Ex-jogador Valdo Cândido sobre carreira: “Nunca joguei para ganhar dinheiro”
Apesar de afastado dos campos há mais de 20 anos, ele ainda é abordado nas ruas por torcedores do Benfica e do Botafogo. Confira o bate-papo da EntreRios com o brasileiro
- Lisboa
Fevereiro 17, 2026
Valdo Cândido de Oliveira Filho, ex-jogador e ex-treinador de futebol, é um cidadão famoso nos dois lados do Atlântico. Apesar de afastado dos campos há mais de 20 anos, ainda é abordado nas ruas por torcedores do Benfica e do Botafogo e por muitos que o viram jogar pela Seleção Brasileira em duas Copas do Mundo (1986 e 1990) ou pelo Paris Saint-Germain (PSG).
Admirado como habilidoso e incansável meio-campista, mas também pela humildade e simpatia, ele chega aos 61 anos agradecendo pela vida – que, tristemente, inclui uma tragédia, além de doença, já vencida. Valdo sofreu a pior dor que um pai pode enfrentar, a perda de uma filha, ainda adolescente. Seu relato sobre esse momento da vida é uma verdadeira aula de superação e resiliência. Também teve um problema de saúde grave, tromboembolismo pulmonar, sobre o qual não gosta de falar.
Casado há 33 anos com a portuguesa Marta e pai de Yara, mora em Lisboa e trabalha no Canal 11, da Federação Portuguesa de Futebol, como comentarista de futebol. Confira o bate-papo do ex-jogador à EntreRios.
Os torcedores que acompanharam sua carreira ainda adoram você. Pelas lições do craque ou postura de vida?
Acho que tem mais a ver com o homem do que com o atleta. Eu nunca me coloquei em um pedestal, nunca fui inacessível. Sempre tive uma ligação muito forte com meus torcedores. Aqui em Portugal, com os do Benfica, com os do Botafogo quando estou no Rio de Janeiro, e com os do Paris Saint-Germain (PSG) quando vou à França. Sem falsa modéstia, eu devo fazer uns 40 ou 50 vídeos por mês para as pessoas que me mandam mensagens, com pedidos como “Meu pai vai fazer aniversário, é torcedor do Benfica, pode fazer um vídeo?”. E eu faço, porque para eles é uma grande alegria.
Quando decidiu que queria ser jogador de futebol?
A primeira vez que eu vi um clube de futebol profissional na minha vida, ainda adolescente, foi quando o Vasco da Gama foi jogar contra o Criciúma, perto da minha cidade, Siderópolis (SC). Meu pai foi um grande jogador, no nível regional, e eu sempre quis seguir os passos dele. Mas fiz algumas besteiras, como parar de estudar aos 14 anos. Arrisquei, mas, graças a Deus, deu certo.

Quais são as suas melhores memórias dos tempos de jogador?
No Botafogo, onde encerrei a minha carreira, posso dizer que tive mais prazer de jogar, pela superação da dificuldade como um atleta de 39 anos. Hoje, o Botafogo é uma máquina, mas quando eu cheguei lá, em 2003, tudo era muito sofrido. Eu e o Fernando (Fernando Henrique Mariano) éramos os mais velhos no meio daquela garotada toda. A nossa missão era resgatar o clube e voltar para o Brasileirão, e conseguimos! O nosso nome vai estar sempre ligado à história do Botafogo. Outra grande memória, além dos títulos que conquistei, foi vestir a camisa da Seleção Brasileira pela primeira vez (em 1986 como reserva). Mas o que mais me marcou foi a base que tive no Figueirense. Eu me tornei profissional com 16 anos. Eu jogava com quem tinha 35 ou 40 anos, e, por isso, me chamavam de filhinho. Eles me ensinaram tudo que eu precisava aprender.
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Como foi ouvir o Rei Pelé, em 1987, dizer que “Valdo era o melhor jogador de futebol” da época?
Ele foi o maior de todos, e receber um elogio do melhor de todos é uma enorme honra. Quando soube que Pelé iria nos visitar na Seleção, foi uma emoção tremenda, eu só o tinha visto pela televisão na Copa do Mundo. Fui na direção dele, as minhas pernas bambearam, e perguntei: “Rei, posso tirar uma foto com você?”. E ele respondeu: “Só se for no meu colo”. E tiramos a foto assim! Essa foto é o meu maior troféu.

O que o comentarista Valdo diria sobre o jogador Valdo?
Sempre fui consciente de que era bom jogador, mas sabia também que não era do nível de um Romário. Eu olhava para os outros jogadores e pensava: “Tenho que achar um jeito de ser sempre lembrado”. Na Seleção Brasileira, sabendo que não conseguiria fazer a mesma coisa que o Ronaldinho Gaúcho ou o Romário faziam, entendi que deveria dar suporte para eles. Nos clubes pelos quais passei, eu era quase sempre, com todo o respeito aos demais, a peça principal, mas na Seleção eu não conseguia ser a peça principal. Então eu tinha que ser o cimento que ia unir todo mundo.
O que você faz para manter a boa forma física? Continua a jogar futebol?
O futebol é a minha grande cachaça. Eu sempre gostei de estar perto da bola, porque tudo que eu tenho na minha vida, em termos materiais, eu devo a esse objeto chamado bola. Atualmente eu treino e me exercito dentro das minhas limitações. Sobre jogar, se me convidam, eu estou dentro. Participo de um grupo que se chama Futebol Solidário. Quando é preciso angariar dinheiro, fazemos jogos aqui e ali.
Você está há 35 anos em Portugal. Pensa em voltar um dia para o Brasil?
Se eu voltasse para o Brasil, seria para a minha pequena grande Siderópolis. Eu saí da cidade com 14 anos, não tenho muito contato, mas sempre que posso vou lá. Sou casado com uma portuguesa há 33 anos, então seria uma mudança muito brusca. Sempre fui meio nômade, as adaptações são fáceis para mim, mas não posso cobrar isso da minha família. Eu cheguei em Portugal em julho de 1988. Aqui ancorei meu barco e aqui fiquei. Vim jogar no Benfica, onde fui muito feliz.
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O que mais gosta de fazer nos momentos de lazer?
Gosto de música, estou sempre escutando alguma coisa. Música portuguesa e de MPB. Ouço todos os grandes ícones, e essa geração nova também tem cantores fantásticos. Eu canto, toco percussão e pandeiro. Se Deus me desse outro dom que não o futebol, eu teria escolhido ser cantor.

Como comentarista dos jogos do Brasileirão, você pode ter que dormir depois das três da manhã devido à diferença de fuso. Lida bem com isso?
Sim. O Brasileirão é bom, dá para matar um pouquinho as saudades. Eu não me importo de dormir mais tarde por estar comentando jogos. Aliás, é muito difícil eu reclamar de alguma coisa. Quando meus colegas se queixavam do excesso de jogos, eu sempre falava: “Gente, são 90 minutos, nem tem comparação com trabalhar numa obra”, como fiz no começo da vida. Eu nunca joguei para ganhar dinheiro. O que eu sonhava mesmo era entrar no Maracanã e escutar na rádio o locutor falar o meu nome. Esse era o meu sonho.
Você é alegre e otimista, apesar dos momentos difíceis que já viveu. Como superou a perda de uma filha?
Foi tudo muito de repente. Soube que minha filha havia sofrido um acidente de automóvel no Brasil, quando cheguei para jogar na Austrália com um time japonês. Como estava do outro lado do mundo, foi uma longa e dura viagem. Mas eu sou muito intuitivo e sei que Deus esteve sempre comigo. Confirmei isso porque aconteceram dois mistérios que até hoje me intrigam. Primeiro, na viagem entre a Austrália e os Estados Unidos, sentei do lado de uma missionária com quem conversei e que me apoiou o tempo inteiro. Foi um anjo que colocaram ali no meu caminho.
Depois, no transbordo nos Estados Unidos, não queriam me deixar embarcar para o Brasil por não ter o visto americano. Mas, na minha cabeça, uma voz dizia: “Olha a tua mochila”. Essa voz era tão forte que acabei olhando, e, não sei como, nem por que, lá estava o passaporte brasileiro vencido, mas com o visto americano válido, e consegui embarcar imediatamente para o Brasil. Essa lacuna que fica no coração nunca mais é preenchida. Como diz o Zeca Pagodinho, “o dono da dor sabe quanto dói”. Temos um lado egoísta de querer as pessoas por perto, mas todos partem. Só que é muito difícil quando os pais precisam enterrar os filhos. Acho que só quem passa por isso sabe o que significa.
Sente ter alguma missão, lema de vida?
Sim, tenho. Acho que a minha missão é ajudar os menos favorecidos. E meu lema é: eu sou o que sou e não o que os outros querem que eu seja. Se eu puder ajudar, ajudo. Eu sei de onde vim, onde cheguei, e às vezes tento aconselhar aqueles que estão no caminho porque a dificuldade não é chegar, é se manter lá em cima. Temos de ser humildes com a vida. Já enfrentei um problema de saúde grave e superei. Deus me deu mais essa bênção.
Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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