Caçadores de cerveja

De cerveja com manga e marshmallow a receita envelhecida em barril: os sabores que chamaram a nossa atenção no ArtBeerFest

Durante quatro dias, Caminha, no extremo norte do país, recebeu a 9.ª edição do evento, que transformou o centro histórico em um grande laboratório de ingredientes e aromas

Julho 12, 2026

ArtBeerFest. Crédito: Divulgação
ArtBeerFest acontece há nove anos em Caminha. Crédito: Divulgação

Quem acha que cerveja tem gosto apenas de malte e lúpulo provavelmente sairia de Caminha com outra opinião. Durante quatro dias, a pequena vila portuguesa, no extremo norte do país, recebeu a 9.ª edição do ArtBeerFest, que transformou o centro histórico em um grande laboratório de aromas, ingredientes e criatividade.

Ao todo, 46 cervejarias de diferentes países apresentaram cerca de 350 estilos da bebida. Havia rótulos vindos de Portugal, Espanha, Bélgica, Alemanha, Suíça, Estados Unidos, Polônia, Dinamarca, Itália e outros destinos. A programação ainda contou com gastronomia e música ao vivo, atraindo cerca de 25 mil pessoas. “A diferença desse festival é que aqui fazemos tudo com mais força, paixão e garra e isso contagiou as pessoas”, explicou o diretor do evento Octávio Costa.

No meio de tantos copos, a EntreRios saiu em busca das receitas mais curiosas. Encontrou cervejas inspiradas em coquetéis clássicos, versões com manga, banana, marshmallow, cacau, framboesa e até exemplares que passaram anos envelhecendo em barris de vinho e de uísque.

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Cerveja com cara de coquetel

Quem passou pelo estande da Fermentage, de Lisboa, dificilmente saiu sem fazer uma pergunta: isso é cerveja ou drink? A resposta é um pouco dos dois. Fundador da marca, Jorge Tomé trabalhou durante anos na coquetelaria antes de mergulhar no universo cervejeiro. A experiência acabou dando origem a uma coleção inspirada em bebidas clássicas. “Sempre quis unir os dois mundos.”

Hoje, a marca reúne nove receitas inspiradas em coquetéis, além de rótulos tradicionais. Mojito, Aperol Spritz, licor de cacau com menta e creme de coco, além de versões tropicais com manga e oito frutas diferentes fazem parte do cardápio. Segundo Tomé, tudo começou com um clássico brasileiro. “A primeira experiência partiu da caipirinha. Pensamos: como transformar limão, cachaça e açúcar em cerveja? Assim nasceu uma Caipirinha Sour.”

Jorge Tomé. Crédito: Renata Telles
Jorge Tomé. Crédito: Renata Telles

A criação mais diferente, porém, chega na hora de servir. Algumas cervejas passam por uma máquina que cria uma textura granizada. “Ela trabalha a menos de 10° e funciona quase como espuma da cerveja, mas na realidade é gelo. Refresca ao longo da prova, cria uma explosão de frescura adicional”

Da Suíça para Caminha

Outro estande que despertou curiosidade foi o da Hoppy People, cervejaria suíça que tem um brasileiro-suíço à frente da produção. Natural de São Paulo, Thiago Gross começou fazendo cerveja em casa antes de se mudar para a Suíça, em 2018. Hoje integra uma das cervejarias artesanais que representam o país em festivais internacionais.

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A especialidade da Hoppy People são cervejas lupuladas, mas nos últimos anos a marca decidiu apostar em outro caminho: receitas envelhecidas em barris. “Vivemos na maior região vinícola da Suíça, chamada Valais. Começamos a trabalhar muito com barris de uísque e também de vinho. Algumas cervejas ficam três, quatro ou até cinco anos envelhecendo.” O resultado costuma surpreender quem experimenta pela primeira vez. “Muita gente bebe e diz: ‘Isso aqui não é cerveja’. Mas existe um público apaixonado por esse estilo.”

Thiago Gross. Crédito: Renata Telles
Thiago Gross da Hoppy People. Crédito: Renata Telles

Para ele, Caminha tem uma atmosfera difícil de encontrar em qualquer outro lugar. “Viajo o mundo inteiro por causa da cerveja, mas Caminha tem um sentimento que não existe em nenhum outro lugar. É uma festa aberta para todo mundo. Quem nunca tomou cerveja artesanal vem conhecer, quem já conhece encontra o que procura. E tudo acontece numa cidade medieval com uma energia muito especial.”

Framboesa e ruibarbo

Com dez anos de história, a Musa, de Lisboa, também levou novidades para Caminha. Conhecida por batizar suas cervejas com referências musicais, a marca aproveitou o festival para apresentar lançamentos que depois chegam aos bares. Uma das apostas foi uma lager criada em parceria com uma cervejaria holandesa, a Frontaal. “A gente fez uma lager leve, bem lupulada, pensada para o verão de Portugal, fácil de beber”, explica o cervejeiro Rafael Boza.

Outro destaque foi uma cerveja que combina framboesa com ruibarbo, planta muito utilizada na culinária europeia. “A mistura ficou bem interessante. O ruibarbo tem uma acidez natural e um toque frutado que combina muito bem com a framboesa.”

Rafael Boza. Crédito: Renata Telles
Rafael Boza da Musa. Crédito: Renata Telles

Único brasileiro da equipe de cervejeiros da Musa, Boza conta que a proposta da marca é produzir receitas acessíveis, sem abrir mão da personalidade. “A gente preza por cervejas fáceis de beber, mas mantendo bastante sabor.” Para a Musa, Caminha também funciona como uma espécie de laboratório. “Muitas novidades estreiam aqui. Depois seguem para os nossos bares em Lisboa.”

Com receitas que lembram drinks, cervejas envelhecidas por anos em barris e combinações pouco convencionais, o festival mostrou que a cerveja artesanal vive um momento de experimentação. Para quem passou por Caminha no fim de semana, cada copo serviu também como convite para descobrir novos sabores.

Corrida e cerveja

Mikkeller World Beer Run. Crédito: Renata Telles
Mikkeller World Beer Run. Crédito: Renata Telles

Nem só de degustação vive o festival. Todos os anos, a Mikkeller World Beer Run reúne participantes para uma corrida de 10km pelas margens do estuário do Rio Minho. A diferença aparece no percurso: além da paisagem, há um pit stop inusitado no quilômetro 5, onde os corredores podem “reabastecer” com cerveja. “A corrida é para socializar”, afirmou Octavio.

renata@revistaentrerios.pt

Renata Telles
renata@revistaentrerios.pt