Moda autoral

Da moda carioca a Lisboa: Beto Neves reinventa a icônica Complexo B na Europa

Designer brasileiro fala sobre mudança para Portugal, identidade carioca e nova fase da marca

Março 28, 2026

Designer Beto Neves, radicado em Lisboa. Reprodução/Instagram @betocombr.

Há mais de três décadas na moda, o designer Beto Neves construiu uma trajetória marcada pela valorização da identidade cultural brasileira, especialmente a carioca, aliando estética, humor e espiritualidade em suas criações. Fundador da marca Complexo B, lançada informalmente em 1994, ele se consolidou no mercado ao propor uma moda masculina mais expressiva, colorida e carregada de significado, com destaque para o uso de referências como São Jorge, símbolo de proteção e resistência.

Hoje radicado em Lisboa, o estilista atravessa uma nova fase profissional e pessoal. Entre feiras, produções autorais e experimentações no mercado europeu, Beto mantém viva a essência da marca enquanto adapta sua operação a um modelo mais enxuto e artesanal.

Em entrevista à EntreRios, ele fala sobre a mudança para Portugal, os desafios de empreender fora do Brasil, o conceito por trás da Complexo B e o que ainda o move criativamente após mais de 30 anos de carreira.

EntreRios: O que te trouxe para Portugal? 

Beto: Conheci Portugal em janeiro de 2000, três meses depois que a Amália Rodrigues tinha morrido. Ainda era um tempo de outro Portugal, de outra Lisboa. E passaram-se 20 anos e, de repente, em 2018, após um convite para criar um projeto de um escritório de representação de novas marcas do Brasil, comecei a pesquisar e resolvi vir por conta própria para fazer essa pesquisa in loco. E adorei. Em 2019, comecei a pensar em vir. Surgiu, então, essa ideia de criar um novo cenário, de mudar, de ousar e atravessar o Atlântico. Lisboa acabou reunindo tudo o que me atrai até hoje: as estações, a segurança, o respeito, a ética, coisas que eu já não tinha no meu dia a dia no Brasil.

EntreRios: Hoje a sua produção é aqui ou no Brasil?

Beto: No início, eu trouxe um pouco de tudo que eu faço no Brasil. Tenho um lema: “uma camisa nova pode mudar a sua vida”, que inclusive é o título do livro que estou escrevendo sobre os 30 anos da marca. Quando eu trago esse braço para Portugal, assumo isso como uma nova fase. Muitas peças ainda são produzidas no Brasil, porque trabalho com pouca quantidade e peças quase exclusivas. Aqui eu já produzo algumas coisas, principalmente a linha infantil, que desenvolvo só na Europa.

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EntreRios: Como as pessoas podem comprar as peças?

Beto: Hoje eu faço feiras, algo que já fiz durante muitos anos no Brasil, na época do Mercado Mundo Mix e da Babilônia Feira Hype. Aqui em Lisboa, percebi que essa era uma forma de começar sem um investimento alto. Ter uma loja fixa hoje é muito caro. Passei a observar onde essas pessoas circulam mais, como na região do Time Out, na Praça Dom Luís e no Príncipe Real, onde eu moro. A partir daí, comecei a participar dessas feiras e a entender melhor esse público. O difícil é que não há datas fixas, a divulgação acontece muito pelas redes sociais, WhatsApp e Instagram.

“Percebi muitas famílias viajando com crianças e essa ideia de roupas combinando, o ‘match’, funciona muito como presente”. Reprodução/Instagram @complexob_pt.

EntreRios: Como você vê a moda portuguesa?

Beto: Desde 2009, quando eu parei de fazer os desfiles do Fashion Rio, eu me afastei dessa coisa de “moda”, de tendência. Aqui na Europa, minha proposta é vender alegria. Pode parecer até presunção, mas é isso: vender cor, vender esse estilo carioca mais despojado. Eu percebo que isso faz falta em muitos lugares, principalmente no norte da Europa.

EntreRios: A Complexo B nasce ligada à cultura carioca e à ideia de proteção. Como traduz essa identidade hoje, em Lisboa?

Beto: Identidade é uma coisa que a gente tem. Eu não consigo fugir disso. Onde eu vou, essa minha identidade acaba aparecendo. Esse conceito carioca, de espontaneidade, alegria, continua o mesmo. O que eu fiz foi adaptar, principalmente com as camisas estampadas em viscose, que funcionam bem no verão europeu e preenchem esse gap desse turista que passeia por Lisboa ou mora. E trouxe a linha infantil, que é uma novidade. Percebi muitas famílias viajando com crianças e essa ideia de roupas combinando, o “match”, funciona muito como presente.

EntreRios: Além de estilista, você também atua com gestão e formação de novos talentos. Como surgiu esse trabalho?

Beto: Essa incubadora surgiu quando, em 2009, eu parei de fazer desfiles e fui estudar gestão, dentro de uma universidade voltada para o setor têxtil, com engenharia, modelagem, estilo, tudo muito integrado. Ela veio dessa vontade de compartilhar o meu legado, minha experiência de 30 anos, meus contatos, as soluções que eu encontrei para o meu próprio negócio. Também teve um fator pessoal: eu perdi minha sobrinha, que era minha herdeira, muito jovem, e isso me fez repensar muita coisa. Passei a querer ensinar, trabalhar menos, dividir conhecimento. Durante três anos, consegui estruturar cerca de 50 novas marcas.

Os atores Wagner Moura e Cauã Reymond em desfile do Fashion Rio. Crédito: Divulgação.

EntreRios: Depois de mais de três décadas de marca, o que ainda te move criativamente? 

Beto: A Complexo B completa 32 anos agora, o que me move é exatamente essa movimentação, essa possibilidade de mudança, de tentar surpreender. Atravessar o Atlântico, já quase com 60 anos, depois de 40 anos de experiência, foi uma forma de me manter vivo. Eu acho que a gente precisa continuar sonhando, claro, com passos menores, mas sempre em movimento.

EntreRios: Quais são as próximas novidades?

Estou criando uma linha de upcycling, transformando camisas usadas em peças exclusivas: tirando gola, mudando comprimento, reinventando. Não é algo inédito, mas é uma solução mais consciente, com menos desperdício e menos poluição.

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EntreRios: Você já trabalhou com nomes como Cauã Reymond e Wagner Moura e sempre trouxe para a passarela uma imagem masculina muito forte. Como construiu essa visão de masculinidade dentro da Complexo B?

Beto: Essa questão da moda masculina começou lá nos anos 1990, quando surgiu esse “novo homem”. O David Beckham era uma referência muito forte. Esse homem que começou a se cuidar, e que a publicidade passou a enxergar como público. A Complexo B entra justamente nesse contexto, propondo sair da mesmice, dessa coisa da calça chino, da camisa azul, do terno. A ideia era trazer cor, personalidade.

Beto Neves em desfile do Fashion Rio. Logo atrás dele, o ator Sérgio Lorosa. Crédito: Divulgação.

EntreRios: Gostava de quebrar padrões?

Sim, colocar homens mais velhos, mais corpulentos, com barba, com pelos, com identidade. Já levei o Sérgio Lorosa, que tinha 180kg, para um desfile sobre orixás. Trouxe o Cauã como “homem-pássaro”, com asas na passarela. Nunca quis seguir aquele padrão europeu, americano, do modelo perfeito. Sempre quis falar da imperfeição, mas de uma imperfeição bonita, real, possível. De uma identidade que qualquer pessoa pode acessar e que surpreende.

fernanda@revistaentrerios.pt

Fernanda Baldioti
fernanda@revistaentrerios.pt