Dinheiro compra saúde? Talvez sim
Ainda é pouco comum associar saúde financeira à saúde mental, mas a relação é evidente
- Lisboa
Julho 2, 2026
Nunca esqueci a frase “o dinheiro é o leite materno da vida”, dita pelo terapeuta alemão Bert Hellinger (1925-2019). A metáfora faz a seguinte comparação: como o leite nutre e garante a sobrevivência do bebê, o dinheiro, na vida adulta, representa segurança, estabilidade e possibilidade de crescimento.
Ainda é pouco comum associar saúde financeira à saúde mental, mas a relação é evidente. O dinheiro é hoje a principal fonte de estresse para grande parte das pessoas, segundo a Associação Americana de Psicologia (APA). A instabilidade financeira aumenta os níveis de estresse, favorecendo quadros de ansiedade, insônia e depressão, e o sofrimento psíquico compromete a capacidade de administrar os próprios recursos, levando a decisões impulsivas, menor planejamento e maior exposição ao risco.
Quando não temos recursos suficientes, a mente se sente em perigo e passa a operar em “modo de sobrevivência”. O foco é a urgência de pagar contas e resolver problemas imediatos, e não a concentração, o aprendizado e a capacidade de tomar boas decisões.
O medo constante, o estresse prolongado e a sensação de insegurança corroem o bem-estar psicológico e aumentam o risco de transtornos mentais.
Pessoas superendividadas têm três vezes mais chances de desenvolver problemas graves de saúde mental, 93% das pessoas emocionalmente abaladas gastam mais do que o habitual, 92% relatam maior dificuldade para tomar decisões financeiras, e 74% adiam o pagamento de contas. Os dados estão no relatório do Money and Mental Health Policy Institute.
A sensação de escassez nem sempre está ligada à falta de dinheiro. Pode surgir da percepção crônica de que nunca se tem o suficiente. Pessoas com boa condição financeira podem viver aprisionadas pela ansiedade econômica, em uma busca incessante por mais lucro, mais patrimônio e mais segurança. Nesse processo, acabam negligenciando outras áreas da vida, como relações afetivas, descanso e saúde emocional. O paradoxo é claro: quando o dinheiro deixa de ser ferramenta e passa a ser obsessão, ele já não produz bem-estar.
Pesquisadores como Elizabeth Ridley apontam que intervenções econômicas, como alívio de dívidas e transferência direta de renda, reduzem a ansiedade e a depressão. As revistas médicas JAMA Network Open e PLOS Medicine reforçam que a pobreza deve ser vista como causa direta do adoecimento mental, perpetuando um ciclo contínuo de vulnerabilidade. A capacidade de compreender e utilizar conhecimentos para tomar boas decisões sobre dinheiro no dia a dia, conhecida como literacia financeira, contribui para saúde emocional, dignidade e qualidade de vida.
Essa coluna foi publicada originalmente na revista EntreRios.
Você pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler na íntegra online.