IMIGRAÇÃO

Imigração ganha peso no interior e já sustenta setores-chave da economia portuguesa

Estudo aponta que trabalhadores estrangeiros ajudam a enfrentar a falta de mão de obra e o envelhecimento populacional, mas alerta para a necessidade de políticas de habitação

Maio 7, 2026

Crédito: Wikimedia Commons/Gabriel González from Pontevedra, España.

Portugal vive hoje um desafio duplo: enquanto o interior continua perdendo população, setores essenciais da economia enfrentam dificuldades cada vez maiores para encontrar trabalhadores. É nesse cenário que a imigração tem assumido um papel central no funcionamento do país, especialmente em áreas como agricultura, construção civil, turismo rural e cuidados sociais.

A conclusão faz parte de um estudo desenvolvido pelo Centro de Formação Prepara Portugal, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), da Segurança Social, da Pordata, da Confederação dos Agricultores de Portugal e da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (Aima).

Atualmente, cerca de 495 mil trabalhadores estrangeiros representam 13,4% da força de trabalho em Portugal, segundo o Boletim Econômico do Banco de Portugal, com base em dados da Segurança Social. Na prática, isso significa que aproximadamente um em cada sete trabalhadores no país é estrangeiro.

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“Estes números mostram que a imigração já não é uma tendência, mas uma realidade estrutural do mercado de trabalho português”, afirma Higor Cerqueira, fundador e diretor pedagógico do Prepara Portugal.

A presença de imigrantes é ainda mais significativa em setores marcados pela escassez de mão de obra. Na agricultura, na construção civil e no turismo, os estrangeiros já representam mais de 30% dos trabalhadores, de acordo com dados compilados pela Pordata, ou seja, cerca de um em cada três profissionais.

No setor agrícola, a dependência da mão de obra estrangeira aparece de forma ainda mais evidente. Segundo a Confederação dos Agricultores de Portugal, 83% das empresas consideram esses trabalhadores essenciais para manter suas atividades, o que indica que parte importante da produção agrícola estaria ameaçada sem a imigração.

O impacto também se reflete em municípios do interior. Em Odemira, por exemplo, a população estrangeira já ultrapassa 68%, segundo dados da Aima, revelando o peso das comunidades imigrantes na sustentação das economias locais.

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Para Pedro Stob, formador do Prepara Portugal e coordenador do estudo realizado no âmbito do curso de Análise de Dados e TI Aplicada à Gestão, os efeitos vão além do mercado de trabalho.

“Em média, os imigrantes são nove anos mais jovens do que os trabalhadores portugueses, e isso é fundamental para a sustentabilidade da Segurança Social, representado um saldo positivo superior a 2,9 mil milhões de euros, segundo dados do próprio instituto”, sublinha.

Apesar disso, o estudo alerta que manter essas populações no interior continua sendo um desafio. Segundo os pesquisadores, os imigrantes tendem a permanecer apenas em regiões onde existem condições concretas de integração e qualidade de vida.

“Entre os principais entraves identificados pelo estudo do Centro de Formação Prepara Portugal estão o acesso à habitação a custos controlados, programas de ensino da língua portuguesa, mecanismos mais rápidos de reconhecimento de qualificações e apoio à criação de negócios próprios”, explica Cerqueira.

“A imigração não pode ser vista apenas como resposta à falta de mão de obra. Sem condições de fixação, o interior continuará a perder população”, completa.

O levantamento também aponta a necessidade de políticas públicas voltadas especificamente para a ocupação de regiões menos povoadas, articulando fluxos migratórios às demandas locais de trabalho. A aproximação entre empregadores — como cooperativas agrícolas, IPSS e empresas regionais — e trabalhadores estrangeiros é vista como uma estratégia relevante para estimular o desenvolvimento regional.

Outro ponto destacado pelo estudo é o empreendedorismo imigrante. Os dados indicam que estrangeiros têm forte tendência a abrir pequenos negócios, principalmente nas áreas de comércio local, restauração e serviços, contribuindo para movimentar economias rurais e fortalecer a coesão territorial.

flavio@revistaentrerios.pt

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