A vida de pobreza, no interior do Ceará, começou a melhorar quando, aos 16 anos, Antônio Rodrigues ganhou uma ovelha de presente de um tio. Vendeu o animal e, com o dinheiro, comprou uma passagem para o Rio de Janeiro, apostando que, na cidade grande, viveria dias mais prósperos. Acertou, mas, antes, foi faxineiro, lavou pratos, descascou batatas e poupou cada moeda recebida. Hoje, aos 58 anos, é empresário e dono de 28 estabelecimentos de gastronomia no Brasil e cinco em Portugal, onde acaba de inaugurar o sexto: a Pizzaria Stretto, na Praça dos Poveiros, no Porto.
No Brasil, ganhou notoriedade principalmente pela rede de bares e restaurantes Belmonte, com nove filiais. No país luso, o destaque é a Casa Guedes, que tem cinco filiais portuenses e conta com dois sócios na empreitada. A rede chega a vender 2.500 sanduíches em um dia de muito movimento. A Pizzaria Stretto nasce com o apoio de suas “irmãs” vizinhas e famosas, digamos assim.
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“Estamos em um ponto bom, ao lado de uma Casa Guedes. Então, vamos até a fila do sanduíche oferecer pizza aos possíveis novos clientes. Quem quiser conhecer a nossa loja será convidado a entrar. Contratamos um italiano de Nápoles para fazer a iguaria e trabalhamos com boa farinha da Itália”, conta Rodrigues.
A receita da expansão internacional dos negócios é simples: adaptar o cardápio ao gosto do freguês. Rodrigues já conhece a alma gastronômica do cliente europeu, continente que pretende conquistar na sequência. “Os portugueses não são iguais aos brasileiros. No bar, toma dois finos, raramente bebe mais que isso; o brasileiro toma 30 chopes.
Não sei se o chope de Portugal é mais forte. O brasileiro chega às 17h e vai embora às 23h; já o português não fica tanto tempo assim bebendo no bar”, compara. Têm contribuído para o sucesso dos negócios os bons insumos de Portugal, por mais simples que seja a receita. “Na Casa Guedes, a gente vende muito sanduíche de pernil.

É o carro-chefe. O pão português é imbatível, né? Dá um croc na boca. Tem espanhol que vai lá e come cinco desses sanduíches com queijo da Serra”, afirma. O empresário pretende se alastrar por Portugal e até romper fronteiras. “Eu sou maluco”, brinca. “Não deveria estar correndo igual a um louco do jeito que eu corro.
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Mas Portugal é um lugar que fala a língua da gente, e apareceu essa chance, né? É um lugar onde nós temos muita tranquilidade, um país que não é grande, mas tem muitos turistas e oportunidades de negócios. Eu e os meus sócios pretendemos abrir uma Casa Guedes na Espanha, talvez começando por Barcelona, Vigo e vamos por aí…”, diz o ex-menino pobre, que certa vez enxergou em uma ovelha um novelo de oportunidades.
Os portugueses não querem trabalhar nesse ramo
A mão de obra brasileira é maioria entre os cerca de 400 funcionários que trabalham nos empreendimentos portugueses de Antônio Rodrigues. “Temos um funcionário italiano na Stretto que está ensinando o pessoal a fazer pizza, mas o pizzaiolo definitivo provavelmente será brasileiro. Os portugueses não querem trabalhar nesse ramo”, destaca o empresário que, em seu país de origem, administra 1.200 funcionários em suas 28 casas.
Segundo ele, a mão de obra portuguesa está migrando para outras praças da Europa em busca de remunerações melhores. “Hoje, ainda jovens, eles vão para a Inglaterra, Suíça, Espanha ou França, onde pagam muito melhor. É uma pena, eu queria conseguir uma maneira de pagar um pouco mais para ter pessoas nativas trabalhando comigo. Minhas casas em Portugal são frequentadas por gente de várias nacionalidades: inglês, francês, americano, chinês. Mas tem mais português do que turista”, conta.
Esta reportagem foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa, assine aqui.