Eles estão conquistando a Europa: conheça a nova cena da música brasileira
Com trajetórias diversificadas, quatro representantes da música contemporânea atravessam o Atlântico reverberando influências do país onde nasceram
- Lisboa
Abril 28, 2026
Quatro vozes brasileiras ecoaram com força em 2025 nos palcos europeus. Entre elas, Mãeana, Jota.pê, Juliana Linhares e Melly. Trata-se de uma geração que mistura ancestralidade, experimentação e novas formas de cantar, além de reafirmar que a música brasileira continua diversa e em constante reinvenção.

Carioca da Tijuca, Ana Cláudia Lomelino, a Mãeana, 40 anos, transformou o afeto e o misticismo em som e estilo. Tudo começou, na capital da Bahia, em Salvador, onde se apresentava às segundas-feiras no Centro Cultural Casa da Mãe. “A Casa da Mãe é o melhor lugar para renascer quantas vezes for necessário”, diz, sorrindo.
Seu visual colorido é inspirado em figuras como Elke Maravilha (1945-2016) e Xuxa, e também na casa da avó, Lourdes, já falecida. “Desde a primeira vez que fui a Salvador, soube que queria morar lá. A energia, a arte. Sempre tive certeza de que era o lugar em que minha semente germinaria melhor”. Mãeana é mãe de Dom e Sereno e esposa de Bem Gil, filho de Gilberto Gil. Entre o lar e o palco, constrói um imaginário vibrante: “Minha vida é 100% filhos. O trabalho é um tempinho de fuga”. Tem um milhão de ouvintes no Spotify. “O sonho de todo artista é furar as bolhas. Quero continuar crescendo e compondo com quem entende minha alma”.

O paulista Jota.pê, 32 anos, viveu um divisor de águas ao vencer três Grammys Latinos com o disco Se Meu Peito Fosse o Mundo. “A viagem para Lisboa foi a mais especial que fiz até hoje. Cantei com a Mayra Andrade, e vi minha música transformando vidas. Foi incrível”. O reconhecimento internacional confirmou a força de seu trabalho: “Passei muito tempo sem acreditar que música pagaria o meu aluguel. Hoje posso viver disso e ainda retribuir o esforço de meus pais”. A parceria com artistas de língua portuguesa despertou projetos: “Depois de conversar com a Mayra Andrade e o Dino D’Santiago, decidi que preciso ir a Cabo Verde para entender mais da rítmica e da cultura”. O cantor celebra a fase com serenidade: “É raro poder fazer um trabalho todo do seu jeito. Estou aproveitando cada encontro”.

A potiguar Juliana Linhares, 35 anos, encantou o público português com vigor cênico e canções sobre pertencimento. Seu disco Nordeste Ficção é um manifesto artístico contra os estereótipos: “Queria abrir uma janela de discussão sobre as visões que as pessoas têm do nordeste brasileiro. Ele é imenso, diverso”. Entre shows realizados em Portugal, a cantora avalia a relação entre casa e mundo: “A gente quer o mundo, mas, no final a gente quer voltar para casa”.
No palco, ela se veste de cor e movimento. “Gosto de pensar o figurino como dramaturgia”. Inspirada por Cátia de França (cantora, compositora e escritora brasileira) e Ney Matogrosso, Juliana sonha alto: “Eu queria fazer uma música com o Salvador Sobral. Vai que…”

Já a baiana Melly, 24 anos, representa a nova face da música negra e pop. Sua voz suave e profunda nasceu do Rhythm&blues, gênero que surgiu nos Estados Unidos sob a influência de vários outros, misturado à ancestralidade afro-baiana. O disco Amaríssima marcou a ascensão de Melly, com letras que transformam dor em arte. “Comecei a encarar o amargo como algo extremamente necessário para a gente poder ter a noção do quão doce pode ser o doce”.
Com espiritualidade livre, Melly fala de fé sem dogmas. “Tenho fé, mas não escolhi religião”. Em 2025, ela fez a primeira turnê européia: “Minha estreia na Eurotour”. A nova fase, diz ela, é de expansão: “A gente fez o Amaríssima V.2 junto com o V.1, um show mais pulsante, com novidades”.
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São quatro trajetórias diferentes, unidas pela coragem de levar o Brasil ao mundo. Mãeana com seu matriarcado psicodélico, Jota.pê na poesia urbana, Juliana e o Nordeste reinventado, Melly com a doçura amarga de uma geração que amadurece cedo. Todos cruzam fronteiras, linguagens e afetos. São vozes que, mesmo longe, continuam cantando o país, suas cores, dores e esperanças.

A cantora e compositora Dora Morelenbaum tem sido atuante nas recomendações de artistas contemporâneos brasileiros. Filha de músicos da banda de Tom Jobim, ela recebeu base musical sólida, mas demorou a assumir a herança. Em 2020, formou a banda Bala Desejo com Julia Mestre, Zé Ibarra e Lucas Nunes, e agora segue em carreira solo com o elogiado álbum Pique. Não podemos esquecer do trio Gilsons. João, Francisco e José Gil fizeram longa turnê na Europa consolidando o sucesso no exterior.

Para Zé Mauricio Machline, criador do Prêmio da Música Brasileira há 32 anos, apontar destaques é subjetivo, mais relacionado ao gosto e à visão artística do que às vendas. Ainda assim, ele cita nomes como Zé Ibarra, Rodrigo Alarcon, Bruna Alimonda, Yago O Próprio e Os Garotin, mas sua maior aposta é Luedji Luna. “Ela tem um trabalho consistente, de qualidade e personalidade. É uma das artistas mais interessantes que o Brasil tem hoje”, afirma.
Machline também destaca artistas que o surpreendem continuamente. “Quem sempre tem uma novidade e são referências na minha vida são Ney Matogrosso, Maria Bethânia e Zeca Pagodinho”. Ele ainda observa uma tendência promissora: “O gênero que cada vez mais vai virar hit no Brasil, que está se fortalecendo com pessoas vindas de outras áreas e entrando nesse gênero com muita força, é o samba novamente. O que é bom para nós”, celebra.
O trabalho de todos esses artistas está disponível nas principais plataformas digitais. Ajuste o volume e aproveite!
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