Do ‘baby blues’ à depressão pós-parto: entenda os sinais e saiba quando pedir ajuda
O tratamento pode incluir psicoterapia e, em alguns casos, antidepressivos
- Lisboa
Abril 3, 2026
A mãe ideal não precisa ser perfeita; só precisa ser “suficientemente boa”. Essa ideia de cuidado amoroso e consistente foi desenvolvida por Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês muito respeitado no desenvolvimento infantil.
Ele também defendia que a mãe deveria assumir o cuidado direto e a proximidade emocional com o bebê, especialmente por estar amamentando, enquanto o pai protegeria o ambiente familiar e daria suporte à mãe, para que ela tivesse recursos e espaço para cuidar do bebê sem interferências externas.
Nos dias de hoje, essas ideias podem ser consideradas um pouco ultrapassadas, já que os pais querem participar mais ativamente da criação dos filhos. Ainda assim, a dinâmica faz sentido quando levamos em conta as exigências dessa fase e todas as alterações físicas e químicas pelas quais as mães passam nesse período tão sensível de suas vidas.
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Muitos romantizam a maternidade, mas o período pós-parto pode ser um dos mais difíceis na vida de uma mulher, dependendo das circunstâncias do nascimento, da rede de apoio e da saúde física e mental da mãe.
Nos primeiros dias após o nascimento do bebê, a mãe pode vivenciar o baby blues, ou tristeza pós-parto — uma alteração emocional leve e temporária, que costuma surgir entre o 2º e o 5º dia após o parto e pode durar até duas semanas. Trata-se de uma tristeza passageira, causada principalmente por mudanças hormonais intensas, somadas ao cansaço, às novas responsabilidades e à adaptação à rotina com o bebê.
Mas o baby blues não é considerada doença. Já a depressão pós-parto é um transtorno emocional sério, que envolve fatores hormonais, físicos e psicológicos. Entre os sintomas estão tristeza profunda ou sensação de vazio, choro frequente, ansiedade, falta de energia, insônia, sentimentos de culpa ou incapacidade e dificuldade de criar vínculo com o bebê.
As causas mais comuns da depressão pós-parto incluem alterações hormonais, já que, após o parto, há uma queda brusca de hormônios como estrogênio e progesterona, que pode afetar diretamente o humor e o equilíbrio emocional.
O cansaço extremo, devido às noites mal dormidas, às preocupações, à rotina intensa e à falta de tempo para si mesma, também contribui. Além disso, inseguranças naturais, como o medo de não ser uma “boa mãe”, a sensação de perda de identidade ou de rotina, a pressão social ou familiar, e histórico de depressão ou ansiedade podem influenciar.
O tratamento pode incluir psicoterapia e, em alguns casos, antidepressivos (seguros mesmo durante a amamentação, dependendo da situação). O mais importante é entender que não se trata de fraqueza nem de falta de amor pelo bebê, mas de uma condição médica real, e pedir ajuda faz parte da recuperação.
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Emoções comuns após a maternidade
Solidão
Nos primeiros meses após o nascimento de um bebê, pode ser difícil socializar, já que o recém-nascido exige atenção constante. Além disso, a mulher perde parte da liberdade de sair quando deseja. Isso pode gerar um sentimento de solidão, que pode, e deve, ser amenizado por meio de grupos de apoio, aulas de recuperação pós-parto ou encontros com outras mães na mesma situação.
Estresse
O medo, o cansaço e a sensação de não dar conta de tudo podem deixar os pais estressados. Sempre que possível, o ideal é pedir ajuda, seja com tarefas domésticas, com o bebê ou com filhos mais velhos.
Sobrecarga
A maternidade é uma mudança enorme. As necessidades constantes de um recém-nascido podem ser um choque, por isso é importante permitir-se um período de adaptação. Seja gentil consigo mesma.
Exaustão
Aproveite os momentos em que o bebê está descansando para relaxar também, você vai precisar.
Sentimentos de culpa
A culpa é um sentimento comum entre as mães. Reconheça essa pressão e fale sobre ela. Evite comparações: cada experiência é única.
Falta de identidade
A crise de identidade em mães que acabaram de ter bebês é bastante comum. Lembre-se de que não é egoísmo, em alguns momentos, colocar-se em primeiro lugar. Alimente-se bem, pratique alguma atividade física, encontre amigas quando possível ou retome, aos poucos, atividades que lhe dão prazer.
Sentir-se incapaz
Muitas pessoas darão conselhos, mesmo sem serem solicitados, sobre como cuidar do bebê. Ouça apenas o que fizer sentido para você e ignore o restante. A mãe sabe, intuitivamente, o que é melhor para seu filho.
Regras para familiares e amigos após a chegada do bebê
O entusiasmo pela chegada de um novo membro da família pode levar a excessos, como visitas constantes, sem aviso prévio, e conselhos não solicitados.
Deixe claro que prefere visitas curtas, com aviso antecipado, e restritas às pessoas mais próximas. Ninguém deve se sentir ofendido com os limites estabelecidos pelos pais.
Os visitantes devem respeitar regras básicas de higiene, como lavar as mãos, e sempre pedir permissão antes de pegar o bebê no colo. Nunca se deve acordar um bebê ou falar alto enquanto ele dorme, o sono é fundamental nessa fase e deve ser tranquilo. Se não quiser fotos ou conselhos não é ofensivo dizer que não quer.
susana@revistaentrerios.pt