Entre a boina e o pandeiro: a portuguesa que cruzou o Atlântico para viver de samba
Ines Carreira trocou Lisboa pelo Rio de Janeiro, estudou as raízes negras do gênero musical e hoje mantém uma agenda de shows na capital carioca
- Lisboa
Fevereiro 20, 2026
Num fim de tarde em Ipanema, enquanto o sol desce dourando o calçadão, a portuguesa Ines Carreira ergue o copo e fala de música como quem fala de destino. Não chegou ao Rio de Janeiro por acaso. Chegou pela escuta. Primeiro foi a bossa nova — essa embaixadora delicada que apresenta o Brasil ao mundo com voz baixa e harmonia sofisticada. Aos 18 anos, ainda em Lisboa, ouviu Tom Jobim e sentiu que havia ali uma cidade inteira escondida dentro de um acorde.
Foi atrás dessa promessa. Mas o Rio é sempre mais do que a primeira impressão. A bossa abriu a porta; o samba a puxou para dentro. E o que era intercâmbio virou enraizamento.
+ LEIA MAIS: Edição de fevereiro: EntreRios mergulha nos bastidores do surf e entrevista Giovanna Antonelli
Ines fala do samba com reverência, mas sem exotismo. Sabe que pisa em território sagrado. Estudou a história, mergulhou nas raízes negras do gênero, entendeu que cantar samba não é só interpretar uma canção — é ocupar um espaço simbólico carregado de memória. “Hoje há questionamentos, e eles são legítimos”, diz, com a serenidade de quem compreende o peso da travessia. Ser portuguesa cantando samba é também reconhecer privilégios, tensões e responsabilidades. Mas é, acima de tudo, amar.

O momento em que decidiu ficar não foi silencioso. Foi elétrico. Num palco montado na Praça XV, durante o Viradão Carioca, viu Mart’nália incendiar a praça com sambas que todo mundo sabia de cor. A multidão cantava, o chão vibrava, e ela — estrangeira de olhos marejados — teve a certeza íntima de que queria pertencer àquilo. “Eu pensei: eu quero morar aqui para sempre.”
Nem sempre é simples transformar encantamento em permanência. Houve volta a Portugal, mestrado, trabalhos como jornalista, planejamento financeiro, conversa com os pais. Houve estratégia e houve coragem. Transformou o samba em tema acadêmico, fez da paixão argumento, juntou dinheiro, voltou.
Quando regressou ao Rio, já não era apenas como pesquisadora. Sim, como cantora. Nas rodas e nos palcos, construiu seu espaço com cuidado e constância. No repertório, mestres que são quase bússola: Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Paulinho da Viola. “Eu gosto do samba das antigas”, diz. Não por nostalgia, mas por fundamento. É ali que sente o chão firme.
+ LEIA MAIS: Como o carnaval brasileiro conquistou Lisboa e se firmou como fenômeno cultural
Entre uma apresentação e outra, ela costura também outra ponte: a que liga portugueses e brasileiros no presente. Em Lisboa, quando canta samba, brasileiros choram de saudade. Portugueses pedem playlists, curiosos com aquele ritmo que parece distante e familiar ao mesmo tempo. No Rio, carrega discretamente marcas da origem — às vezes uma boina, às vezes um jeito de frasear que traz o Atlântico na vogal. Não se trata de misturar por estratégia. Trata-se de ser inteira.

Há quem veja o fado e o samba como primos distantes, separados por séculos de história e rotas coloniais. Mas ela enxerga afinidades mais profundas: a melancolia que dança, a poesia urbana, a canção que nasce da ausência. As travessias entre Portugal e Brasil nunca foram apenas políticas ou econômicas; sempre foram também musicais. Hoje, com centenas de milhares de brasileiros vivendo em Portugal e uma circulação cultural intensa entre os dois países, essa ponte ganha nova espessura.
Ela é parte dessa maré. Ficar no Rio, claro, é conviver com suas contradições — inclusive a insegurança que afeta a todos. “Eu precisei criar mecanismos para viver aqui”, admite. A decisão de permanecer é feita de uma balança delicada entre medo e paixão. Por enquanto, a paixão pesa mais.

Quando perguntada sobre a canção preferida, hesita. Não consegue escolher. Talvez porque sua própria história seja uma canção em andamento, sem refrão definitivo. Portuguesa de nascimento, carioca por escolha, ela encarna uma geração que já não vive o Atlântico como distância, mas como fluxo.
No bar em Ipanema, a conversa termina como começou: brindando. Não apenas ao samba, mas à possibilidade de pertencimento que ele oferece. Porque, no fim das contas, o samba não é uma fronteira a ser vigiada — é uma roda. E roda, por definição, só existe quando há espaço para mais um.
Tchim, tchim. Ao samba. Ao encontro.
redes@revistaentrerios.sapo.pt