Esporte
Desunião F.C
Desentendimentos entre clubes minam ligas e dão à CBF a oportunidade de continuar sendo a dona da bola no futebol brasileiro
- Brasil
Maio 5, 2026
Apesar da divisão, o surgimento da Libra e da Liga Forte União, hoje Futebol Forte União (FFU), parecia ser a luz no fim de um túnel infinito. Seria o passo decisivo para o futebol brasileiro seguir o caminho que fez da Premier League e da La Liga os campeonatos mais bem organizados e rentáveis do mundo. O discurso era bonito: clubes no centro das decisões, campeonato mais bem vendido, calendário mais racional, marca fortalecida, governança profissional. Na prática, porém, o que nasceu não foi uma liga, mas uma briga de vizinhos de condomínio. E no meio da confusão está a CBF, que vê no racha a oportunidade de continuar sendo a dona da bola no futebol brasileiro. E manobra para isso.
As ligas não funcionam no futebol brasileiro porque os clubes querem os benefícios da união, mas não aceitam os custos da coletividade. Todos falam em equilíbrio competitivo, desde que a grama do seu vizinho não fique mais bonita que a dele. A ideia de liga exige flexibilização, visão de longo prazo e algum desprendimento. O futebol brasileiro opera no modo inverso: cada dirigente calcula primeiro o impacto no caixa do seu clube, depois no seu mandato, e só no fim, pensa no fortalecimento do produto como um todo.
Vejamos, por exemplo, o caso do Palmeiras. Nesta segunda-feira (4), o clube anunciou a saída da Libra mesmo depois de ter assinado o acordo que destravou o repasse de cerca de R$ 150 milhões ao Flamengo, em parcelas, até 2029. A instituição presidida por Leila Pereira aceitou o acerto em nome da liberação de receitas para os outros clubes da Libra, mas saiu contrariado e incomodado com a divisão do butim e com a percepção de que o bloco se afastou do objetivo original de construir uma liga sólida e unida. É a síntese perfeita do futebol brasileiro: assina-se o acordo para resolver o problema de hoje e, no dia seguinte, começa-se a cavar a crise de amanhã.
É nesse vácuo que a CBF age. A entidade percebeu que a divisão entre os clubes é o caminho mais curto para manter seu protagonismo e sua influência. A manobra é simples: apresentar-se como mediadora da crise, oferecer previsibilidade a clubes pressionados por dinheiro e, aos poucos, reassumir o controle sobre um negócio que os times diziam querer administrar sozinhos. Foi assim que atuou para intermediar a venda dos direitos de transmissão dos jogos de Náutico e São Bernardo na Série B para a TV Globo.
O problema é que não existe liga forte tutelada por confederação nacional. O modelo pressupõe autonomia para que os clubes sejam capazes de vender seu produto, organizar seus interesses e construir regras estáveis. É assim na Europa, onde os principais campeonatos são administrados pelos verdadeiros donos do espetáculo. Quando a CBF volta a ser árbitra, negociadora e fiadora do processo, o projeto independente vira apenas uma nova roupagem para um velho figurino. Muda o nome, muda o PowerPoint, muda o discurso. A lógica continua a mesma: fragmentar para governar.
O futebol brasileiro segue preso ao seu velho vício: transformar oportunidades em disputas paroquiais. Teve a chance de criar uma liga independente, comercialmente forte e politicamente respeitada. Preferiu criar blocos, manifestos, ações judiciais, suspeitas e ressentimentos. Enquanto isso, a CBF observa, calcula e avança. No país da bola, a liga ainda não nasceu. Quem nasceu foi o Desunião F.C.