Empreendedorismo

Do alpinismo ao Rock in Rio Lisboa: a história do brasileiro que ganhou projeção mundial com salas sensoriais

Sala sensorial do Rock in Rio Lisboa recebeu recorde de atendimentos e de kits utilizados em 2026

Julho 1, 2026

Sala sensorial da Spider no Rock in Rio Lisboa. Crédito: Divulgação

Da criação de um projeto inicial em uma oficina de 6m² no interior de São Paulo a um espaço fabril de 5 mil metros quadrados e vendas de equipamentos para 10 países e atendimento a mais de 56 mil pessoas em todo o mundo. Essa é a trajetória da Spider Projetos e Equipamentos ao longo dos últimos 13 anos.

A empresa fundada por Ezequiel Marques e Michele de Melo, que começou a partir da escalada, se especializou na criação de ambientes acolhedores para pessoas neurodivergentes e se destacou ao longo do último Rock in Rio Lisboa ao levar mais uma sala sensorial ao festival, atendendo um número recorde de pessoas.

A história da Spider começou de maneira despretensiosa. Ezequiel era projetista de engenharia para multinacionais como a Bosch e a Ford. Um de seus hobbies era o de fazer escaladas e foi por conta dele que surgiu a alcunha Spider da empresa.

Sala sensorial no Rock in Rio Lisboa. Crédito: Divulgação

“Na escalada sempre tem a pessoa que vai passar a corda de segurança para os demais subirem e fazerem a escalada. E o pessoal chamava meu marido e dizia: chama o Spider, o homem aranha que ela faz essa aí. Como a ideia era também exportar o nome em inglês já ajudaria”, conta Michele.

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Ao fabricar e criar as próprias agarras para escalada por questões de segurança, Ezequiel começou a vender para os amigos e chamou a atenção no meio. Uma arquiteta em Campinas perguntou ao casal se conhecia alguém que produzia agarras para o projeto de uma clínica voltada para crianças.

O Ezequiel pediu para comprar o material e ele mesmo desenvolveu o equipamento para essa sala de integração sensorial e isso acabou sendo divulgado para outras terapeutas ocupacionais que pediram a fabricação dessas salas. A partir de então começamos a trabalhar juntos e a estruturar o negócio que foi tomando forma”, relembra ela que é graduada em ciências contábeis e administração com especialização em gestão.

Para o desenvolvimento desses espaços, o casal também acompanha a terapia das crianças para desenvolver as ferramentas mais adequadas e a entender suas principais características e os principais cuidados com segurança. Hoje, a empresa se expandiu e, além dos projetos de salas, a empresa também vende equipamentos para terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, pedagogos e psicólogos que trabalham com pessoas neurodivergentes.

Um dos grandes marcos da empresa foi a realização de um projeto piloto de sala para 80 pessoas autistas em um evento da Faculdade de Direito da USP.

Kit sensorial para pessoas neurodivergentes. Crédito: Divulgação

“A gente não imaginava tantos autistas na turma”, conta. O casal desenvolveu e patenteou o projeto da sala, o que potencializou a expansão da empresa. A partir de 2017, a empresa começou a desenvolver outras salas para ambientes públicos e comerciais, além de clínicas e consultórios, mas ressalta que o trajeto não foi simples.

Levamos muita porta na cara”, destacou. Nesse ano, também foi inaugurada a fábrica da empresa na cidade de Mogi Guaçu.

Uso de abafadores de som durante o Rock in Rio Lisboa 2026. Crédito: Divulgação

A visibilidade dos projetos levou o casal a ter contato com a família Medina, os organizadores do Rock in Rio. A primeira ideia de sala sensorial foi levada para o The Town, cuja primeira edição aconteceu em 2023. Em seguida, vieram participações no Lollapalloza, Rock in Rio Lisboa, em 2024, e o Rock in Rio no Brasil. Para além da sala, que conta com a presença de profissionais especializados também há um kit sensorial.

Não é simplesmente uma sala montada para você entrar, é para você ser acolhido”, ressalta o casal. O objetivo é que permitir que essas pessoas possam se tranquilizar e se sentir mais confortáveis em meio a um ambiente com muitos estímulos sonoros e visuais.

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Enquanto no Brasil o espaço é maior, com mais de 300 atendimentos por evento, em Portugal o espaço é menor, mas com números crescentes.

Na edição desse ano, o resultado foi recorde: nos dois finais de semana houve 24 atendimentos em sala realizados por profissionais especializados, além de 40 kits sensoriais (composto por abafadores sonoros, um par de óculos escuros, dois objetos sensoriais, incluindo um hand spinner, e uma cartilha de comunicação para não falantes utilizados) utilizados.

Ao todo, pelos menos quatro profissionais que atuam em clínicas parceiras em Portugal acompanham o público na sala. “Os números superaram as nossas expectativas. Temos percebido um aumento da adesão por parte do público e temos que nos adaptar a questões culturais. Os europeus preferem comprar os equipamentos e agora eles estão entendendo melhor a questão do empréstimos dos kits”, analisa ela.

Cada pessoa precisava de cerca de 20 minutos na sala para se tranquilizar e voltar ao festival. A empresa afirma que sem o espaço essas pessoas teriam que ser atendidas em outro local ou nem mesmo poderiam ir ao festival. “A sala está aberta a todos, independentemente se você tem uma deficiência ou não, mas o uso é preferencial para pessoas neurodivergentes”, relata.

Atuação em Portugal e expansão para o exterior

Hoje, a Spider possui mais de sete mil clientes espalhados por nove países do mundo, além de contar com 110 colaboradores, uma fábrica de 5 mil metros quadrados e de já ter atendido mais de 56 mil pessoas pelo mundo. Hoje, a empresa trabalha para pequenas clínicas e também para grandes redes e franquias do setor de saúde, como a Priorit, que abriu unidade em Lisboa recentemente.

Desde 2019, a empresa também possui um escritório em Portugal, país em que possui duas clínicas como clientes. A empresa também participa de congressos e mantém contatos com associações de terapeutas ocupacionais de diversos países, como Itália, França e Reino Unido. Para todos eles, também exporta equipamentos que já são pré-fabricados no Brasil e são transportados para fora.

Para Michele, o grande desafio é logístico, além do investimento para a fabricação dos equipamentos fora do Brasil.

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“Financeiramente falando também, é muito maior o investimento. Temos que fazer isso com muita cautela e estratégia. É preciso verificar se é melhor fazer o projeto semiacabado ou se compensa produzir o produto completo, por exemplo, além de adaptar muitos dos nossos processos e projetos fora do Brasil”, ressalta.

A executiva garante que a empresa já tem realizado pesquisas para a instalação de uma futura fábrica em Portugal. Até agora, as cidades de Maia e de Leiria já foram cogitadas para receber a instalação.

Até 2030 queremos construir nossa fábrica por aqui”, reitera ela, destacando que Portugal é um país estratégico para as exportações para diversos países do mundo.

Segundo o casal, embora a empresa já seja muito conhecida no meio da terapia ocupacional, a ideia é expandir essa atuação. “A gente já superou uma tradicional empresa americana da área em termos de tamanho e já somos referência nesse meio para qualquer profissional. Aonde chamarem a gente com projetos que se conectem com o nosso propósito nós queremos estar. Queremos chegar no mundo todo e ter a nossa marca identificada em qualquer lugar”, destaca.

renan@revistaentrerios.pt

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