Edgar Morin e Portugal: a história da relação que marcou seis décadas
Filósofo francês que morreu aos 104 anos manteve laços profundos com a cultura, a educação e a democracia portuguesa
- Lisboa
Junho 2, 2026
A morte do filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, aos 104 anos, encerra uma das trajetórias intelectuais mais influentes do século XX e do início do XXI. Em Portugal, porém, a despedida tem um significado especial. Ao longo de mais de seis décadas, o pensador construiu uma relação rara com o país, marcada por amizades, participação em debates públicos, influência no campo educacional e uma admiração declarada pela cultura portuguesa.
Mais do que um intelectual admirado, Morin tornou-se uma presença constante na vida cultural e acadêmica portuguesa. Suas ideias ajudaram a moldar reflexões sobre democracia, cidadania, educação e convivência entre diferentes culturas.
A aproximação com Portugal começou nos anos 1960, ainda durante o Estado Novo (1933-1974), por meio dos círculos intelectuais ligados à revista O Tempo e o Modo. Foi nesse ambiente que conheceu o escritor e ensaísta António Alçada Baptista, uma das figuras centrais da oposição católica ao regime salazarista e um dos nomes mais influentes da vida cultural portuguesa da segunda metade do século XX.
A importância dessa amizade foi lembrada recentemente por Guilherme d’Oliveira Martins, ex-ministro da Cultura e coordenador do livro O esplendor das amizades – a experiência portuguesa de Edgar Morin. Em entrevista ao jornal Diário de Notícias após a morte do filósofo, Martins afirmou que Morin passou a acompanhar Portugal como um espaço de “sementeira de ideias e de diálogo cultural”, enxergando no país um exemplo singular de construção democrática e de convivência entre diferentes correntes de pensamento.
A partir dessa relação inicial, Morin passou a visitar Portugal com frequência e construiu uma ampla rede de amizades que atravessaria décadas. Entre elas, destacou-se a proximidade com Mário Soares, uma das figuras mais importantes da democracia portuguesa. O filósofo conheceu o futuro presidente durante o exílio político na França e acompanhou de perto os acontecimentos que culminaram na Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974.
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O processo democrático português despertava especial interesse em Morin porque reunia temas que sempre estiveram no centro de suas reflexões: liberdade, pluralismo, participação cidadã e compromisso democrático. Durante os anos turbulentos que se seguiram à queda da ditadura, o intelectual francês posicionou-se publicamente em defesa das instituições democráticas e das liberdades civis.
A influência de Edgar Morin na educação
Se a política aproximou Morin de Portugal, foi a educação que transformou sua obra em referência para sucessivas gerações de portugueses.
Autor de dezenas de livros traduzidos para vários idiomas, o filósofo tornou-se conhecido mundialmente por desenvolver o conceito de pensamento complexo, uma proposta que busca superar a fragmentação do conhecimento e compreender os fenômenos humanos em sua totalidade.
Em vez de analisar os problemas de forma isolada, Morin defendia a integração entre diferentes áreas do saber. Ciência, cultura, economia, política, ética e meio ambiente deveriam ser compreendidos como dimensões interligadas de uma mesma realidade.
Essa visão encontrou forte receptividade em Portugal, especialmente a partir das décadas de 1990 e 2000. Obras como Introdução ao pensamento complexo, Os sete saberes necessários à educação do futuro e a coleção O método passaram a circular amplamente em universidades, centros de pesquisa e programas de formação de professores.
A publicação de grande parte de sua obra por editoras portuguesas ajudou a consolidar sua presença no meio educacional. Suas reflexões sobre interdisciplinaridade, cidadania e formação humana passaram a influenciar debates sobre o papel da escola diante dos desafios contemporâneos.
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A relevância de Morin para a educação está diretamente ligada à sua defesa de uma formação capaz de preparar os cidadãos para enfrentar problemas complexos. Questões como mudanças climáticas, desigualdades sociais, migrações, transformações tecnológicas e crises democráticas eram vistas por ele como desafios interdependentes, que exigem novas formas de compreender o mundo.
O interesse português por Morin nunca ficou restrito ao ambiente universitário. Ao longo dos anos, ele participou de conferências, seminários e encontros culturais em diversas cidades do país.
Em Coimbra, esteve presente em iniciativas dedicadas à reflexão filosófica contemporânea. Em Lisboa e no Porto, participou regularmente de debates sobre educação, cultura, cidadania e lusofonia.
Sua importância intelectual foi destacada pelo filósofo António Pedro Pita, professor catedrático da Universidade de Coimbra. Em declarações ao Diário de Notícias, o acadêmico classificou Morin como uma “figura excepcional” e um dos raros pensadores contemporâneos capazes de construir uma filosofia própria, coerente e abrangente. Segundo ele, a obra O método representa uma das mais ambiciosas tentativas de compreender a complexidade do mundo moderno.
Nos últimos anos de vida, a relação entre Morin e Portugal tornou-se ainda mais evidente. Em 2023, ele voltou a Lisboa para participar de conferências dedicadas ao humanismo, ao futuro da língua e ao diálogo entre culturas. Confira abaixo a sua fala na conferência O Atlântico — a nova carta do humanismo:
Durante a visita, foi recebido pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa e agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, uma das mais altas distinções do Estado português. A homenagem somou-se à Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada, recebida anteriormente durante a Presidência de Jorge Sampaio.
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