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Consulado do Brasil em Lisboa anuncia campanha inédita contra bullying e xenofobia nas escolas portuguesas

Iniciativa “Amigos do Brasil” será lançada ainda este ano e envolve governos, escolas, União Europeia e sociedade civil

Janeiro 15, 2026

Alessandro Candeas, cônsul-geral do Brasil em Lisboa. Crédito: Jordan Alves

Em primeira mão para a EntreRios, o Consulado-Geral do Brasil em Lisboa anunciou que lançará ainda este ano uma campanha bilateral inédita de combate ao bullying, à xenofobia e ao racismo nas escolas portuguesas. Batizada de “Amigos do Brasil”, a iniciativa nasce de um acordo político e diplomático de alto nível entre Brasil e Portugal e marca uma mudança estratégica: o enfrentamento do problema passa a ser tratado como uma agenda compartilhada, e não como uma demanda unilateral brasileira.

O anúncio foi feito durante entrevista concedida pelo embaixador Alessandro Candeas, cônsul-geral do Brasil em Lisboa, que detalhou pela primeira vez o escopo completo da campanha descrita por ele não como uma ação pontual, mas como uma estratégia permanente, com múltiplas frentes institucionais, educativas e sociais.

A iniciativa

A campanha “Amigos do Brasil” tem origem direta nas decisões tomadas na Cimeira Brasil–Portugal, realizada em fevereiro, em Brasília. Na declaração final do encontro, os dois governos registraram formalmente a preocupação comum com o crescimento de episódios de racismo e xenofobia, especialmente no contexto migratório.

Meses depois, em outubro do ano passado, o tema avançou institucionalmente durante a reunião da Comissão Bilateral de Assuntos Consulares e Jurídicos, presidida pelo Itamaraty e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Pela primeira vez, entrou na agenda oficial um item específico intitulado “Estratégias de Combate Conjunto à Xenofobia e ao Racismo” — com ênfase explícita na palavra conjunto.

“Não se trata de uma reivindicação isolada do Brasil. É uma agenda assumida por Brasil e Portugal”, afirmou o diplomata. “Isso muda tudo.”

O Consulado-Geral do Brasil em Lisboa é considerado o maior consulado da europa em número de atendimentos. Crédito: Jordan Alves

Bullying contra crianças brasileiras acende alerta

O ponto de inflexão, segundo o Consulado, veio dos relatos cada vez mais frequentes recebidos da comunidade brasileira em Portugal tanto presencialmente quanto pelas redes sociais. Entre eles, casos de crianças brasileiras sofrendo bullying nas escolas, independentemente da classe social:

“Temos relatos de crianças que chegam chorando em casa por ouvirem que ‘não falam português’, que ‘não são daqui’. Tivemos episódios gravíssimos, profundamente tristes”, disse.

É nesse contexto que surge o eixo educacional da campanha. “Se o problema se manifesta na escola, é na escola que precisamos agir”, explicou.

Como vai funcionar o “Amigos do Brasil”

O programa será implementado diretamente em escolas portuguesas por meio de um concurso cultural que envolverá estudantes e professores. As atividades incluirão produção de redações, vídeos e músicas, todas voltadas à apresentação do “Brasil real”:

“A ideia é mostrar um Brasil alegre, desenvolvido, amigo de Portugal,  um país que herdou profundamente a cultura portuguesa e a transformou com sua própria dimensão e identidade”, afirmou o representante.

Os projetos vencedores serão premiados com experiências educativas, incluindo viagens ao Brasil, missões culturais e intercâmbios, viabilizados por meio de parcerias público-privadas. “Queremos transformar um problema real em algo positivo, educativo e transformador.”

Embora o eixo escolar seja o mais visível, o “Amigos Brasil” integra uma arquitetura diplomática mais ampla, organizada em quatro grandes frentes:

  • Executivo e políticas públicas: troca de experiências entre Brasil e Portugal sobre políticas de combate ao racismo, xenofobia e violência.
  • Legislativo e direito comparado: debates sobre legislações, como leis antirracismo e de proteção à mulher, como a lei Maria da Penha, comparando modelos brasileiros, portugueses e europeus.
  • Judiciário: cooperação direta entre magistrados, associações de juízes e conselhos de justiça, com foco em jurisprudência comparada.
  • Sociedade civil: envolvimento de universidades, organizações de direitos humanos e entidades europeias.
O cônsul Alessandro Candeas com a equipe da EntreRios. Crédito: Consulado-Geral do Brasil em Lisboa

A campanha também dialoga diretamente com instituições europeias, como a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e o Conselho da Europa, inserindo o projeto no marco mais amplo dos direitos humanos da União Europeia.

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Combater o desconhecimento

Para o Consulado, o crescimento da xenofobia está ligado menos a fatos concretos e mais ao medo e ao desconhecimento. “O brasileiro não representa ameaça alguma à sociedade portuguesa. Pelo contrário: trabalha, paga impostos e ocupa setores que não competem com os trabalhadores locais”, afirmou.

O diplomata lembrou ainda o histórico de acolhimento mútuo entre os dois países, citando o Estatuto da Igualdade e a tradição brasileira de receber portugueses “de braços abertos”.

O lançamento do “Amigos do Brasil” marca um novo capítulo nas relações Brasil–Portugal, ao reconhecer oficialmente um problema sensível e enfrentá-lo de forma conjunta, estrutural e transparente:

“Como diplomata, eu quero que os dois povos tenham uma imagem positiva um do outro”, concluiu. “Essa campanha é exatamente sobre isso”.

A iniciativa deverá ser apresentada oficialmente nos próximos meses e promete se tornar uma referência internacional de cooperação bilateral no combate ao bullying, à xenofobia e ao racismo começando onde tudo se forma: na escola.

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Lisboa

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