Empreendedorismo feminino cresce, mas mulheres ainda são minoria na tecnologia
Elas são quase maioria nos negócios, mas são um quinto dos líderes em tecnologia e só recebem 2% dos investimentos no Brasil
- Lisboa
Março 29, 2026
As mulheres são uma força crescente no empreendedorismo, a um passo de se tornarem maioria. No Brasil, elas já chegam a 48% dos 52 milhões de pessoas que possuem os próprios negócios; em Portugal, são donas de 40%. Os dados são do Global Entrepreneurship Monitor (GEM). No setor de tecnologia e startups, entretanto, a distância a ser percorrida é bem maior.
Em Portugal, segundo dados do Eurostat deste ano, as mulheres representam apenas 19,7% dos profissionais de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), percentual semelhante ao do Brasil, de 21,2%, de acordo com o IBGE.
Elas já lideram quase um terço (29,8%) das mais de 20 mil startups ativas na plataforma do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). É um salto em relação a 2023, quando eram apenas 8,65%.
“Existe uma cultura machista e excludente que reforça a ideia de que mulheres não entendem de ciência e tecnologia e que não podem empreender, o que já se mostrou completamente infundado”, afirma Marcela Valença.
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Ela se refere a um estudo do Boston Consulting Group, de dois anos atrás, segundo o qual as startups lideradas por mulheres alcançaram 63% mais retorno do que as comandadas por homens. Um golaço. Apesar disso, elas recebem só 2% do total de aportes dos investidores.
Marcela é gerente-geral do Cais do Porto, hub de internacionalização de empresas em Aveiro, liderado por seis mulheres. As incubadoras locais se destacam nesse sentido, e 82% são geridas por mulheres — uma exceção no segmento do país. Portugal possui apenas 14% de mulheres fundadoras de empresas de tecnologia. Uma delas é brasileira.
A economista Rosane Marques tinha planos de se aposentar em alguns anos ao chegar a Portugal, em 2021, mas se viu sem oportunidades de trabalho “especialmente por conta da idade, por ser mulher e imigrante”.
Decidiu, então, abrir uma empresa de recrutamento e seleção para a área de tecnologia, a ITR Tech. A firma se expandiu e passou a oferecer novas soluções na área de atuação, com o uso de Inteligência Artificial (IA). Hoje, tem 17 colaboradores.
Segundo Rosane, o número de mulheres que se candidatam às vagas ainda é baixo pela falta de mão de obra no mercado. Ela não vê preconceito por parte do cliente ao contratar um serviço final. “Ele quer uma pessoa que execute o trabalho bem, não importa se homem ou mulher”, pondera.
Empreendedoras brasileiras têm quebrado barreiras e buscado a internacionalização a partir de Portugal. A Pluvi, startup que transforma água da chuva em potável sem o uso de produtos químicos, nasceu em setembro de 2021 e é comandada pela engenheira civil Isabelle Câmara, 31 anos.
Um sucesso: a empresa disponibilizou mais de 10 milhões de litros para mais de 1.600 casas em Pernambuco e no Pará.

A startup também previne alagamentos em áreas planas e deslizamentos em encostas. “Existe um grande problema em áreas de risco onde moram pessoas, como em morros e comunidades ribeirinhas, e um dos principais é a falta de água potável, que atinge mais de 35 milhões de pessoas. Não podemos falar em tecnologia sem pensar em pessoas que não podem beber água tratada”, reforça.
Fernanda Onofre, CEO e fundadora da Wood Chat, startup de Rio Branco, no Acre, também começa a buscar novos mercados. Ela criou uma solução de IA que identifica diferentes espécies de madeira, colaborando para melhorar a rastreabilidade e reduzir o desmatamento ilegal.
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A empresa foi uma das escolhidas para ser incubada na nova sede da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e do Sebrae, em Lisboa, como parte de um programa de internacionalização de empresas.
Foi também uma das startups selecionadas em bioeconomia para receber investimentos de um fundo de venture capital da Startups Portugal. Com isso, iniciará sua jornada na Europa a partir de 2026. O caminho para ela foi feito de desafios.

Fernanda se formou em engenharia civil e trabalhou com pavimentação, um mercado bem masculino. “No universo das startups, percebi que era até pior, porque ainda existe a questão geográfica, muito questionada por eu ser de um estado da Região Norte. Então, fui me capacitar ainda mais. Torna-se uma jornada muito mais difícil até que as pessoas passem a escutar e a respeitar a gente”, ressalta ela, que realizou um MBA em manejo florestal e é mestranda em desenvolvimento sustentável.
Para tentar reverter esse quadro, mulheres vêm agindo para estimular sua presença no mercado de startups, inovação e tecnologia. Lais Xavier é criadora do projeto Tech Woman, em Recife, uma comunidade que estimula a troca de experiências, o networking e a divulgação de vagas e oportunidades.
Ela já promoveu formações e encontros que reuniram mais de duas mil mulheres de 13 estados do Brasil, com oferta de auxílio financeiro para participantes em situação de vulnerabilidade, espaços de acolhimento para mães deixarem os filhos, e outras ações.
“Quando você abraça a diversidade dentro de um espaço produtivo, precisa atender às necessidades desses espaços. Se eu quero mulheres no meu time, preciso pensar em atender às necessidades das mães”, detalha Lais.
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O programa foi lançado em Portugal e também criará uma comunidade para estímulo à valorização no mercado de trabalho e no empreendedorismo. O grupo será responsável pela curadoria de parte da programação do evento Brazil TechDays 2026, ampliando a participação feminina.
“Percebemos que as discussões sobre gênero em Portugal ainda estão pouco avançadas, então essa iniciativa visa mudar essa realidade”, frisa.
O empreendedorismo também é estimulado com o programa Sebrae Delas e o Delas Tech, com editais voltados para o mundo da tecnologia, e o Empreendedoras Tech, que promove a aceleração de empresas.

de contato que ajudem no suporte emocional e comportamental”. Crédito: Fernando Velasco
“É preciso estimular as capacitações, mentorias e redes de contato que ajudem no suporte emocional e nas questões comportamentais, além de contar histórias de mulheres que superaram diversas barreiras”, destaca Cristina Melke, head de startups do Sebrae.
Em Portugal, iniciativas como o Bora Portugal, o Clube de Negócios da Língua Portuguesa, o Instituto Brasil e o Clube Mulheres do Brasil estimulam o empreendedorismo com capacitações, mentorias, treinamentos e networking. Além disso, organizações como a União Europeia oferecem financiamentos para negócios inovadores, como é o caso do Women TechEU, que oferece até 75 mil euros em aportes.
Pessimismo e desigualdade de gênero na tecnologia
O Web Summit, uma das maiores conferências de inovação e tecnologia do mundo, realizada em novembro em Lisboa, lançou mais uma edição do State of Gender in Tech Report — uma pesquisa com mulheres que participam da comunidade Women in Tech, destinada a ampliar as oportunidades para elas no mundo da inovação e da tecnologia.
Os dados mostraram que 60% delas acreditam que a igualdade de gênero está piorando na tecnologia (contra 51% em 2024) e 56% acreditam que mudanças geopolíticas recentes tiveram impactos negativos sobre a atuação das mulheres, impulsionadas especialmente pela desvalorização das agendas de diversidade por parte das empresas.
Além disso, 38,9% das entrevistadas concordam que o mundo tech está tomando medidas apropriadas para apoiar a igualdade (eram 44% em 2024). Ao todo, responderam à pesquisa 671 mulheres da Europa, Américas, Ásia e África.
renan@revistaentrerios.pt