Cooperativas e comunidades transformam a produção de energia em Portugal, com benefícios econômicos, ambientais e sociais
Iniciativas ajudam famílias vulneráveis e contribuem para o combate às mudanças climáticas
- Lisboa
Abril 16, 2026
Os altos custos da energia no mundo têm inspirado modelos colaborativos nos quais pessoas comuns investem em fontes renováveis e mais leves para o bolso. Portugal já conta com comunidades de energia renovável e cooperativas, embora em pequeno número.
Uma delas é a Cooperativa Coopérnico, que nasceu em 2013. Quem compra três títulos de capital social (semelhante a uma ação) de 60 euros pode ter um retorno de 3,5% ao ano, direito a voto e adquirir energia da entidade.
A cooperativa investe em painéis fotovoltaicos e divide a energia com os edifícios nos quais são instalados. Após dez anos, a central é doada para a entidade social que participa da parceria e que poderá disponibilizar a energia gratuitamente.

“Temos como objetivo participar de uma transição energética
mais justa para todos”, destaca Ana Rita Antunes, coordenadora
do projeto, que hoje já tem mais de 7 mil cooperados, 6 mil contratos de eletricidade e 9 mil painéis.
A empresa é a única entidade sem fins lucrativos no mercado livre de energia. “Temos uma estrutura de custos menor, o que nos permite ter preços mais vantajosos. Trata-se de apoiar um projeto de justiça energética em um setor que ainda é muito fechado em torno de grandes empresas privadas”, ressalta Ana Rita.
Existem mais de 3,4 mil cooperativas de energia na Europa, mas Portugal conta com poucas. A instituição desenvolve ações sociais ligadas à energia, por meio do trabalho dos mentores de comunidades de energia, que ajudam cidadãos comuns a reduzir suas tarifas de energia, a ler faturas, acessar a tarifa social, verificar os melhores equipamentos e condições de moradia e combater a pobreza energética.
Já foram beneficiadas centenas de famílias, 72 só no ano passado. “Queremos levar conhecimento para que as pessoas possam gerir melhor a utilização de energia com soluções economicamente viáveis de acordo com seus perfis e suas
condições. Já realizamos visitas domiciliares e continuamos o trabalho de maneira online”, destaca Catarina Pereira, gestora de projetos.
Outro modelo de produção colaborativa é o das comunidades de
energia renovável (CER). Nele, os custos para a instalação de painéis solares são arcados pelos participantes, incluindo famílias, empresas, entidades e o poder público, que depois se beneficiam economizando uns 30% na conta de luz.
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Em 2024, foi criada a CER Lumiar/Telheiras, em parceria com a
associação Viver Telheiras e a Junta de Freguesia do Lumiar, com 16 membros. Os painéis foram implantados no prédio da Junta, e, a partir de 2025, começou o compartilhamento de energia com os participantes, incluindo três famílias em situação de vulnerabilidade.

“Essas pessoas entraram de forma gratuita, e os custos foram divididos pelos demais. A economia para elas em um ano pode chegar a 60 euros”, explica Miguel Sequeira, coordenador do CER. Ao todo, 15% da energia fica com a Junta, e o restante é partilhado entre os membros.
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O sistema, com 13 paineis solares, já produziu 19W/h desde que foi instalado, em junho de 2024. Desde o fim do ano passado, foi
instalada uma segunda unidade da comunidade em um pavilhão esportivo próximo ao local. Ao todo, participarão do projeto 50 famílias, sendo sete delas vulneráveis, mas a ideia é chegar a 70 consumidores, incluindo condomínios e pequenos negócios.
Benefícios para a comunidade
António Boucinha é um dos membros da CER Lumiar/Telheiras. Em seu prédio, ele já tinha instalado painéis fotovoltaicos em 2011 e, desde 2022, os utilizava para autoconsumo. Com a criação da Comunidade de Energia de Telheiras, tornou-se um dos membros investidores.

Ele informa ter economizado 21% em gastos com energia (cerca de 250KW), e acredita que, em quatro ou cinco anos, recupere o investimento feito nos painéis.
“Depois de recuperar o investimento, tudo vira lucro. O investimento também tem muito a ver com a consciência de utilizar menos combustíveis, pensando nas alterações climáticas e no que isso traz para as futuras gerações. E também é uma maneira de se estabelecer aqui uma vida comunitária, de ter mais contato com as pessoas e mais interesses em comum. É algo benéfico”, afirma ele.
renan@revistaentrerios.pt