Drinques com IA, robotáxi e lingerie na rua: as tendências que vão marcar 2026
Relatórios e especialistas indicam as principais tendências de consumo, trabalho, moda e lazer que devem moldar o comportamento em 2026
- Lisboa
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Janeiro 30, 2026
Ano novo, vida nova. O drinque feito com inteligência artificial (IA), a volta ao trabalho presencial, as lingeries que passam a ser mostradas em trajes pelas ruas, os táxis voadores, tudo aponta para um mundo que se move rápido e também busca sentido nas mudanças.
Segundo o relatório da Mintel, líder mundial em inteligência de mercado, em suas Previsões Globais de Consumo para 2026, “os consumidores tendem a diluir as fronteiras entre idade e fase da vida, equilibrar controle e criatividade e buscar conexão em um mundo mais automatizado”. A avaliação é de que “a inteligência artificial está redesenhando os limites da criatividade e da eficiência”. Ninguém duvida.
Falar de perspectivas inclui, além da tecnologia, incerteza econômica e tensão geopolítica, que remodelam prioridades e mudam o contexto em que as empresas e marcas operam. A EntreRios teve acesso a pesquisas, ouviu especialistas e selecionou tópicos com potencial para fazer de 2026 um ano verdadeiramente novo, na prática.
A volta ao escritório
O trabalho remoto perde força e vem aí um movimento claro de retorno ao presencial. No Brasil, segundo a Pesquisa de Tendências 2025, da plataforma de emprego Catho, 69% das companhias declararam a intenção de manter o regime totalmente presencial em 2026.
Também há indicativos em outros levantamentos de que está mais difícil crescer na carreira trabalhando de casa. As avaliações de oportunidades profissionais caíram de 4 em 2020 para 3,5 em 2025, entre profissionais remotos e híbridos.

Renata Filardi, diretora de RH da indústria farmacêutica FQM e presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos — RJ (ABRH-RJ), observa de perto esse retorno.
“Quando existe home office, é de um dia, no máximo dois. Nas empresas nacionais do ramo, grande parte nem tem mais”.
Nas multinacionais, segundo ela, a adaptação costuma ser acompanhada de um certo incômodo: “Funcionários reclamam bastante do retorno mais rígido. No fim, o híbrido continua vivo, só que mais enxuto”.
Alimentos e bebidas potencializadas por IA

É bem provável que, em 2026, você tenha uma refeição ou beba um drinque criado ou ajustado por inteligência artificial. O movimento aparece em experiências como o Woohoo, restaurante recém-inaugurado em Dubai cujo cardápio foi desenvolvido por um modelo de IA de 1 milhão de dólares capaz de criar receitas a serem executadas por chefs humanos.
Anunciado como o futuro da gastronomia, o Woohoo é liderado pelo chef Aiman, um sistema de linguagem treinado com milhares de receitas, combinações de sabores e dados de alimentos.
A empresa planeja licenciar o software para outros restaurantes, criando “chefs digitais” com menus combinados regionalmente. Na coquetelaria, a IA já orienta desde a criação de receitas até o ajuste fino de acidez, doçura ou amargor.
O faturamento anual do mercado de IA aplicada a alimentos e bebidas está em expansão acelerada: de cerca de 10,8 bilhões de dólares em 2024 para uma projeção de 50,6 bilhões de dólares até 2030.
Lingerie e pijama vão para as ruas
As passarelas de Londres, Paris, Nova York e Milão trouxeram para a próxima temporada da moda o resgate do power dressing — roupas que transmitem “poder”, como blazers, camisas e outros elementos da alfaiataria — e do boudoir, que tira a lingerie, como cetins, rendas e transparências, do quarto e leva para as ruas. Foi o que mostraram os desfiles de Dolce & Gabbana e Tom Ford.
No movimento loungewear, como são chamadas as peças confortáveis usadas em casa, as roupas de dormir — pijamas ou lingeries — , agora desfilam em lugares públicos. Marcas internacionais como Balmain e Celine apostaram em ombros marcados, grandes, bem anos 1980.
No Brasil, a marca Mondepars, criada por Sasha Meneghel, Angela Brito e Normando, é expoente do estilo. É a volta da elegância confiante, agora com toques mais frescos, contemporâneos e com direito a revival.

“A tendência mistura romantismo, exuberância e um toque de luxo sem esforço. As delicadas lingeries ganham lugar em ambientes sofisticados ou públicos com personalidade, confiança e feminilidade”, diz o estilista Anderson Vescah.
Ele destaca o marrom, que já é uma das cores fortes do momento, uma alternativa sofisticada ao preto, especialmente em tecidos de peso, como o couro. Foi o que mostraram Saint Laurent, Balenciaga e Bottega Veneta nas passarelas.
Outras tendências para este ano são os vestidos transparentes, as franjas nas roupas, os lenços na cabeça, as calças harem (ou balão, com volume concentrado nas pernas e ajustada no tornozelo ao estilo Aladim) e acessórios como as ‘bolsas valise’, aposta da Balenciaga, Louis Vuitton e Givenchy.
Menos bebidas alcoólicas
E mais matinês. Surge o soft clubbing, festas matinais com DJs, café, chá e luz natural, como no Maple Social Club, na Austrália. A tendência vai ao encontro de uma mudança nos hábitos de consumo de bebidas alcoólicas.
Uma nova pesquisa Ipsos-Ipec, realizada a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), confirma um movimento que já aparecia no comportamento cotidiano de milhões de brasileiros: 64% dos adultos afirmaram não ter consumido álcool em 2025, um avanço expressivo em relação aos 55% registrados em 2023.

Entre os mais jovens, a mudança é ainda mais acentuada. A abstinência passou de 46% para 64% entre pessoas de 18 a 24 anos, e de 47% para 61% no grupo de 25 a 34. Representa a virada cultural do momento: diversão sem ressaca, sociabilidade e encontros que cabem na rotina.
Em Portugal, o movimento ganhou forma. Organizado pela Tripnly (startup de viagens) e pela cafeteria Espressolab, a festa Wake Up Club já recebeu mais de 250 madrugadores validando a força do conceito. Os encontros são das 8h às 11h ou das 10h às 13h. Os números reforçam a tendência: agendas de coffee clubbing cresceram 478%, segundo a plataforma de eventos Eventbrite.
Robotáxis, veículos autônomos
Em 2026, a mobilidade ganha velocidade com a expansão global de veículos autônomos e robotáxis operando na China e nos Emirados Árabes, prontos para avançarem mundo afora. O transporte de cargas também entra em um novo ciclo, com caminhões autônomos na Interstate-35, nos Estados Unidos, na China e na União Europeia.
Nos céus, os eVTOLs (aeronave de decolagem e pouso vertical elétricas, também chamadas de carros voadores) e drones de passageiros tornam-se operação real. A Joby Aviation lança táxis aéreos nos Emirados Árabes, enquanto a chinesa EHang já tem autorização para operar drones comerciais de transporte de pessoas.
Maximalismo ao invés de minimalismo
Estudos publicados no Journal of Environmental Psychology mostram que projetos baseados em biofilia (conexão com a natureza), harmonia cromática e estímulos sensoriais conscientes podem reduzir a ansiedade, fortalecer relações e aumentar a sensação de pertencimento. Nesse contexto, sai o minimalismo e entra o maximalismo.
Vale misturar estampas, exibir coleções, abusar de texturas e trazer aquele espírito “casa da avó”, cheio de vida, memórias, objetos e emoções. A dica principal é viver rodeado do que faz sentido — e não apenas do que é impecavelmente organizado.
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A decoração busca bem-estar e cria o conceito “casas que curam” — espaços pensados na contramão da praticidade vigente para uma rotina apressada. Essas casas do futuro reduzem estímulos, favorecem a luz natural e usam materiais orgânicos. Tons terrosos, texturas naturais e ambientes flexíveis pautam a estética, que valoriza menos consumo. Os objetos deixam de ser apenas enfeites e passam a carregar memória, afeto e identidade.
Quando o destino é o hotel

Um estudo recente do site de viagens Skyscanner revela um comportamento que tende a ser consolidado por um nicho de turistas este ano. O hotel virou o destino da viagem: 66% dos millennials e 64% da geração Z escolhem a hospedagem antes de decidir a cidade. São atraídos por piscinas modernas, rooftops com DJ, quartos-conceito e uma estética que mistura conforto, curadoria e fotogenia.
Foi com esse espírito que as amigas cariocas Juliana Thimoteo e Fabianna Sá, moradoras da Parede, área de Cascais, escolheram passar um fim de semana no alojamento rural Viva! Farmhouse, no Alentejo, um lugar onde o tempo parece desacelerar.
A experiência confirma a previsão da pesquisa: viajar, hoje, é menos sobre deslocamento e mais sobre atmosfera. “É claro que não vamos deixar de turistar e conhecer novos destinos, mas também quero hotéis para me conectar comigo mesma, com boa infraestrutura”, afirma Juliana. “Tem momentos em que a melhor viagem acontece dentro da hospedagem. O foco deixa de ser a correria turística e passa a ser aproveitar o lugar”, completa Fabianna.
Musa moderna
Marcelly tem 36 anos e quase metade como modelo no Brasil. Quando chegou a Portugal, em 2020, as grandes oportunidades começaram a aparecer. Conseguiu trabalhos de publicidade e até participou de novelas nas emissoras TVI e SIC, mas a renda ainda não pagava as contas. “Trabalhei na faxina durante uns oito meses”, lembra.
Não demorou muito e veio uma virada do destino: foi protagonista de um videoclipe do DJ Alok, participou de desfiles na TV e ficou em terceiro lugar no reality show Tu consegues, na SIC. “Corri atrás, ganhei muito ‘não’, coloquei minha cara a tapa, mas deu certo”.

A modelo diz que viajar e conhecer novas culturas a levou a entender que a roupa comunica muito sobre o mundo contemporâneo e a postura da pessoa nesse contexto. “Descobri que me identifico profundamente com o estilo clássico. Gosto do sexy elegante”.
É adepta de power dressing (estilo que transmite autoridade e confiança, comum em ambientes profissionais), que chega com ombros marcados e a estética dos anos 1980. “Sempre me pergunto: como quero ser vista? A mulher, e especialmente a mulher retinta, carrega uma responsabilidade diante da sociedade. Um deslize pode transformar algo extraordinário em um look cafona”.
Morar na Europa também transformou sua relação com a própria imagem. “Percebi que não sou apenas o meu corpo; eu sou aquilo que verbalizo, aquilo que expresso no vestir”. Para ela, essa consciência trouxe maturidade, estilo e uma nova compreensão de beleza.
Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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