Entre Brasil e Portugal, chef Mirna Gomes fala sobre cozinha e os desafios de ser mulher e imigrante na gastronomia
Criada entre diferentes regiões do Brasil, a chef Mirna Gomes construiu uma trajetória marcada por deslocamentos, memória e resistência também em Portugal
- Porto
Março 7, 2026
No percurso de Mirna Gomes pela gastronomia, a cozinha nunca aparece como um ponto de partida óbvio. Surge antes como um território sensorial, uma espécie de fio invisível que atravessa a sua história desde a infância, passando por geografias distintas do Brasil, até desembocar nas cozinhas de Portugal.
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Hoje, à frente do restaurante Mito, no Porto, a chef brasileira construiu uma trajetória marcada por deslocamentos — geográficos, profissionais e pessoais — que ajudam a explicar a maneira como pensa e cozinha.
Mirna nasceu em São Paulo, mas a palavra “origem”, no seu caso, nunca coube numa única cidade. Até os dez anos, mudou-se diversas vezes com a família. Viveu no Paraná, passou pelo Piauí, Alagoas e Amazonas, atravessando regiões, climas e culturas muito diferentes entre si. Aos 11 anos, a família estabeleceu-se no Recife, cidade com a qual mantém uma ligação afetiva profunda.
Essa infância itinerante deixou marcas que hoje aparecem na forma como a chef entende o mundo e os ingredientes. Para ela, cozinhar começa muito antes da cozinha.
“Eu sou muito sensorial. Tudo o jeito que eu percebo o mundo é muito sensorial. É pelo cheiro, gosto, tato”.
As memórias da infância surgem como fragmentos muito concretos: frutas de clima quente, o cheiro do leite recém-tirado, a água das cachoeiras no interior do Amazonas. Elementos que, mesmo distantes no tempo, continuam a funcionar como referências internas.
“Quando comecei a estudar e provar outras coisas, percebi que tudo aquilo — o cheiro da água da cachoeira em Balbina, o cheiro do leite da vaca que tinha na casa da minha vizinha — fica impregnado na gente”.
Essas lembranças formam um repertório invisível. Um arquivo de sabores que, anos depois, se ativa quando ela encontra novos ingredientes ou novas cozinhas.
O encontro improvável com a gastronomia
Durante muito tempo, no entanto, Mirna não imaginava que a cozinha se tornaria profissão.
Em Fernando de Noronha, trabalhava como massoterapeuta. Foi ali que começou a aproximar-se de cozinheiros e cozinheiras, não por ambição profissional, mas por afinidade natural. Entre clientes e amizades, conheceu a chef brasileira Bel Coelho. O encontro acabaria por mudar o rumo da sua vida.
Quando decidiu mudar-se para São Paulo, Mirna ainda oscilava entre diferentes possibilidades de estudo: psicologia, naturopatia ou gastronomia. Foi numa conversa com Bel que a ideia da cozinha ganhou contornos mais concretos.
“A Bel falou muito do diálogo entre o meu trabalho de massoterapeuta e a cozinha. As duas coisas são extremamente sensoriais”.
A decisão amadureceu quando começou o curso de Gastronomia na FMU, em São Paulo. A primeira aula de história da alimentação teve um impacto imediato. Ali percebeu que não havia volta.

Recomeçar depois dos 30
Mirna entrou para a faculdade depois dos 30 anos — uma escolha que, para muitos, poderia parecer tardia. Para ela, foi exatamente o contrário.
A maturidade transformou o processo de aprendizagem. Sabia por que estava ali. Na família, ninguém havia frequentado a universidade até então. Estudar era também uma forma de honrar essa história.
“Quando você sabe o seu propósito, sabe o que quer, é muito difícil que se perca no meio do caminho”.
Se a infância foi marcada por deslocamentos pelo Brasil, a chegada a São Paulo abriu outro tipo de descoberta: a diversidade urbana.
Mirna frequentava o bairro da Liberdade, conhecido pela forte presença da comunidade japonesa, onde fazia faculdade. Ao mesmo tempo, explorava restaurantes chineses, indianos e outras cozinhas que começavam a ganhar espaço na cidade.
A primeira visita ao Mercado Municipal tornou-se uma espécie de epifania gastronômica.
“Eu fiquei maluca quando entrei no Mercadão de São Paulo. Parecia que eu estava em outro mundo”.
Esse ambiente multicultural ajudou a expandir o repertório que já vinha sendo formado desde a infância. Cada refeição passou a ser também uma forma de aprendizado. “Cada vez que eu saio para comer, crio uma memória”.
O divisor de águas na Espanha
Entre as experiências profissionais que moldaram a sua trajetória, uma ocupa um lugar especial: o estágio no El Celler de Can Roca, em Girona, restaurante com três estrelas Michelin.
Foi a primeira vez que Mirna saiu do Brasil. Não falava espanhol com fluência e nunca havia vivido uma experiência internacional. A dimensão técnica da cozinha impressionou, mas não foi isso que mais a marcou.
O que realmente a transformou foi a dinâmica familiar que sustenta o restaurante, especialmente a presença de Montserrat Fontané, mãe dos irmãos Joan, Josep e Jordi.
“Eu fui muito mais para a Espanha para conhecer a mulher que eu gostaria de ser”.
A figura de Montserrat — respeitada, consultada, central na vida do restaurante — tornou-se uma referência. “Foi perceber o respeito que aquela família tem pela mulher que começou tudo aquilo”.
A experiência mudou também a maneira como Mirna passou a olhar para si própria e para o percurso que vinha construindo.
“Hoje consigo olhar para a minha trajetória e dizer: que caminho bonito”.
MasterChef e novas portas
Em 2018, Mirna participou do MasterChef Profissionais, no Brasil. A experiência trouxe visibilidade nacional, mas também uma responsabilidade maior. “A partir do momento que você começa a aparecer mais, vai haver mais cobrança”.
O programa abriu portas, incluindo o convite para trabalhar em Portugal. Mas também funcionou como um estímulo para aprofundar ainda mais o seu trabalho.
“Não só me deu visibilidade como me instigou a aprender e cozinhar mais”.
Ingredientes que contam histórias
Mirna chegou a Portugal em 2019 para trabalhar no restaurante Toasted, no Porto. Poucos meses depois, a pandemia interrompeu o projeto. Seguiram-se outras cozinhas: Venga, Mito, Palacete Severo, Oficina e Soma.

Hoje, de volta ao Mito, reencontra um espaço onde pode desenvolver a sua cozinha com maior autonomia.
Quando fala dos ingredientes portugueses, Mirna não esconde o entusiasmo “Minha primeira paixão aqui foi a abóbora hokkaido”.
Também se encantou com produtos que raramente apareciam no seu percurso no Brasil. “Aprendi muito a trabalhar com coisas como cabrito e javali”.
Os vegetais ocupam um lugar especial na sua cozinha. “A variedade de couves aqui é incrível”.
Uma cozinha feita de encontros
Para Mirna, a ponte entre Brasil e Portugal surge quase naturalmente.
“Quando você começa a olhar, percebe que a cozinha do Brasil também é um tanto de cozinha portuguesa”.
A história familiar confirma essa ligação. A mãe, quando jovem, viveu numa pensão em São Paulo administrada por uma senhora portuguesa. Foi ali que aprendeu muitas receitas.
Com o tempo, essas preparações ganharam novas camadas de sabor.
“Minha mãe fazia cabidela com pimenta-de-cheiro, coentro, limão”.
A mistura de influências — portuguesa, africana e indígena — ajuda a explicar por que a chef vê tanta proximidade entre as duas cozinhas.
As barreiras e futuro da cozinha
Apesar da trajetória consolidada, Mirna não ignora as dificuldades estruturais da gastronomia profissional.
“Tem sempre alguém que duvida”.
Essa dúvida externa transforma-se muitas vezes numa pressão interna constante.
“Você acha que não pode errar, não pode falhar, não pode esquecer”.
Mirna resume a própria posição dentro desse sistema com uma frase direta:
“Eu preencho muitas cotas”.
E explica:
“Sou imigrante, mulher, negra e homossexual”.
Apesar das dificuldades, ela também vê sinais de transformação na gastronomia. Cada vez mais mulheres começam a ocupar espaços de liderança e criação. E espera que esse movimento continue. “Não são só os caras brancos de barba que têm direito a receber esses louros”.
Quando fala com outras mulheres — especialmente imigrantes — que querem seguir na gastronomia, Mirna prefere falar de liberdade.
Migrar também significa carregar histórias e referências capazes de transformar a cozinha.
“Quando a gente migra, carrega uma bagagem de memória”.
É essa bagagem que pode tornar uma cozinha única.
“Deixar essa criatividade florescer. Deixar essas memórias aparecerem”.
No fundo, é o que Mirna Gomes tem feito desde o início: cozinhar a partir de uma geografia interior feita de viagens, afetos e sabores, uma cartografia que começa em São Paulo, atravessa várias regiões do Brasil e hoje encontra novas expressões nas cozinhas do Porto.
flavio@revistaentrerios.pt