Dia das Mulheres

De medalhista olímpica a empreendedora: brasileira impulsiona beach tennis em Cascais

Ida Álvares fundou escola e transformou o esporte em espaço de convivência para imigrantes

Março 6, 2026

Ida Álvares
Ida Álvares fundou escola de beach tennis em Cascais (Foto: Divulgação)

Depois de uma carreira marcada por conquistas com a seleção brasileira de vôlei e participação em três edições dos Jogos Olímpicos, a ex-atleta Ida Álvares encontrou em Portugal um novo capítulo para sua trajetória no esporte. Medalhista de bronze em Atlanta 1996, a paulista chegou ao país em 2019 e, pouco tempo depois, transformou as areias de Cascais em palco para um novo projeto de vida: a criação da escola Beach Tennis Cascais.

Mais do que ensinar uma modalidade esportiva, Ida passou a promover encontros, amizades e integração entre pessoas de diferentes nacionalidades, muitas delas imigrantes em busca de conexão social. Em entrevista à revista EntreRios, a ex-jogadora relembra sua trajetória, fala sobre os desafios da vida fora do Brasil, a reinvenção após o alto rendimento e o papel do esporte como ferramenta de inclusão e bem-estar.

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EntreRios: Ida, o que te trouxe a Portugal?

Ida: Depois que parei de jogar, fiquei um tempo tentando me encontrar como ex-atleta. Não é fácil, porque você precisa se reinventar. Acabei entrando na política meio por acaso: você conhece um deputado, ajuda numa campanha e as coisas vão acontecendo. Fui secretária de esportes, trabalhei em áreas ligadas ao esporte e também na Secretaria de Turismo de Ilhabela. Tive alguns cargos públicos relacionados ao esporte. Foi uma experiência muito rica, porque eu conseguia usar toda a bagagem do esporte para contribuir com outras pessoas. E também fui cursar Educação Física aos 50 anos.

EntreRios: Você chegou a se filiar a algum partido político?

Ida: Cheguei a pensar em me candidatar. Eu acreditava muito naquela ideia de que, quando a gente se omite, acaba abrindo espaço para pessoas que não vão fazer nada de bom. Pensava: “talvez seja melhor eu estar lá”. Mas, quando você vê como funciona na prática, percebe que é muito mais difícil do que parece. As pessoas prometem ajuda, mas muitas vezes ela não vem. E os custos de campanha são muito altos. Acabei desistindo. Mesmo assim, continuo gostando muito de políticas públicas, principalmente ligadas ao esporte. Acho importante que as pessoas ocupem os espaços públicos, usem as praças, pratiquem esporte. O esporte pode ser uma ferramenta de saúde, educação e bem-estar, não só de alto rendimento.

EntreRios: Foi nesse contexto que você decidiu vir para Portugal?

Ida: Em parte, sim. Eu tenho três sobrinhos aqui, filhos de uma irmã que já faleceu. Então eu já tinha algum vínculo com o país. Também estava trazendo minha filha adolescente e queria mostrar outra realidade para ela. Pensei que mudar para um país com outra língua seria muito mais difícil. Então resolvi começar por Portugal. Fechei minha casa no Brasil, vendi tudo o que tinha — literalmente na porta de casa — e vim com duas malas: uma minha e outra da minha filha.

EntreRios: E como foi esse começo?

Ida: Entrei em contato com um clube no Porto que tinha equipe de vôlei e perguntei se precisavam de técnico. Disseram que sim, mas avisaram que não tinham muito dinheiro. Depois, meus sobrinhos me chamaram para Lisboa. E a ideia sempre foi montar algo com beach tennis, um esporte que eu já conhecia bem. Fiz um projeto e apresentei ao Clube Nacional de Ginástica (CNG). Criei o Instagram do Beach Tennis Cascais, comecei a divulgar e falar com muita gente. Depois me chamaram para dar aulas na Praia da Conceição.

EntreRios: Hoje a escola se chama Beach Tennis Cascais. É um ponto de encontro da comunidade brasileira?

Ida: Sim, bastante. No começo foi até mais fácil justamente por causa disso. A maioria dos alunos era brasileira. Hoje, como estamos numa praia muito frequentada por estrangeiros, aparecem americanos, russos, ucranianos e gente de vários lugares. Isso é muito legal.

Beach Tennis Cascais. Crédito: Divulgação.

EntreRios: Qual é a proposta do projeto?

Ida: Eu não quero fazer alto rendimento ali. Não é sobre formar campeões. A ideia é que as pessoas se conectem, conheçam gente nova e não se sintam sozinhas em um país diferente. Muitas vezes são pessoas que queriam praticar esporte quando eram crianças, mas foram excluídas porque não tinham tanta habilidade. Esse é o público que eu gosto de receber. É sobre diversão e convivência.

EntreRios: Quantas pessoas já passaram pelo Beach Tennis Cascais?

Ida: No meu WhatsApp tenho mais de 360 pessoas. Tem gente que já foi embora de Portugal, mas continua no grupo. Tem gente que passa metade do ano no Brasil e metade aqui. Hoje, de forma fixa, temos cerca de 80 alunos.

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EntreRios: E hoje você também emprega pessoas no projeto?

Ida: Sim. Tudo isso é muito novo para mim, porque eu nunca tinha sido empreendedora. Estou aprendendo. Comecei de forma bem informal e hoje tenho a minha empresa, a Ida Álvares. Também criamos uma associação esportiva ligada ao projeto.

Ida com alunos do beach tennis Cascais (Foto: Divulgação)

EntreRios: Aproveitando o gancho do Dia das Mulheres: você foi — e ainda é — considerada uma mulher muito bonita, chegou a ser vista como símbolo sexual e referência para muitas mulheres. Como lida hoje com o passar do tempo e com o espelho?

Ida: Isso não é algo que me incomoda. Não fico triste pensando que deveria estar mais bonita. Acho que a beleza vem muito de dentro. Hoje estou satisfeita com a minha maturidade e com o meu propósito de ajudar as pessoas. Isso é o que realmente me alimenta. Claro que tem dias em que me sinto mais bonita e outros em que penso: “nossa, estou largada”, porque vivo de roupa de ginástica. No começo aqui eu ficava muito tempo debaixo do sol e acabei me descuidando um pouco por causa disso. Mas isso não é o mais importante. O mais importante é que hoje tenho muitos amigos, uma família. Consegui criar uma comunidade aqui.

EntreRios: E, como imigrante, quais foram os maiores desafios?

Ida: Principalmente a parte burocrática. Contabilidade, documentos, renovação de residência… coisas que eu nunca gostei de fazer. Também trouxe minha filha e precisei organizar tudo para que ela pudesse ficar legalmente aqui. Contratei advogado, resolvi visto de trabalho. Foi um processo grande.

EntreRios: Mesmo assim, você parece enfrentar esses desafios com entusiasmo.

Ida: Acho que sou meio viciada em sair da zona de conforto. Eu poderia ter ficado no Brasil reclamando da vida, mas prefiro aprender, viver, viajar e expandir. Quero fazer o beach tennis crescer. Se pudesse, abriria projetos também na Espanha. Meu sonho é organizar um grande torneio e trazer gente de vários lugares para participar.

fernanda@revistaentrerios.sapo.pt

Fernanda Baldioti
fernanda@revistaentrerios.pt

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