Esporte

Endrick precisa consolidar seu nome antes de comemorar gol com dança

O futebol é duro, nem sempre é o que parece aos olhos de quem se enxerga como craque diante do espelho

Abril 23, 2026

Endrick. Crédito: Reprodução Instagram
Endrick. Crédito: Reprodução Instagram

Aos 19 anos, Endrick sofre o efeito colateral comum a tantos outros de idade igual, não necessariamente com talento parecido, que chegam cedo ao futebol europeu, cheios de sonhos e certezas. Alguns, quase todos, como arrimo de uma família otimista que enxerga mais qualidades do que defeitos na cria. Não posso dizer que esse seja o caso de Endrick, candidato a craque, e com potencial do tamanho do maior desafio de sua vida: provar ao mundo e a Carlo Ancelotti que é um jogador diferenciado.

Desde que deixou o Palmeiras, em maio de 2024, então com 17 anos, o jovem fã de videogame trocou o joystick por uma gangorra capaz de alçá-lo para minutos de glória e de fazê-lo despencar entre críticas e dúvidas. Chorou de emoção ao ser apresentado ao Real Madrid, em julho de 2024, quando disse que gostaria de permanecer ali por toda a carreira. Seis meses depois, foi emprestado ao Lyon.

O futebol é duro, nem sempre é o que parece aos olhos de quem se enxerga como craque diante do espelho. Mais do que se ver assim, é preciso ser e convencer. Taí uma missão difícil para qualquer brasileiro postulante a craque e a bilionário, que antes da maioridade deixa o país, venerado como gênio pela torcida do seu clube. O talento para tocar de letra e fazer malabarismos com a bola não significa sucesso garantido na Europa. Há quem prefira o pragmatismo.

Por essas e outras, Endrick deveria, nessa fase de estabilização, retirar do seu repertorio de comemoração de gol as dancinhas e qualquer gesto que possa parecer soberba ou provocação ao adversário. O momento requer foco, objetividade, humildade e paciência. Ainda que a alegria esteja no DNA do brasileiro, é o resto do mundo que Endrick ainda precisa conquistar. No coração do seu país de origem, ele já tem vaga. No de Ancellotti, a gente não sabe. Melhor, então, deixar o talento, somente o talento, fluir. Sem arroubos, sem nada mais. Simples assim.

Destaque da vitória sobre o PSG, no último dia 19, com um gol e uma assistência, Endrick arriscou uns passos de dança no Parque dos Príncipes e levou uma bronca do lateral Hakimi, do time parisiense. Pode ter sido um mimimi bobo do adversário, chororô de perdedor, mas o que o jovem brasileiro lucrou com isso? A dancinha não precisava virar pauta e disputar o espaço do noticiário com o que realmente interessa, seu excelente desempenho na partida. Endrick não tem vaga na Copa e ainda luta para consolidar o nome no futebol europeu. Não custa lembrar que, outro dia desses, o técnico do Lyon, Paulo Fonseca, disse abertamente que não estava satisfeito com seu desempenho. Chegou a deixá-lo de castigo no banco, contra o Lorient, lançando-o no intervalo. O brasileiro precisou de poucos minutos para ser decisivo, participando dos gols da vitória por 2 a 0. Ou seja: futebol e personalidade não lhe faltam, e dancinha nenhuma vai agregar algo mais àquilo que Deus lhe deu.

É bom lembrar que, na seleção brasileira, Endrick está em posição favorável na gangorra que vem ditando sua carreira desde que deixou o país. Contra a Croácia, no amistoso de preparação para a Copa do Mundo – última Data Fifa antes da convocação final – foi decisivo ao sofrer um pênalti e dar uma assistência na vitória por 3 a 1, nos Estados Unidos. Fim de jogo, abraçou a mulher, a influencer Gabriely Miranda, e chorou, chorou, chorou. Havia mais do que lágrimas ali. Havia um desabafo, um grito de alguém que precisa provar seu valor ao cruel mundo do futebol. Que seja, então, com gols. A dancinha pode esperar um pouco mais.

Marluci Martins. Crédito: Divulgação