EDUCAÇÃO

Dia Nacional do Estudante: conheça o perfil dos filhos de estrangeiros em Portugal

Cerca de 18% dos alunos em escolas públicas do continente têm pelo menos um progenitor estrangeiro, com diferenças no aproveitamento escolar e acesso a apoios sociais

Março 24, 2026

Dia Nacional do Estudante: conheça o perfil dos filhos de estrangeiros em Portugal. Crédito: Freepik
Dia Nacional do Estudante: conheça o perfil dos filhos de estrangeiros em Portugal. Crédito: Freepik

Neste Dia Nacional do Estudante, enquanto milhares de jovens protestam em Lisboa por condições mais justas no ensino superior, o retrato do perfil escolar evidencia que as desigualdades educacionais começam cedo, nos primeiros ciclos, e se refletem em aproveitamento, retenção e acesso a apoios sociais.

Os dados mostram que o debate sobre equidade e acesso à educação começa já nas escolas básicas e secundárias, atravessando todo o percurso escolar.

A manifestação em Lisboa, organizada por dezenas de associações de estudantes e núcleos académicos, reivindica gratuidade do ensino superior, mais alojamento e mudanças no sistema de bolsas.

“Esperamos a presença de milhares de estudantes nas ruas de Lisboa, porque todas as associações e federações, à exceção da Federação Académica do Porto, se juntaram à iniciativa”, disse à Lusa David Talete, membro da direção da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (AEFLUL).

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Segundo Talete, os estudantes também saem à rua para contestar o novo modelo de atribuição de bolsas e exigir o cumprimento do Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES).

Cresce a diversidade nas escolas públicas

Ao mesmo tempo, as manifestações estudantis do ensino superior em Lisboa corroboram a ideia de que o debate sobre equidade atravessa todo o percurso escolar, impactando não apenas o acesso às universidades, mas também o sucesso acadêmico e oportunidades futuras.

Segundo a publicação mais recente da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), divulgada no último trimestre de 2025, intitulada “Perfil Escolar de Alunos Filhos de Pais com Nacionalidade Estrangeira 2023/2024”, nas escolas públicas do continente:

  • 81,1% dos alunos têm pais portugueses.
  • 11,1% pertencem à categoria Filhos de Pais Estrangeiros (2) — ambos os pais estrangeiros ou o aluno também estrangeiro.
  • 6,8% pertencem à categoria Filhos de Pais Estrangeiros (1) — pelo menos um progenitor estrangeiro.
  • 1% não possui informação sobre a nacionalidade dos pais.

A distribuição por sexo é equilibrada: entre os filhos de pais portugueses, 51,1% são do sexo masculino; na categoria 2 de estrangeiros, 50,1% são meninos; e na categoria 1, 50,5% são do sexo masculino. Estes dados revelam que, do ponto de vista demográfico, a diversidade não altera significativamente a composição por gênero.

Aproveitamento escolar e desigualdade socioeconômica

Apesar de perfis semelhantes, o aproveitamento escolar apresenta diferenças marcantes entre os grupos:

  • Filhos de pais portugueses: 95,5% de aproveitamento, 3,9% de retenção, 0,6% de abandono.
  • Filhos de pais estrangeiros (2): 87,9% de aproveitamento, 10,8% de retenção, 1,2% de abandono.
  • Filhos de pais estrangeiros (1): 91,7% de aproveitamento, 7,3% de retenção, 1,0% de abandono.

A relação com a Ação Social Escolar (ASE) reforça a percepção de desigualdade: os alunos filhos de pais estrangeiros estão mais presentes nos escalões A e B, enquanto os filhos de pais portugueses predominam em escalões mais altos ou não beneficiam. Por exemplo, 21,6% dos alunos da categoria 2 e 22,9% da categoria 1 estão no escalão A, contra 14,3% entre os alunos com pais portugueses.

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Distribuição por ciclos de ensino

A predominância de alunos com pais portugueses mantém-se em todos os ciclos, embora com variações:

  • Educação pré-escolar: 81,4% portugueses, 11,3% estrangeiros (2), 7,3% estrangeiros (1).
  • 1.º ciclo: 79,8% portugueses, 13,1% estrangeiros (2), 7,2% estrangeiros (1).
  • 2.º ciclo: 80,4% portugueses, 12,6% estrangeiros (2), 7,0% estrangeiros (1).
  • 3.º ciclo: 82,2% portugueses, 11,0% estrangeiros (2), 6,9% estrangeiros (1).
  • Ensino secundário: 86,1% portugueses, 7,9% estrangeiros (2), 6,0% estrangeiros (1).

O padrão indica que a diversidade é maior nos primeiros anos, refletindo fluxos migratórios recentes, enquanto nos ciclos mais avançados predominam alunos com pais portugueses. Isso sugere que os desafios de integração e apoio acompanham os alunos desde cedo.

flavio@revistaentrerios.pt