Lauro Moreira é uma das principais referências da diplomacia brasileira. Ao longo da carreira, chefiou representações do Brasil em Buenos Aires, Genebra, Washington, Barcelona e Rabat, mas ganhou destaque ao se tornar, em 2006, o primeiro embaixador brasileiro junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), organização que reúne países de língua portuguesa para promover cooperação política, econômica e cultural.
O posto, até então inédito, inspirou os demais países na criação de posições diplomáticas dedicadas à organização. Em paralelo à carreira diplomática, sempre cultivou outra grande paixão: a cultura. Já se dedicou ao teatro, produziu documentários, foi premiado em concursos de fotografia e publicou livros sobre lusofonia, diplomacia e história.
“Em Barcelona, por exemplo, cheguei a criar o Clube da Música Brasileira e um grupo musical, o “Som Brasil”, que se apresentou em 23 cidades espanholas. Depois escrevi o espetáculo “Solo Brasil”, que foi apresentado em 21 países”, afirma ele.
Outro marco de sua atuação foi a divulgação da obra de Machado de Assis em Portugal. Em junho, participou da inauguração do Espaço Machado de Assis, no rooftop do Consulado-Geral do Brasil em Lisboa, novo espaço dedicado à realização de eventos e atividades culturais, onde falou sobre o legado do escritor.
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Lauro Moreira recebeu a reportagem da EntreRios para uma entrevista exclusiva em que falou sobre as origens da CPLP, seus ideais do que é a lusofonia (“é um patrimônio imaterial que foi se formando ao longo do tempo e que é absolutamente próprio”), como tem visto o trabalho atual da comunidade e o que espera para o futuro da organização.
Como surgiu a ideia de uma comunidade dos países de língua portuguesa?
No início do século XX, alguns escritores e historiadores brasileiros, como Rui Barbosa e Sílvio Romero, já falavam de uma comunidade luso-brasileira. Nos anos 1960 e 1970 houve um movimento importante, com participação de Agostinho da Silva, professor português que foi para o Brasil e criou, na Bahia, um instituto de estudos afro-brasileiros.
Mas a figura fundamental é José Aparecido de Oliveira. Ele foi secretário particular do governo de Juscelino Kubitschek, governador de Brasília, e mais tarde embaixador em Portugal. Ele atribuía essa demora à ditadura de Salazar em Portugal e ao regime militar brasileiro, que impediram o avanço da proposta durante décadas.
E como esse processo finalmente avançou?
Quando Itamar Franco assumiu a Presidência, nomeou José Aparecido embaixador em Portugal. A partir dali, ele articulou politicamente a criação da comunidade com o apoio do presidente português Mário Soares. Escreveu cartas aos líderes africanos de língua portuguesa e ajudou a consolidar a ideia de uma comunidade lusófona, criada oficialmente em 1996.
O óbvio seria que José Aparecido assumisse a secretaria-geral, o que não aconteceu, foi uma grande injustiça. Ele preferiu que o Brasil iniciasse sua atuação pela área de alfabetização
Qual é a sua concepção de lusofonia?
É um fenômeno de riqueza extraordinária, que não se limita ao uso da língua, embora ela seja a base de tudo. A lusofonia envolve 500 anos de história comum. Não se pode comparar a CPLP com a francofonia ou com a Commonwealth, que são fenômenos recentes, que começaram ontem.
Tenho uma imagem para ilustrar isso: imagine uma família brasileira do interior de Mato Grosso ou de Goiás, sem qualquer contato com o mundo exterior. Leve-a para viver quatro ou cinco anos em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique. Depois traga-a de volta. Faça a mesma experiência no Chile, na Argentina, no Uruguai ou Paraguai. Você vai ver que a família se sentia verdadeiramente em casa na África, e não nesses países de língua espanhola. Não é um problema de língua, é um patrimônio imaterial que foi se formando ao longo do tempo e que é absolutamente próprio.
É por isso que questiona a entrada da Guiné Equatorial na CPLP?
Exatamente, sempre fui contra. A Guiné Equatorial foi portuguesa até por volta de 1750, quando naquela mesma negociação do Tratado de Madrid sobre as fronteiras no Brasil, a Espanha cedeu um pedaço de terra perto do Rio da Prata e, em troca, ficou com a Guiné. É o único país que fala espanhol e português ao mesmo tempo, que não tem nada a ver com os 500 anos de convivência lusófona e até hoje não fez nada de concreto para trabalhar a nossa língua.
Por que o Brasil parece tão distante dessa comunidade e ainda conhece pouco sobre os países lusófonos?
O grande problema é que o povo brasileiro, em geral, desconhece a CPLP. O Brasil é um continente, um país ainda muito voltado para dentro, mesmo do ponto de vista do comércio exterior. Há problemas internos muito mais graves.
Por outro lado, também depende muito do grau de atenção que cada presidente dá ao tema. O anterior nunca colocou os pés na África e não compareceu a uma única reunião de chefes de Estado da CPLP, que ocorrem a cada dois anos, nem às reuniões de ministros das Relações Exteriores, a cada quatro. Isso é gravíssimo, porque a CPLP depende fortemente do Brasil. O país, sozinho, soma quase tanto quanto todos os outros juntos. Só de comparação, Portugal caberia 92 vezes dentro do território brasileiro e tem 10 milhões de habitantes contra 215 milhões do Brasil.
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Como o senhor chegou a Lisboa como embaixador junto à CPLP?
Entre 2003 e 2006 eu estava na Agência Brasileira de Cooperação, do Itamaraty, a convite do então ministro Celso Amorim. Ali eu já tinha muito contato com a CPLP, porque a cooperação é um dos pilares fundamentais da organização.
Fui avisado em 2006 que o ministro estava cogitando me mandar para um “posto sensacional” que descobri se tratar da criação da primeira embaixada específica do Brasil junto à CPLP. Até então, cada país-membro era representado apenas pelo próprio embaixador junto a Portugal, não havia função separada. O Brasil foi o primeiro país a criar essa função específica e, depois, todos os demais membros seguiram o exemplo.

O Acordo ortográfico foi um tema muito presente durante o período que você chefiou a missão da CPLP. De que forma isso se desenvolveu?
O primeiro acordo surgiu em 1943, mas não foi ratificado pelo Brasil, o que manteve a existência de duas ortografias oficiais. Em 1990, no contexto do movimento que mais tarde levaria à criação da CPLP, os então sete países independentes de língua portuguesa chegaram a um novo acordo.
A proposta de Portugal prevaleceu e foi aprovada por unanimidade. O país ratificou o texto logo em seguida, enquanto o Brasil só o fez anos depois. Como a entrada em vigor dependia da ratificação de todos os países signatários, o acordo acabou ficando paralisado por um longo período.
Quando cheguei a Lisboa como embaixador da CPLP, o tema estava praticamente esquecido. Em uma reunião da Academia Brasileira de Letras, o Acordo Ortográfico voltou a ser mencionado e a repercussão na imprensa brasileira e portuguesa recolocou o assunto em pauta. Em Portugal, ainda houve resistência política, mas no Brasil, a adoção foi imediata.
Como avalia o momento atual da CPLP?
Hoje, a organização não está bem. O problema mais grave é a situação na Guiné-Bissau, suspensa da CPLP, já que uma das condições para participar da comunidade é ter um regime democrático. O que ocorreu ali foi claramente um golpe de Estado.
Além disso, há uma disparidade estrutural profunda entre os países-membros (econômica, social, política) e problemas concretos. Um deles é o próprio acesso: hoje, um cidadão de Angola, por exemplo, não entra em Portugal sem visto e isso não depende só de Portugal, porque o visto, na prática, é de entrada em toda a União Europeia. Essa questão não envolve só a mobilidade de pessoas, mas também material.
Como o senhor vê as recentes restrições à imigração em Portugal, incluindo o aumento do prazo para obtenção da cidadania?
Isso cria um obstáculo maior, sem dúvida, mas não prejudica essa integração. O que está acontecendo é um fenômeno de toda a Europa, não há praticamente nenhum país aberto. É um problema sério, mesmo para imigrantes vindos de países da CPLP, mas sobretudo para os que vêm de outras circunstâncias mais difíceis.
E é, sem demagogia, um reflexo do que a própria Europa fez com a África no passado. Ninguém se preocupou, quando as colônias se tornaram independentes, em deixá-las em condições de prosperar sozinhas. Hoje, boa parte dessa população não tem condições de permanecer nesses países e busca vir para cá.
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E qual é o futuro da CPLP?
A CPLP já esteve melhor, e pode voltar a estar. É preciso o Brasil tenha mais participação de verdade nesse projeto e que Portugal e outros países africanos também se deem conta disso. A cooperação é, no fundo, a parte mais importante porque ela vai ajudar os países que mais precisam.
Certa vez, numa reunião de embaixadores aqui em Lisboa, discutíamos por que as coisas não avançavam. Eu disse: “A gente tem que entender que a CPLP será aquilo que nós quisermos que ela seja”. Não adianta esperar pelo outro, cada um tem que ter a sua responsabilidade.
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