Quebrando barreiras

Iniciativa liderada por mulheres dá novo contexto a motel em Portugal; entenda

Durante décadas, os motéis carregaram estigmas. Em Portugal, porém, uma iniciativa liderada por mulheres está ajudando a mudar essa narrativa.

Junho 18, 2026

Andreia Lima no Motel Lux. Créditos: Dai Moraes
Andreia Lima no Motel Lux. Créditos: Dai Moraes

Durante décadas, os motéis carregaram estigmas. Associados ao segredo, ao preconceito e, muitas vezes, a uma visão masculina da sexualidade, esses espaços raramente eram vistos como ambientes de acolhimento, inspiração ou empoderamento feminino.

Em Portugal, porém, uma iniciativa liderada por mulheres está ajudando a mudar essa narrativa. A união entre uma fotógrafa especializada em retratar a essência feminina e um motel administrado integralmente por mulheres deu origem a uma proposta que vai muito além da fotografia. O objetivo é transformar o espaço em um ambiente de expressão, autoconhecimento, eventos e experiências voltadas ao universo feminino.

A ideia nasceu da inquietação da fotógrafa brasileira Dai Moraes, que há anos trabalha com sessões boudoir — um estilo fotográfico que busca valorizar a autoestima, a sensualidade e a identidade das mulheres de forma elegante e respeitosa. “Quando cheguei a Portugal, percebi que existia um grande tabu tanto em relação às sessões boudoir quanto aos próprios motéis”, conta.

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No Brasil, ela estava habituada a realizar ensaios em diferentes tipos de locações, incluindo motéis. Em Portugal, no entanto, encontrou resistência cultural. A associação imediata desses espaços à objetificação feminina fazia com que muitas mulheres sequer considerassem essa possibilidade.

A mudança aconteceu quando encontrou um motel cuja proposta era completamente diferente da imagem tradicional. Administrado por mulheres e com uma filosofia voltada para o acolhimento e a elegância, o espaço chamou a atenção da fotógrafa pela arquitetura, pela luz natural presente nos ambientes e, principalmente, pelo alinhamento de valores.

“Não era um lugar pensado para objetificar a mulher. Pelo contrário. Havia uma preocupação genuína em criar um ambiente confortável, bonito e respeitoso”, explica.

Andreia Lima no Motel Lux. Créditos: Dai Moraes
Andreia Lima no Motel Lux. Créditos: Dai Moraes

Quebrando dois tabus ao mesmo tempo

A parceria surgiu de forma natural. De um lado, uma profissional empenhada em desconstruir preconceitos sobre a fotografia sensual feminina. Do outro, um empreendimento disposto a mostrar que um motel também pode ser um espaço de experiências positivas, eventos e iniciativas voltadas ao bem-estar.

A proposta vai além das sessões fotográficas. Os planos incluem ações culturais, encontros e experiências capazes de aproximar mulheres de um ambiente historicamente cercado por julgamentos. “Estamos quebrando duas barreiras ao mesmo tempo: o tabu da fotografia boudoir e o tabu do motel”, afirma Dai.

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A iniciativa reflete uma tendência crescente de ressignificação dos espaços. Em vez de reproduzir conceitos ultrapassados, o objetivo é criar ambientes onde as mulheres possam se sentir seguras, livres e representadas.

Andreia Lima no Motel Lux. Créditos: Dai Moraes
Andreia Lima no Motel Lux. Créditos: Dai Moraes

Quando a fotografia se torna reencontro

Entre as mulheres que participam das sessões está uma cliente cuja história simboliza o verdadeiro propósito do projeto. Ela chegou ao ensaio em um momento delicado da vida. Após enfrentar desafios pessoais e um período de afastamento da própria identidade, buscava algo que fosse além de uma simples sessão de fotos. “Estou à procura da minha luz novamente”, resume.

Portadora de uma ostomia, ela conta que nunca teve dificuldades em aceitar sua condição física. A luta, no entanto, acontecia em outro lugar: dentro de si mesma. Segundo ela, as exigências da rotina, os relacionamentos e as responsabilidades acabaram apagando parte da mulher que costumava enxergar no espelho. “Às vezes damos tanto aos outros que nos esquecemos de nós. Perdemos o nosso brilho e deixamos de reconhecer o nosso valor.”

Foi justamente por isso que decidiu participar da experiência. Durante a sessão, entre conversas, orientações e fotografias, começou um processo de reconexão. “Quero voltar a ver a mulher que eu via antigamente. Saber que ela ainda está aqui.” Mais do que produzir imagens, o ensaio tornou-se um exercício de memória emocional. Uma forma de registrar que a força, a confiança e a luz continuam existindo, mesmo quando parecem escondidas sob as dificuldades da vida.

Um novo olhar sobre feminilidade

Tanto para a fotógrafa quanto para as participantes, o objetivo nunca foi criar um padrão de beleza. As sessões são construídas a partir da personalidade, das histórias e dos limites de cada mulher. Não existe imposição. Existe escuta. Existe acolhimento. Existe a oportunidade de enxergar qualidades que muitas vezes ficam invisíveis no dia a dia.

A própria cliente define o resultado que busca como o retrato de uma mulher “sensual, mas não vulgar; confiante, mas autêntica”. Uma mulher que não precisa corresponder às expectativas de ninguém além de si mesma.

Andreia Lima no Motel Lux. Créditos: Dai Moraes
Andreia Lima no Motel Lux. Créditos: Dai Moraes

O poder feminino de transformar espaços

Talvez o aspecto mais simbólico dessa iniciativa esteja justamente na capacidade de transformar significados. Um motel deixa de representar preconceitos e passa a acolher histórias de superação. A fotografia deixa de ser apenas imagem e torna-se ferramenta de autoconhecimento. E mulheres deixam de ocupar o papel de objeto para assumirem o protagonismo das próprias narrativas.

Em uma época em que saúde mental, autoestima e pertencimento ganham cada vez mais relevância, projetos como esse mostram que os espaços podem ser reinventados e que a transformação começa, muitas vezes, quando uma mulher encontra coragem para se olhar novamente. E reconhecer, naquela fotografia, a pessoa que nunca deixou de existir.

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