Moda e música

Rock in Rio Lisboa: quando os festivais viram passarelas; escolha o seu estilo

Por que os looks de festival se tornaram tão importantes quanto os shows

Junho 16, 2026

NOS Alive. Reprodução/Instagram @nos_alive

Tem quem escolha o look semanas antes. Quem compre glitter, bota nova, óculos coloridos ou aquela peça “com cara de festival”. Tem também quem jure que vai priorizar o conforto e, quando percebe, está salvando referências no Pinterest e no TikTok dias antes do show. Nos festivais de música, a roupa raramente é só roupa. Mais do que assistir aos espetáculos, o público espera viver uma experiência completa, e a vestimenta faz parte dela.

Dos hippies de Woodstock às botas enlameadas de Glastonbury, das camisetas de banda do rock aos brilhos pop do Coachella, a moda sempre ajudou a construir identidades culturais. Hoje, essa relação ganhou uma nova camada: a performance digital. Em tempos de redes sociais, os festivais se tornaram cenários de produção de imagem.

Para Adelaide Borges, coordenadora do curso de Design de Moda da Escola de Moda de Lisboa, atravessar os portões de um festival significa “Entrar em um ecossistema onde a moda não é apenas um detalhe, é a gramática fundamental da experiência”.

Talvez isso explique por que tantos looks de festival parecem fantasias contemporâneas. Existe uma vontade coletiva de viver, por algumas horas, uma versão mais livre, ousada ou divertida de si mesmo. “O que as pessoas vestem nesses eventos permite transformar o ‘eu quotidiano’ em uma versão hiperbolizada de uma narrativa coletiva”, afirma Adelaide.

Segundo ela, a roupa funciona como um “uniforme de agregação”, criando um diálogo direto entre palco e plateia. A influência dos artistas continua enorme no processo. A chamada fandom fashion, tendência em que fãs se vestem inspirados em músicos, cresceu globalmente com turnês como as de Taylor Swift e Beyoncé. Quando Harry Styles aparece de unhas pintadas e pérolas, ou quando Lana Del Rey transforma o romantismo vintage em estética desejada, isso inevitavelmente chega aos festivais.

LEIA MAIS: 5 festivais de verão em Portugal para quem gosta de música e camping

“Cada escolha de cor ou acessórios emite sinais de pertença, presença e alinhamento, mostrando ao artista que a sua mensagem foi decodificada. O visual da plateia vira uma ‘oferenda’ estética na qual a ‘tribo’ se converte em um espelho vivo da visão criativa do artista e em uma extensão cenográfica”, explica Adelaide.

Alexandra Cruchinho, diretora da área de Design e Produção de Moda da Universidade Lusófona, diz que a música é um dos principais fatores que determinam a forma de vestir nesses eventos. “O próprio estilo musical define o tipo de público e o tipo de vestuário”, explica.

A consultora de imagem Mónica Lice, autora do blog Mini-saia, observa que o line-up influencia diretamente os looks. “Num dia ou festival mais voltado ao metal, os visuais tendem a ser predominantemente pretos, sem grandes detalhes de moda. Tops e t-shirts de bandas, casacos de couro, jeans e botas continuam marcando presença”, afirma.

Nos últimos anos, as grifes perceberam o potencial da “moda de festival” como oportunidade de ativar uma marca e alavancar as vendas exponencialmente no período, contratando blogueiros e influenciadores para vestirem suas roupas e lançando coleções-cápsula especiais para os grandes eventos. O resultado é uma estética cada vez mais pensada para ser fotografada, compartilhada e consumida online.

O personal stylist Romulo Botelho acredita que existe uma certa “performance exagerada” nos eventos. “Sinto algo pouco confortável e muito instagramável”, diz. Mas, se o mundo inteiro parece olhar para o Coachella como referência estética, Portugal construiu um caminho próprio, menos fantasioso e mais conectado à realidade dos eventos locais. Adelaide define essa adaptação como um “effortless português”.

“Enquanto o deserto da Califórnia pede um desfile, o contexto português exige resistência prática por causa da maresia de Lisboa, da umidade do Porto ou da natureza de Paredes de Coura”, explica. Por isso, peças como moletons, corta-ventos, calças cargo e roupas em camadas tornaram-se elementos centrais dos festivais nacionais.

LEIA TAMBÉM: Marina Sena fala sobre liberdade criativa e adianta novidades após turnê europeia

Adelaide lembra que todo frequentador de festivais guarda alguma peça de roupa associada a uma lembrança. A camiseta usada no show favorito, o casaco emprestado em uma noite fria, o calçado destruído depois de horas dançando. “A roupa transforma-se em talismã psicológico. Deixa de ser um simples objeto para se tornar fragmento de uma experiência”, finaliza.

O estilo de cada festival português; inspire-se nos looks

Primavera Sound Porto

Primavera Sound Porto edição 2025. Reprodução/Instagram @primaverasound_porto

Minimalismo intelectual e forte presença vintage. Segundo Adelaide, predominam peças oversized, tons neutros e looks com aparência despretensiosa, mas cuidadosamente construídos. Botelho resume como “um mix de tudo um pouco”, que vai “dos betinhos (mauricinhos) à galera mais alternativa”.

NOS Alive

NOS Alive. Reprodução/Instagram @nos_alive

Muitas ativações de marca e presença de influenciadores reforçam a estética urbana e pop. Alexandra fala de um público “casual, mas ao mesmo tempo muito fashion”, enquanto Botelho o define como o espaço do “público mais contemporâneo em questão de moda”.

Rock in Rio Lisboa

Rock in Rio Lisboa edição 2025. Reprodução/Instagram @rockinriolisboa

Mistura de estilos e forte influência pop. Como recebe artistas de universos muito diferentes, o visual muda conforme o dia e o line-up. Segundo Mónica, festivais de rock ou metal ainda concentram looks predominantemente pretos, com botas, jeans e camisetas de banda.

Ageas Cooljazz festival

Ageas Cooljazz festival edição 2025. Reprodução/Instagram @ageascooljazz

Elegância descontraída. Botelho descreve o público como “soft chic, descolados”. A atmosfera mais intimista e sofisticada do festival influencia produções mais discretas, leves e refinadas.

MEO Kalorama

MEO Kalorama edição 2025. Reprodução/Instagram @meokalorama

Festival associado à experimentação estética e liberdade visual. “O look afirma-se como o bastião da liberdade e da fluidez através de uma explosão de maquiagem experimental que espelha uma geração visualmente disruptiva e politicamente ativa”, diz Adelaide.

Boom Festival

Boom Festival. Reprodução/Instagram @boomfestivalofficial

Citado por Alexandra como um exemplo de estética “muito natural, muito hippie e alternativa”, o festival mantém uma forte ligação com espiritualidade, sustentabilidade e liberdade estética.

Publicado originalmente na revista EntreRios.

fernanda@revistaentrerios.pt

Fernanda Baldioti
fernanda@revistaentrerios.pt