Como o carnaval brasileiro conquistou Lisboa e se firmou como fenômeno cultural
Blocos saem pelas ruas com samba no pé, purpurina e fantasias, em folias divertidas que atraem turistas
- Lisboa
Fevereiro 10, 2026
Lisboa e arredores vivem o carnaval ao ritmo da batida de blocos, com tudo a que se tem direito: confete, serpentina, foliões fantasiados, brilho, alegria e samba no pé. Além de amenizar a nostalgia imigrante, os desfiles já são um fenômeno cultural e turístico. Há quase uma década, o movimento era tímido, resumido a algumas rodas de samba e poucos cortejos. Até que, em fevereiro do ano passado, a Câmara Municipal assinou um protocolo com a Embaixada do Brasil para reconhecer o Carnaval Brasileiro de Rua no calendário cultural.
“Somos uma cidade aberta e diversa, e o Carnaval Brasileiro já faz parte da nossa identidade”, disse à época o presidente da Câmara, Carlos Moedas. Nascida no fim de 2016, nos preparativos para a folia do ano seguinte, a Colombina Clandestina é um exemplo visível dessa evolução. Começou com um pequeno grupo. Em 2025, chegou a arrastar trinta mil pessoas.
A Colombina é mais do que um bloco: ocupa as ruas como projeto cultural e político e participa de marchas e protestos, além de oferecer oficinas comunitárias e realizar performances o ano inteiro. “A gente toca em manifestações, como as de 8 de março, de 25 de abril e a Marcha do Orgulho. Temos parceria com festivais como o Coala e o Rock in Rio Lisboa”, diz o músico Thiago Hallak, um dos integrantes à frente do coletivo, que reúne pessoas de diversas nacionalidades.

Para Hallak, o carnaval lisboeta é internacional, abrasileirado pela raiz cultural, mas misturado ao que Portugal tem recebido do mundo. É essa multiplicidade que os blocos defendem quando falam em direito ao uso do espaço público. “Há muitas pessoas vindo para a capital curtir o carnaval porque moram em cidades da Europa que não têm essa festa. A gente acha isso lindo e muito bom para o turismo”, completa.
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O carioca Leonardo Mesquita, um dos fundadores do bloco Bué Tolo, concorda. O nome é inspirado no Boi Tolo carioca, que desfila de manhã e arrasta uma multidão de foliões. Quando chegou a Portugal, em 2014, Mesquita encontrou só um grupo de Maracatu. “Quase não tinha roda de samba, mas hoje há várias. Amigos já estão preferindo o carnaval aqui por conta da confusão que está no Rio ou em São Paulo”. Segundo Mesquita, “ainda estamos numa fase parecida com o início do boom do carnaval de rua do Rio”.
Ele já tocou no Monobloco e é um dos fundadores do Empolga às 9, em Ipanema, no Rio. Mais que experiência, trouxe instrumentos e, pouco a pouco, o Bué Tolo ganhou corpo, bateria e identidade.

O ator Alexandre Liuzzi criou um bloco em Cascais, onde mora, junto ao musicista André Papadopoulos: o Sardinha Imperial, em janeiro de 2020. Em um mês, estavam na rua. Com o tempo, criaram também a Festiva Enseada, associação cultural que contempla oficinas de teatro, dança, coro e banda de forró — um ecossistema que alimenta o carnaval e a comunidade o ano todo.

“Em 2018, sofri demais, porque eu sempre vivi intensamente o carnaval no Brasil”, conta. “Hoje, eu curto muito a folia de Cascais. Andar pelas ruas do centro é maravilhoso, lembra o bairro carioca de Santa Teresa, a cidade de Olinda. É bonito demais”, diz ele. E já deixa um convite para que os leitores de EntreRios conheçam o Sardinha, que sai às ruas às terças-feiras.
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Os integrantes da associação também fazem parte do carnaval da Malveira, de 40 anos. “É mais parecido com os desfiles de avenida: alas, alegorias, carros — mas, claro, numa escala menor”. Para ele, essa integração mostra a potência dos encontros culturais: “Não queremos ser rotulados só como associação de brasileiros. Buscamos misturar, construir junto. O carnaval aproxima”.
O reconhecimento oficial do Carnaval

Foi em 25 de fevereiro de 2025 que a Câmara de Lisboa formalizou o Carnaval Brasileiro de Rua no calendário da cidade, após a assinatura de um protocolo com a Embaixada do Brasil. O acordo prevê apoio logístico, policiamento e articulação institucional entre município e blocos.
O reconhecimento é uma reivindicação antiga e resulta da luta dos membros da União dos Blocos de Carnaval de Rua de Lisboa (UBCL), uma associação que hoje reúne quinze blocos. Apesar dos avanços, organizadores ainda enfrentam custos elevados.
As autorizações com a Polícia de Segurança Pública (PSP) incluem taxas de policiamento e segurança; juntas de freguesia cobram licenças específicas; seguros são obrigatórios. “Para blocos que não vendem bilhetes, essas despesas podem ser um impeditivo”, observa Thiago Hallak, da Colombina Clandestina.
Redes sociais dos blocos
Lisboa
BUÉ TOLO
Instagram: @buetolo
COLOMBINA CLANDESTINA
8 de fevereiro (domingo): Ensaio Aberto – Ocupação Largo de São Miguel
14 de fevereiro (sábado): Carnaval da Colombina 2026.
Instagram: @colombinaclandestina
CUIQUEIROS DE LISBOA
Instagram: @cuiqueirosdelisboa
LISBLOCO
Instagram: @lisblocooficial
Cascais
SARDINHA IMPERIAL
Cortejo principal em Cascais no dia 17 de fevereiro de 2026.
Instagram: @sardinhaimperial
Porto
BLOCO CARNAVRAU
Instagram: @carnavrauporto
BATUCADA RADICAL
Instagram: @batucadaradical
Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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