Fernando Freitas: “Não é a doença que nos mata, mas a vida doentia que levamos”
Para o médico existe uma raiz emocional na base das doenças. Ele diz que não as vê como “inimigas dos doentes”, mas mensageiras de algo que precisa ser mudado na vida
- Lisboa
Março 29, 2026
Fernando Freitas, 69 anos, começou sua carreira como cirurgião em São Paulo, mas observou que a recuperação dos doentes dependia mais da vontade de viver do que das respostas do corpo. Abriu divergência com a medicina tradicional, criou um método de intervenção e ensino e ganhou projeção pelo trabalho em saúde integrativa e do desenvolvimento humano. Autor de vários livros, Freitas é mentor de cursos de Consciência Sistêmica. Tem muitos seguidores e vive entre o norte de Portugal e o interior paulista. Já não exerce a medicina, mas sente-se “mais médico do que nunca”.

Sempre quis ser médico?
Sempre! Minha família toda tinha várias doenças e eu me questionava: por que, morando no mesmo lugar e comendo a mesma coisa, temos doenças diferentes? Apesar de meus pais serem muito pobres, eu queria ser médico. Comecei a trabalhar aos doze anos para poupar dinheiro. Fiz cursinho trabalhando e ingressei na Escola Paulista de Medicina (atual Unifesp). Ninguém acreditava que eu iria conseguir, não sei se é um dom, mas eu pegava as coisas com facilidade. Agora, entrar foi uma coisa, fazer o curso era outra, porque eu tive de parar de trabalhar e os meus pais não conseguiam me ajudar. Então, de início, eu usava minhas poupanças para pagar a condução e fui me virando. Comecei a trabalhar dentro do próprio hospital. Estudava durante a semana e dava plantão no fim de semana. Foi assim que eu fiz o curso.
Quando começou a se interessar pela raiz das doenças?
Estudei tudo sobre doenças, mas sentia que faltava algo. Eu olhava para as pessoas e me questionava por que adoeciam. Escolhi gastrocirurgia porque permite conhecer grande parte do corpo. Mas era a observação dos doentes que me dava as informações mais valiosas. Eu olhava para eles e pensava “esse está com cara que vai complicar”, e observava outros que, nem sabendo o que tinham, percebia que iam se recuperar. Meus colegas escolhiam os pacientes pelo prontuário, eu, pela observação das pessoas. Aí fui ganhando uma fama de que os meus pacientes não se complicavam e tinham alta rápida. Chamou-me demais a atenção ver o estado emocional dos pacientes e a influência na evolução das doenças, se iam melhorar, piorar ou ficar crônicas. Comecei a me interessar por Psicossomática para entender a influência do mundo emocional na doença.
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Você tem uma inspiração?
Segui o caminho do Georg Groddeck, pai da Psicossomática moderna, contemporâneo de Freud. Verifiquei que ele fazia exatamente o que eu fazia. Ele dizia que na base de todas as doenças estão conflitos emocionais infantis não resolvidos. No começo, até questionei como um câncer podia ter a ver com problemas da infância. Ele seguia o pai da medicina, Hipócrates, que pregava: “Se o médico tirar a doença do doente, ele pode arrumar outra porque precisa disso. Então o mais importante é olhar para o doente e não para o mal que ele tem. Hipócrates dizia que o papel do médico é ajudar o doente a se curar, porque o poder de cura está dentro de cada um. E o papel do médico é ver porque a cura não está se concretizando.
E como se trata, então, um doente?
Hipócrates já dava valor à alimentação, aos relacionamentos, aos sonhos. Eles, naquela época, eram observadores dos seres humanos, até porque não havia exames. Diziam que o caminho do tratamento era a natureza. Mas hoje em dia estamos desconetados, nos afastamos da natureza. Vivemos em uma sociedade cheia de clichês e imensos referenciais desconectados das nossas necessidades. As pessoas vivem gastando o dinheiro que não têm em algo que não precisam, para mostrar ao outro, que não está nem aí para mim. Imagina a carga e o nível de estresse. Eu fui aprendendo teorias como Biodinâmica, Biossíntese, Psicossomática e pondo em prática em paralelo à medicina. Eu era chefe de cirurgia no hospital de Sorocaba, e o pessoal me via como um ET, porque eu conversava com os doentes, às vezes os mandava embora sem tratar, e a tendência geral é só examinar o corpo. Hoje em dia a medicina é pedir exames e prescrever remédios.
E você deixou de ser médico?
Essa é a pergunta-chave. Agora é que eu me sinto mais médico do que nunca. No conceito atual, talvez eu não seja, mas, se olharmos para a filosofia hipocrática, agora é que sou médico. Porque agora eu vejo a importância do ser humano, sei me colocar no lugar do doente, sei escutá-lo e é assim que vou ajudá-lo a se curar.
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Qual é o propósito da doença?
A doença é a nossa melhor amiga, ela vem aqui para nos acordar. O que mata não é a doença, é a vida doentia que a pessoa leva. E, se não parar, ou você vai para a morte ou para a loucura, porque são as duas formas de desconectar da realidade. A doença vem, então, para impedir esses destinos. A doença faz olhar para dentro, entrar em contacto consigo mesmo e parar de fazer o que os outros acham.
Como funciona o seu método?
É ensinar as pessoas a se cuidarem, mas não só no corpo, não é ter músculos ou silicone, é ser saudável. Eu tenho de dizer não para quem eu sou e dizer sim para o que as pessoas inventaram que é certo. E começo a acreditar que tenho de ser de determinada forma para ser amado. Nos anos 1990, criamos um problema imenso nas nossas jovens ao promover modelos anoréticas, e as meninas queriam ser assim. A humanidade está doente porque as mensagens de vida saudável estão equivocadas. Devemos aceitar as imperfeições, porque não somos perfeitos, somos seres em evolução. Por exemplo, impor uma alimentação, isso é uma doença, a ortorexia. Não comemos por necessidade ou desejo, mas o que o nosso cérebro acha que devemos comer. O nosso corpo pede para seguir as leis da natureza. Se o nosso cérebro não aceita, vamos adoecer.

A humanidade está doente?
Está. O suicídio não para, 25% dos americanos tomam medicamentos psicoativos. A pandemia fez parte do caminho caótico, não respeitamos o clima, existem milhares de vírus, se começamos a destruir os elementos onde se reproduzem, eles dão um jeito de entrar em outro tipo de organismo. E aí aparecem os homens com gripe aviária, gripe suína. Daqui a pouco aparece outra. Se destruímos animais da floresta, os vírus vão arrumar uma forma de sobreviver, e o jeito é se alojarem nos humanos. Estamos nos acostumando a viver em um lixão, o que jogamos fora pelo mar volta. Se não aprendermos a ter uma vida mais saudável, a fazer menos lixo, a respeitar os outros elementos da natureza, tudo vai se desequilibrar ainda mais. A nossa inteligência tem servido para nos desconectarmos da realidade, em vez de melhorar as nossas vidas.
A epidemia trouxe o mesmo que doença, deixar as pessoas sozinhas…
A solidão faz parte, para entrar em contacto consigo mesmo. A mudança acontece dentro. Só os saudáveis adoecem, pois, se não tiver capacidade de adoecer, tem algo de errado. O corpo fala com você. No diálogo interno, percebemos o que está errado e precisamos mudar, mas precisamos ouvir a nossa voz interna. Quando você ajuda a pessoa a tomar consciência, você resgata o sentir, tira a anestesia. Há pessoas que têm uma máscara e veem tudo lindo, mas de uma hora para a outra se suicidam, porque se apercebem das mentiras que foram construindo e já não conseguem mais manter. As pessoas não se amam, amam a imagem que construíram de si próprias, e por isso também têm a dificuldade de amar os outros. Ficam isoladas nas suas fantasias de poder ou proteção, pensando que os outros só querem abusar delas.
Se pudesse dar alguns conselhos para a sociedade atual, quais seriam?
Se não souber o que fazer, pare e se pergunte quem você é, o que é importante na sua vida. Aliás, é o que a doença faz com você. Então, se puder fazer isso antes de adoecer, já não vai precisar da doença. Pergunta a si mesmo qual é o grau de importância que você dá para as coisas. O equilíbrio está no meio termo, é o Yin e o Yang. Não há vidas perfeitas, isso é uma ilusão de criança. A vida não é um lugar mágico, é um contínuo.
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