Dos rituais às passarelas: a força dos tecidos africanos na moda global
As estampas geométricas e as cores intensas não são apenas elementos estéticos, mas códigos culturais
- Lisboa
Abril 18, 2026
Mesmo à distância, é possível reconhecer um tecido de origem africana. As estampas geométricas, as cores intensas e o impacto visual imediato não são apenas elementos estéticos, mas códigos culturais. Os tecidos africanos comunicam histórias, valores, pertencimento e modos de vida. Funcionam como linguagem, onde cada cor, cada traço ou padrão carrega significados ancestrais.
Em Moçambique, esse tecido é conhecido como capulana, nome que se espalhou pelo mundo. Em Zanzibar, chama-se kanga; em Madagáscar, lamba; em partes de Angola, ficou conhecido como “pano do Congo”. As nomenclaturas variam conforme o território, assim como as paletas cromáticas: no norte de Moçambique predominam os tons vivos — rosa, amarelo, vermelho e lilás — enquanto no sul surgem cores mais sóbrias, como castanho, verde-escuro e bege. Ainda assim, a função social e a simbologia permanecem.
A jornalista, socióloga e ativista angolana Luzia Moniz diz que a capulana ultrapassa a ideia de vestuário. “É um instrumento de resistência”, afirma. Fundadora da Plataforma para o desenvolvimento da mulher africana (Padema) e criadora do Festival Internacional da Capulana, em Portugal, Luzia destaca o papel central na preservação do património cultural. “Foram as mulheres que conseguiram impor a continuidade da capulana frente à violência simbólica do colonialismo, que tentava substituir os trajes locais por modelos europeus.”

Segundo a socióloga, o tecido nasce da geometria: triângulos, linhas e formas simples criadas no tear africano, posteriormente influenciadas pelo batik asiático, especialmente da Indonésia. Essa fusão deu origem a um tecido que hoje é patrimônio cultural africano, embora não seja, paradoxalmente, patrimônio econômico do continente. “Os maiores produtores são a China, a Índia e a Holanda. A África consome, mas não controla a cadeia produtiva”, explica.
Cada tecido conta uma história. Há os criados para celebrar independências, eleições, visitas presidenciais ou tragédias como ciclones e conflitos. “Ela funciona como arquivo histórico”, diz Luzia. Certos padrões atravessam gerações, como os panos associados à unidade africana ou o kente, do Gana, usado em cerimônias políticas, casamentos e rituais fúnebres.

Esse percurso histórico e simbólico é aprofundado no livro KaPulana – tecido de Moçambique: a verdadeira história, de Mphumo Kraveirinya, heterônimo do sociólogo e pesquisador João Craveirinha Jr., doutor em Ciências da Cultura pela Universidade de Lisboa. A obra investiga o papel do Java Print na construção de identidades africanas e a expansão desses tecidos como tendência global da moda, sobretudo através da mediação holandesa no século XIX.
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Craveirinha Jr. mostra como a mulher africana criou uma forma multicultural de vestir, combinando a capulana com peças da moda ocidental, enquanto o homem africano foi mais rapidamente induzido a adotar o vestuário europeu como estratégia de integração social no contexto colonial. A capulana, nesse sentido, torna-se símbolo de resistência feminina, estética e política.
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Globalizada e presente nas passarelas, a capulana continua essencial no cotidiano africano: serve para vestir, carregar crianças, decorar casas, marcar rituais e expressar identidade. Mais do que tecido, é memória estampada. E, como lembra Luzia Moniz, “quando se olha para uma capulana, é preciso lembrar da mulher africana, no continente e na diáspora, porque ela é o verdadeiro património dessa história”.
Roselyn Silva: A estampa como poder

Primeira estilista a abrir o calendário da 65a edição da ModaLisboa, em 2025, Roselyn Silva entrou na passarela de cabeça erguida. Natural de São Tomé e Príncipe, a designer celebrou os 10 anos da marca que leva seu nome com uma coleção exuberante de padrões africanos, texturas ricas e um trabalho minucioso que comprova: identidade é alta moda.
A presença na ModaLisboa premia um percurso de resistência e visão. Em 2015, Roselyn trocou a engenharia pela moda, participou do Shark Tank (programa de tv) e se lançou em um mercado que ainda via os tecidos africanos de forma estereotipada. Seu trabalho foi, desde o início, um exercício de desconstrução. “Percebi que já não era sobre mim. Era sobre representatividade”, ela diz.

Em 2015, ao vestir uma celebridade nos Globos de Ouro portugueses com uma saia de estampa africana, Roselyn rompeu uma barreira simbólica: levar o tecido africano ao red carpet, ao luxo, ao desejo. “Rompi barreiras quando fiz pessoas não africanas usarem estampas africanas num contexto sofisticado”.
Ser pioneira atraiu responsabilidade. Cada conquista, diz ela, aumenta a exigência. “Não tenho medo de ir mais longe. Tenho medo de não estar à altura”. Mais do que moda, Roselyn Silva constrói narrativa, abre caminho e assume-se como agente de mudança em um sistema ainda conservador, provando que estética também é política, e que o futuro se costura com coragem, trabalho e identidade.
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