ESTUDO

Imigrantes chegam mais qualificados a Portugal, mas ainda enfrentam barreiras para atuar na própria área

Estudo diz que estrangeiros com ensino superior já superam ligeiramente os portugueses em escolaridade, mas dificuldades de inserção profissional impulsionam procura por formação

Abril 24, 2026

Estrangeiros em Portugal superam portugueses em formação universitária, mas seguem distantes de empregos compatíveis com a qualificação. Crédito: José Sena Goulão/Lusa.

Quase um em cada quatro imigrantes que vivem em Portugal tem diploma de ensino superior, índice que já ultrapassa, ainda que por pequena margem, o da população portuguesa. Os dados mais recentes dos Censos do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que 24,24% dos estrangeiros residentes no país possuem formação universitária, frente a 24,09% entre os portugueses.

As informações fazem parte de um estudo desenvolvido pelo centro de formação Prepara Portugal, com base em dados do INE, da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), da Pordata e da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (Aima).

Segundo o levantamento, o perfil da imigração em Portugal mudou nos últimos anos, com crescimento expressivo do número de estrangeiros com maior escolaridade.

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Para Higor Cerqueira, fundador e diretor pedagógico do Prepara Portugal, os dados refletem uma transformação no perfil migratório recente.

“A análise indica que a qualificação da população imigrante tem aumentado ao longo da última década. Entre algumas comunidades estrangeiras, o crescimento da escolaridade é particularmente expressivo. No caso de Angola, por exemplo, a proporção de residentes com ensino superior passou de 7,4% em 2011 para 22,6% em 2021, evidenciando um salto significativo no perfil educacional dos novos fluxos migratórios”, afirma.

Formação alta, empregos abaixo da qualificação

Apesar do elevado nível de escolaridade, muitos estrangeiros acabam inseridos em funções que não exigem diploma universitário. O estudo mostra que setores como de restaurantes e construção civil concentram trabalhadores altamente qualificados em ocupações menos especializadas.

Na restauração, como é chamado o setor de restaurantes em Portugal, 21,24% dos imigrantes empregados possuem ensino superior. Já na construção civil, o percentual é de 19,93%.

Formada em Administração no Brasil, Juliana Ferreira chegou a Portugal há três anos para viver no Porto. Apesar da experiência em gestão e atendimento corporativo, encontrou dificuldades para ingressar na área e hoje trabalha em um café no centro do Porto. Ela afirma que a adaptação ao mercado português e a exigência de fluência em inglês dificultaram o acesso a vagas compatíveis com sua formação.

“Quando cheguei, achei que conseguiria trabalhar rapidamente na minha área. Mas percebi que experiência internacional, validação de currículo e idioma fazem muita diferença. Acabei aceitando outra oportunidade para me manter”, disse à EntreRios.

Esse também é o caso de Rafael Mendes, engenheiro civil formado no Brasil que atua hoje como motorista de entregas. Ele conta que encontrou obstáculos relacionados à validação profissional e à concorrência no setor.

“Tenho formação e anos de experiência, mas entrar no mercado não foi tão simples. Hoje trabalho em outra função, mas continuo tentando retomar a profissão que exerci durante anos”, diz.

População estrangeira cresce e mantém perfil jovem

O estudo também destaca a expansão acelerada da população estrangeira em Portugal. Segundo os dados analisados, o número de residentes imigrantes passou de cerca de 394 mil pessoas em 2011 para aproximadamente 1,54 milhão em 2024.

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De acordo com Pedro Stob, além do crescimento numérico, o perfil dessa população é predominantemente jovem.

“Além do aumento expressivo, a população imigrante apresenta um perfil mais jovem e ativo. 85,5% dos estrangeiros residentes encontram-se em idade ativa, entre os 18 e os 64 anos, enquanto entre os cidadãos portugueses essa proporção é de cerca de 65,5%”, acrescenta.

Segundo Cerqueira, o Prepara Portugal já recebeu, em pouco mais de um ano, 2.502 alunos de mais de 35 nacionalidades.

Inglês surge como diferencial para acesso ao mercado

Com o aumento da diversidade de perfis migratórios, o Prepara Portugal ampliou a oferta de formação e lançou o projeto Prepara Idiomas.

Embora países de língua portuguesa representem cerca de metade da população estrangeira em Portugal — com destaque para brasileiros (31,4%) e angolanos (6,9%), segundo dados de 2024 da Aima — o crescimento de comunidades não lusófonas corroborou a importância do inglês como idioma de integração profissional.

A nova iniciativa inclui um curso livre de inglês com duração de seis meses, com quatro turmas previstas para começar em junho.

Segundo Cerqueira, a falta de domínio do idioma ainda limita o acesso a melhores oportunidades profissionais.

“Nós observamos que muitos estrangeiros chegam a Portugal com qualificações sólidas e experiência relevante, mas acabam por enfrentar barreiras no acesso a melhores oportunidades devido à falta de proficiência em inglês”, avalia.

Cursos de português também entram na estratégia

Além do inglês, o projeto prevê cursos de português voltados a estrangeiros, com foco na integração social e profissional.

Segundo dados do INE, 71,8% da população portuguesa entre 18 e 69 anos afirmava conhecer pelo menos uma língua além da materna em 2025, sendo o inglês o idioma estrangeiro mais falado.

Já levantamento do British Council aponta que apenas 5% da população brasileira fala inglês. Em Angola, esse índice não chega a 1%, conforme o ranking EF English Proficiency Index.

A nova oferta educacional foi apresentada em uma aula aberta gratuita, no Porto, e a próxima acontecerá no dia 9 de maio, dessa vez em Lisboa.

flavio@revistaentrerios.pt

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