anterior e, ainda assim, estava ali, grávida, tentando explicar o equívoco no balcão. Quarenta minutos depois de desmarcar, recebera por e-mail o resultado do hemograma que precisava apresentar à médica de família. Resolveu arriscar.
Na recepção, resumiu o acontecido e esperou. A sala tinha o silêncio tenso das manhãs em centros de saúde: senhas eletrônicas, portas que se abrem e fecham, chamadas pelo nome e, para a brasileira, o receio de não ser compreendida. Mas veio a surpresa: “Apesar da minha confusão, todas as pessoas com quem tive contato foram solícitas e práticas”, disse ela. Com a gravidez, Liliane passou a frequentar o consultório com regularidade.
Sua experiência, porém, não representa a totalidade dos estrangeiros: em 2023, entre 844 mil imigrantes inscritos nos cuidados primários, apenas 49,7% tinham médico de família, segundo a Entidade Reguladora da Saúde (ERS).
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Ao mesmo tempo, a presença de estrangeiros no SNS cresce em ritmo acelerado: em julho de 2025, quase um milhão de imigrantes estavam inscritos no Registro Nacional de Utentes, um aumento de seis vezes em relação a 2017, representando 83% de inscrições recentes, segundo dados oficiais do SNS.
Entre esses usuários está Lorena Teixeira, baiana que vive no Porto. Ela recorreu ao SNS após uma queda que atingiu o joelho, ligou para a linha direta 24 horas e foi encaminhada à urgência do Hospital de São João, onde fez raio-X e recebeu indicação de manter medicação e gelo.
Porém, quando precisou novamente de atendimento, levou três dias para conseguir contato, que só aconteceu na quarta tentativa. Dessa vez, ela precisava marcar consulta com ginecologista, mas foi encaminhada a uma médica generalista. “Só ouviu o que eu falei e passou remédio, sequer analisou de fato, não examinou nada”, afirma. Sem médico de família, ela evita consultas em Portugal e aproveita as férias no Brasil, anualmente, para cuidar da saúde.
Como referência, a Europa se revela heterogênea. Na Espanha, o produtor cultural pernambucano Renatto Mendonça vê com bons olhos o sistema público universal, organizado por comunidades autônomas e centrado nos cuidados primários. “O atendimento, na grande maioria das vezes, foi excelente e super humanizado”, afirma.
Têm direito a cuidados de saúde aqueles que residem legal e regularmente no país e não possuem cobertura obrigatória por outros meios, assim como os familiares dependentes financeiros, menores de 26 anos (ou maiores com deficiência maior ou igual a 65% de comprometimento) e sob vínculo familiar direto, como cônjuge, filhos, netos, irmãos ou pessoas sob tutela.
Estrangeiros sem nacionalidade espanhola podem precisar apresentar documentos adicionais, como certificado de não exportação de cobertura do país de origem (para alguns países da União Europeia e outros específicos), Carteira de Identidade de Estrangeiro (TIE) ou autorização de residência legal.
Já na Alemanha, o modelo é outro. Raffahel Santiago, brasileiro que vive há sete anos no país, diz que o seguro de saúde é obrigatório, com coparticipação e maior dependência de especialistas. Ele explica que, geralmente, cada pessoa já tem seu médico de família, mas que a dificuldade vem quando é preciso marcar consultas com especialistas. O tempo de espera é longo: anos atrás, esperou mais de três meses para conseguir um apontamento com um psiquiatra.
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Além disso, Santiago critica a abordagem clínica: “Aqui eles não investigam tanto os problemas de saúde por meio de exames, o que eu acho terrível. Nas duas primeiras vezes, apenas disseram para eu mudar minha alimentação e não recomendaram remédio algum”.
Apesar de coberturas e coparticipações baixas, a sensação de acolhimento e a rapidez no acesso a especialistas são muito diferentes das experiências em Portugal e Espanha.
Para quem está do ‘outro lado do balcão’, a experiência assume caráter técnico e cultural. Lucas Alvarenga, médico mineiro atuando em Castelo Branco, compara o SNS com o serviço privado e, também, com o Brasil: aqui existem mais limitações de recursos, listas de espera maiores e dificuldades de acesso generalizado.
Dependendo da complexidade do caso, as demoras podem chegar de três a seis meses. Ele destaca a centralidade da medicina geral e familiar, o fluxo estruturado de encaminhamentos e a gratidão dos pacientes, especialmente estrangeiros que chegam com receio de não serem atendidos.
Filipa Dias, médica portuguesa com experiência no Sistema Único de Saúde (SUS), reforça o impacto da cultura e da comunicação: pacientes imigrantes enfrentam barreiras da língua, dificuldade em navegar no sistema e diferenças culturais sobre prevenção, exames e até quanto ao gênero do profissional. Para ela, o trabalho exige tempo maior por consulta, adaptação e escuta atenta, sobretudo com estrangeiros em situação irregular.
Filipa orienta que, ao chegar, o primeiro passo é sempre procurar o centro de saúde da área de residência, obter o número de utente e, se necessário, usar serviços de tradução telefônica. É essencial, também, levar documentação médica anterior, exames, relatórios e vacinas, facilitando o acompanhamento contínuo.
Um exame marcado, uma próxima consulta agendada, o número de utente guardado na carteira ou no celular tornam-se sinais de rotina e pertencimento. O estrangeiro aprende a ler a máquina pública e, nesse processo, passa a habitá-la, construindo confiança e familiaridade. O cuidado deixa de ser apenas formalidade; é espaço de interação, aprendizado e de um lugar conquistado dentro da nova vida que se escolheu construir.
flavio@revistaentrerios.pt