Do Rio ao Porto: brasileiros criam bar de vinhos naturais no coração da cidade
Onze Onze aposta em pequenos produtores, menu sazonal e ambiente de partilha na Rua da Torrinha
- Porto
Abril 17, 2026
A decisão de sair do Rio de Janeiro e mudar-se para o Porto foi, para Matheus Pinto e Pedro Reis, resultado de um processo gradual que misturou oportunidade profissional e ligação afetiva com a cidade. A mudança aconteceu em 2020, quando Matheus recebeu uma proposta de trabalho na área de arquitetura — ramo em que ainda atua — e o casal decidiu avançar em conjunto.
A escolha pelo Porto não foi aleatória. Pedro lembra a influência familiar nesse caminho. “Eu tive na minha infância a minha avó que é do Porto e sempre falou muito bem na cidade”. A memória construída ao longo dos anos ajudou a transformar a proposta inicial numa decisão definitiva.
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Da mudança ao negócio
Apesar da mudança em 2020, o Onze Onze não surgiu de imediato. Sem experiência direta na área — Pedro trabalhava com moda e Matheus com arquitetura —, o projeto começou a ganhar forma a partir da relação com amigos que já tinham um bar de vinhos em Lisboa. A base técnica veio dessa rede, com apoio na curadoria e na gestão.
Localizado na Rua da Torrinha, no quarteirão cultural de Miguel Bombarda, o Onze Onze apresenta-se como um bar de vinhos naturais 100% portugueses, com cerca de 30 referências. A curadoria procura percorrer o país de forma abrangente.
“A gente tenta fazer uma viagem por Portugal inteiro”, dizem, explicando que a escolha recai sobretudo sobre pequenos produtores e vinhos de baixa intervenção.

A proposta está alinhada com o que Pedro Reis resume: “A nossa intenção foi criar um lugar acolhedor, confortável e despretensioso, onde todos possam provar um vinho diferente e experimentar pratos simples e criativos. Apostamos, por isso, em pequenos produtores, vinhos de baixa intervenção e ausentes do circuito mais comercial”.
Além dos vinhos, a carta inclui também cidras e kombuchas, corroborando com uma oferta diversificada dentro da lógica de produtores independentes.
Uma carta que cruza referências
Já o menu aposta em petiscos sazonais e numa fusão de referências internacionais adaptadas a produtos portugueses.
“A gente faz mesmo uma fusão de coisas que já experimentamos em alguns países e tenta trazer pra realidade de Portugal”, explicam.
Entre as opções, estão o rillete de pato com pickles, o húmus com cogumelos e a sopa de tomate com queijo quente. Surgem ainda propostas inspiradas noutras geografias, como as gildas, ligadas aos pintxos do País Basco, ou o smørrebrød, de inspiração dinamarquesa, preparado com ingredientes portugueses.
A sazonalidade influencia diretamente o menu e o consumo. No inverno, há maior procura por vinhos tintos e pratos mais reconfortantes; no verão, predominam opções mais leves. “O menu muda também sempre porque acompanha as frutas e legumes da estação”.
Rede local e espírito de vizinhança
Um dos aspectos destacados pelos sócios é a dinâmica de proximidade no Porto. “O Porto, por ser uma cidade menor, faz com que a gente conheça os nossos vizinhos”, afirma Pedro, apontando para uma rede de colaboração entre negócios locais.
Parcerias com padarias, marcas e outros espaços da cidade fazem parte do funcionamento do bar, que também se integra num circuito mais amplo de projetos independentes. “É um negócio apoiando o outro”.
Espaço pensado para partilha
O espaço, que antes funcionava como galeria de arte, foi transformado com intervenção direta de Matheus. O arquiteto desenhou e executou parte do mobiliário, incluindo bancos e estruturas, adaptando o ambiente às necessidades do bar sem alterar profundamente a estrutura original.
A mesa comunitária é um dos elementos centrais do conceito. “Você sempre tem uma mesa em casa que você compartilha com as pessoas que você acaba conhecendo”, explicam, sublinhando a ideia de convivência informal.

A própria configuração do espaço permite diferentes usos, desde o funcionamento diário até eventos e jantares mais reservados, com capacidade até 30 pessoas.
O nome do projeto também reflete essa intenção. “O nome ‘Onze Onze’ vem da referência à numerologia, em que 11:11 significa intuição, criatividade, equilíbrio e manifestação de desejos”, explica Matheus Pinto. “É este o espírito que pretendemos transmitir, não queremos ser apenas um bar, mas um verdadeiro ponto de encontro e uma casa para conversas sem pressas”.
flavio@revistaentrerios.pt