Entrevista

Ex-Cheiro de Amor, Carla Visi fala sobre a vida em Portugal, racismo e novos projetos

Uma das vozes mais conhecidas do axé, cantora relata em entrevista exclusiva à EntreRios sobre como tem unido música a meio ambiente e o papel da mulher em projetos culturais

Abril 1, 2026

Carla Visi: cantora vive em Portugal há sete anos / Foto: Divulgação / Ricardo Nascimento

Ela sacudiu o Brasil nos anos 1990 ao cantar Vai sacudir, vai abalar e se tornar uma das vozes mais conhecidas do gênero baiano, a axé music. Vivendo em Lisboa há sete anos, Carla Virginia Soares Fernandes, conhecida como Carla Visi, se multiplica nas funções de jornalista, pesquisadora, ambientalista, adepta do espiritismo e do feminismo, e, principalmente, mãe da Sarah, de 19 anos… E alguém que nunca deixou de pensar o Brasil e de se posicionar politicamente — mesmo morando no exterior. Em fevereiro, voltou à terra natal para cantar em festas e no carnaval de várias cidades, reencontrando o país que continua a habitar suas canções e seus estudos.

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Mesmo de longe, já que nesta época está sempre do outro lado do Atlântico, Carla acompanha a folia de Lisboa: “Em Portugal, creio que a dimensão só não é maior por causa do inverno. Mas já tem carnaval com trio elétrico e banda de axé!”. E celebra iniciativas locais: “Adoro o pessoal do LisBloco, que faço parte da associação. Eles começaram com a proposta de desfilar com fantasias e instrumentos feitos de materiais recicláveis”. 

Em Lisboa, as manhãs de Carla começam pelas ruas de Benfica, bairro onde encontrou respiro depois de sobreviver ao excesso — de trabalho, de ritmo, de expectativas — e também a um câncer. Sete anos após chegar a Portugal, ela já se sente parte da paisagem: cumprimenta vizinhos, troca ideias com representantes da Junta de Freguesia e participa das discussões sobre a comunidade brasileira, presença crescente no país. “Aqui, servidores públicos e políticos estão para servir, são acessíveis. Isso faz diferença”, afirma. Ainda assim, não deixa de observar os desafios da imigração — da xenofobia que hoje recai com mais força sobre bangladeshianos e paquistaneses ao estigma que mulheres brasileiras carregam fora do país. “Nunca fomos bem vistas. Ainda levamos o estigma de prostituta. E com o meu biotipo, então… Eu já viajei o mundo inteiro e sempre tive que provar que sabia falar, que sabia estar…”.

Carla Visi também atua como pesquisadora acadêmica em Portugal / Foto: Divulgação / Ricardo Nascimento

O enfrentamento ao racismo ela conhece bem, vem ainda da infância. “Eu tinha seis anos quando ouvi de um colega: ‘neguinha, você devia estar na cozinha’. Aquilo me marcou para sempre. Para ser aceita, até dentro da minha cabeça, eu achava que precisava ser a melhor aluna. Isso moldou toda a minha disciplina”.

Com o tempo, a consciência racial se somou à política. Carla é afiliada ao PV, se diz fã Marina Silva, e chegou a ser convidada por Edson Duarte, então Ministro do Meio Ambiente e presidente do partido, para ser candidata à vice-governadora da Bahia — projeto interrompido pela mudança para Lisboa. Segue, no entanto, politicamente ativa: “Infelizmente nosso Congresso ainda é retrógrado, machista. Precisamos repensar o poder do nosso voto”, diz ela.

Hoje, é palestrante em um centro espírita e participa de atividades da Federação Espírita Portuguesa. A ligação entre música e consciência sempre existiu, muito antes de se tornar pesquisa acadêmica. Quando participou da Cúpula da Terra na ECO-92, já tratava o palco como extensão de um compromisso ambiental e social. Nos trios elétricos, valorizava o trabalho dos catadores de lata. “Se existe reciclagem no Brasil, o mérito é deles”, afirma ela, que participou de atividades lúdicas com crianças de Canabrava e ajudou a desativar o lixão. “Cultura não é só espetáculo: são modos de fazer, crenças, valores. A música tem muitos papéis: divertir, emocionar — mas também educar. Ela forma comportamentos, positiva e negativamente”. 

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A música, para Carla, é sempre instrumento: de cuidado, de encantamento, de transformação. “Eu canto desde os 17 anos. A música é que financia os meus estudos. Com ela, vou realizando os meus sonhos. Não sou milionária. Vivo com dignidade e administro bem o que eu tenho”.

Da prática veio a pesquisa. Bacharel em Jornalismo pela UFBA, pós-graduada em Gestão Ambiental, mestre e agora doutoranda em Ecologia Humana pela Universidade Nova de Lisboa, investiga como a canção brasileira pode mobilizar temas socioambientais. Dessa investigação nasceu o livro A canção da natureza e a natureza da canção, lançado no início de 2025. Em 2024, também contribuiu com Comunicação não violenta na prática.

Novos projetos

Em paralelo, trabalha ao lado do pesquisador Carlos Leal na escrita de FemininAXÉ – a mátria e a força de um movimento, que revisita a participação feminina no axé. O projeto ganhará corpo ainda em 2026 com livro, exposição e show, destacando o papel daquelas mulheres que, dentro e fora dos palcos, sustentaram um movimento musical e social que mudou a Bahia. “O universo feminino me toca muito. Sou a quarta geração de cantoras da família”, diz, lembrando ainda das dores silenciosas que tantas brasileiras partilham. “Cresci vendo histórias de traição, de silenciamento, de machucados que não apareciam na pele. Isso me fez querer falar sobre o feminino. É um tema que me move”.

Outro projeto atual, EcoS da Natureza, parceria com a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reúne show, exposição fotográfica e palestras musicais. A ideia é usar a canção brasileira como ponto de partida para uma leitura de mundo mais inclusiva, diversa e sustentável. “Eu acredito em coerência. Minha vida, minha música, meu trabalho… tudo vem do mesmo lugar. Quero menos certezas, mais aprendizado. Menos pressa, mais profundidade”, filosofa.

Depois do câncer de mama, aprendeu outra relação com a passagem do tempo — e assume com naturalidade os cabelos brancos, as marcas e a maturidade dos 55 anos. Já foi símbolo sexual do Brasil, mesmo sem ter solicitado essa posição, mas hoje encara essa parte da história com humor e distanciamento, sem abrir mão do orgulho do próprio percurso. “O pessoal enche o meu saco agora que eu estou com cabelo branco. Pra quem já ficou careca, cabelo branco é fichinha”, ressalta.

Namorada do enfermeiro português Américo Jaime de Almeida, ela fala com orgulho sobre a surpresa dele ao conhecer Salvador e entender a dimensão da fama da companheira e o carinho dos fãs por ela. Ao mencionar o episódio, a cantora explica os sentimentos complementares dos dois países em sua vida: “Não há coração dividido. Há um coração preenchido por um Brasil que eu amo demais, e conheço do Oiapoque ao Chuí, e por Portugal, que me acolhe tão bem”.

Fernanda Baldioti
fernanda@revistaentrerios.pt