Embraer aumenta presença em Portugal e fortalece aviação na Europa
Montenegro e Lula conversaram sobre ampliação de parceria. Especialistas ouvidos pela EntreRios explicam objetivos
- Lisboa
Fevereiro 6, 2026
2025 foi um ano de destaque para a brasileira Embraer, uma das maiores indústrias aeroespaciais do mundo, com presença em mais de 100 países. Ela escapou do tarifaço do presidente americano Donald Trump e teve recorde de encomendas, com mais de 490 aeronaves só no terceiro trimestre, a US$ 31,3 bilhões. Nos Estados Unidos, a empresa é responsável por 45% da frota comercial e 70% da executiva. Portugal não poderia ficar de fora dessa influência.
A ampliação da parceria entre a empresa e a Força Aérea Portuguesa foi tema da conversa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro Luis Montenegro na COP30, em novembro. “A relação das nossas indústrias de defesa com a Embraer é elevada, e creio que pode ser um dos ângulos de desenvolvimento deste projeto com maior intercâmbio econômico e comercial”, disse Montenegro.

Em setembro, autoridades portuguesas anunciaram a compra da sexta aeronave KC-390 Millenium para estratégicas e táticas civis e militares. Em novembro, a Força Aérea Portuguesa recebeu os dois primeiros de doze aviões A-29N Super Tucano para formação avançada de pilotagem e missões de apoio aéreo. Os modelos despertaram interesse também na Hungria, Holanda, Áustria e República Tcheca.
Desde 2005, a indústria aeroespacial brasileira possui 65% da empresa OGMA – Indústria Aeronáutica de Portugal (o governo português detém os outros 35%), e planeja triplicar os lucros da companhia até 2030, algo em torno de 1 bilhão de euros anuais. No final de 2024, inaugurou, em Lisboa, uma subsidiária com foco em soluções inovadoras de defesa e segurança para os países membros da Otan e da União Europeia.
CEO da Embraer Defesa & Segurança, Bosco da Costa Junior diz que a subsidiária em Portugal comprova a visão de longo prazo da empresa para a Europa. “Estamos empenhados em aprofundar as nossas relações com os parceiros europeus e da Otan, oferecendo as capacidades mais avançadas e eficientes para satisfação das necessidades operacionais de cada cliente”, afirma.

Especialistas ouvidos pela EntreRios apontam que, além da mera relação comercial, estamos diante de uma aliança industrial estratégica. “São três os pontos principais: criação de empregos altamente qualificados, desenvolvimento de um cluster aeronáutico robusto e garantia da soberania tecnológica e logística no setor de defesa”, analisa Marcial Sá, advogado internacionalista do Godke Advogados e doutorando em Direito Aeronáutico pela Universidade de Lisboa.
Portugal tem potencial para se tornar uma plataforma para expansão de operações e suporte técnico da Embraer na Europa, atraindo capital e conhecimento em um hub aeronáutico. “Há também a preocupação com a modernização das Forças Armadas portuguesas e a presença de equipamentos de alta performance e adaptabilidade”, destaca Nicole Villa, especialista em Direito Aeronáutico e sócia do Barros Freire Fernandes Advogados. “Há, na indústria portuguesa, capacidade de produção de vários dos componentes dos aviões, além da partilha de muita tecnologia e ciência. Portugal sabe da importância que a indústria de componentes e de manutenção pode ter no contexto do investimento”, ressalta.
Para Carlos Zacca, coordenador do setor Marítimo Portuário e Infraestruturas do Fonseca Brasil Serrão Advogados, a Embraer é referência na aviação civil pelos jatos menores e com qualidade tecnológica e menores custos operacionais, com até 150 lugares e jatos executivos. “Já na defesa e segurança, as aeronaves são de ponta, com sistemas e custos operacionais reduzidos, além de comprovada eficiência em ação”, reforça ele.

A KC-390 Millennium, por exemplo, tem capacidade multimissão em uma única plataforma: transporte logístico de cargas e tropas, reabastecimento aéreo, evacuação médica, lançamento de paraquedistas e combate a incêndios, valioso por conta das queimadas no verão europeu. Portugal já havia encomendado cinco delas por 800 milhões de euros, e, em 2025, adquiriu mais uma unidade.

“O diferencial da Embraer é se integrar à base industrial do cliente, oferecendo transferência de tecnologia de ponta, manufatura local com custo-benefício, flexibilidade e soluções modulares sob medida, em vez de só vender produtos acabados”, pontua Marcial Sá. Outra especificidade é o próprio modelo de expansão. “A empresa busca ativamente estabelecer bases industriais e centros de engenharia em diferentes continentes, crucial para mitigar impactos de ciclos econômicos regionais negativos. Ela foca em nichos como a aviação regional de médio porte e soluções de defesa tática-leve”, afirma a especialista Nicole.
Voos mais altos
Não falta espaço para o crescimento da Embraer na União Europeia — e o possível acordo com o Mercosul é peça chave para a expansão. “O documento vai simplificar a cadeia de suprimentos ao eliminar ou reduzir tarifas sobre componentes, peças e matérias-primas que circulam entre o Brasil e as fábricas em Portugal”, avalia o advogado Marcial Sá.

Para Nicole Villa, o acordo deve criar um ambiente regulatório mais harmonizado e estabelecer regras mais claras e previsíveis para investimentos e propriedade intelectual. “Essa estabilidade regulatória é vital para a Embraer, dada a complexidade de seus projetos e a necessidade de proteção intensiva de suas patentes. A segurança jurídica proporcionada por esse tratado de livre comércio garante maior confiança aos investidores e parceiros europeus”.
Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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