Imigrantes trabalham em Portugal, mas portugueses recebem mais subsídios, aponta Banco de Portugal
Dados do boletim econômico de março de 2026 mostram que presença de imigrantes na Segurança Social aumentou 644,73% nos últimos 15 anos
- Lisboa
Março 27, 2026
O Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, afirmou, nessa quarta-feira (25), em apresentação do boletim econômico de março de 2026, que “os trabalhadores estrangeiros estão em Portugal para trabalhar e estão a fazer trabalho em várias atividades, independentemente da nacionalidade”. Segundo ele, em 90% dos seus tempos de permanência “estão a fazer isso”.
Ele afirmou que “talvez valha a pena ter uma política ativa de imigração, tentar identificar os setores em que há mais necessidades e tentar atrair pessoas nesses setores. Também é importante, como noutros países, tentar atrair mais imigrantes com licenciatura, mestrado, doutoramento“, afirmou.
O boletim econômico do Banco de Portugal apontou que, entre 2010 e 2024, foram registrados 1,4 milhões de entradas de imigrantes no país, sendo 1,2 milhões desde 2018.
Em 2025, cerca de 1,13 milhões de estrangeiros estavam registrados na Segurança Social, sendo 66,25% trabalhadores por conta de outrem. Em 2010, eram apenas 152 mil estrangeiros, o que representa um aumento de 644,73% em 15 anos. Os dados mostram que houve um aumento significativo especialmente a partir de 2022.
Entre 2010 e 2024, 38% dos imigrantes que chegaram a Portugal são brasileiros, seguido pelos países do Sul da Ásia (Índia, Bangladesh, Nepal e Paquistão), com 19% e dos países africanos de língua portuguesa (PALOP), com 14%, empatados com os cidadãos britânicos e da União Europeia, com 14%. A chegada de brasileiros teve um grande crescimento, passando das 100 mil, em 2022 e 2023, mas apresentando uma queda em 2024.
Já entre os setores de atividade, cerca de 20% dos trabalhadores ingressaram em empresas das atividades administrativas e dos serviços de apoio, 18% no alojamento e restauração, 15% na agricultura e pesca e 14% na construção. O comércio representou 10% e a indústria 7%.
O estudo ainda realizou uma comparação entre os cidadãos nacionais e os imigrantes e verificou que os portugueses utilizam mais os subsídios da Segurança Social do que os imigrantes. “Há menos prestações sociais e menos pensões do que acontece com os nacionais”, afirmou Pereira.
Na relação entre os indivíduos entre 29 e 46 anos, cerca de 4% dos portugueses possuem subsídio desemprego, 1,6% possuem outros benefícios e 1,4% são pensionistas, totalizando 7% de beneficiários. Entre os estrangeiros, 3,6% possuem o subsídio desemprego, 0,7% têm outras prestações e 0,2% são pensionistas, totalizando 4,5%.
Segundo o boletim, “o subsídio de desemprego representou cerca de 1,7% do tempo de permanência, enquanto as outras prestações sociais corresponderam a 0,9%” e que “a fração do tempo em que receberam pensões é residual, refletindo o facto de serem maioritariamente jovens e com entrada recente no país”.
“Os imigrantes praticamente não recebem pensões e recebem muito pouco subsídio de desemprego. Para todos os efeitos estão a trabalhar e, portanto, também não precisam do subsídio”, destacou Pereira.
O Banco de Portugal ainda fez uma análise dos imigrantes que contribuem com a Segurança Social e indicou que cerca de 22% dos estrangeiros têm permanência inferior a um ano e que 39% contribuem por até três anos.
Estima-se que cerca de metade permaneça até 70 meses (quase seis anos), enquanto cerca de 40% permanece nos registros da Segurança Social ao fim de dez anos. Os estrangeiros passam mais de 90% do seu tempo em Portugal como trabalhadores por conta de outrem ou como trabalhadores independentes.
Segundo o documento, a perspectiva de emprego é o que determina o grau de permanência dos imigrantes em Portugal, o que justifica as longas permanências no sistema da Segurança Social. “Estrangeiros que recebem o subsídio desemprego têm um risco 55% superior de sair dos registros da Segurança Social, presumivelmente em busca de melhores oportunidades em outros destinos”, destaca o documento.
Há ainda o fator da criação de laços parentais que diminui o risco de saída em 68%. “A presença de famílias é fundamental para aumentar a retenção dos trabalhadores estrangeiros”, ressalta o boletim.
“Globalmente, os resultados sugerem que Portugal ainda está longe dos países com maior grau de permanência dos trabalhadores estrangeiros. Políticas que favoreçam vínculos laborais estáveis, melhores condições remuneratórias e enquadramentos institucionais que apoiem a parentalidade poderão contribuir para aumentar esta retenção”, finaliza o documento.
Confira o estudo completo do Banco de Portugal aqui.
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