Itamar Musse: arte sacra, contemporânea e baiana no coração de Lisboa
O marchand junta legado libanês com tradição, fé e a “alma” de Salvador em sua galeria
- Lisboa
Abril 14, 2026
De um libanês que aportou de navio na Bahia nasceu uma das famílias mais tradicionais do mercado de arte brasileira. Itamar Musse, 58 anos, mantém viva a herança centenária em peças sacras, como santos barrocos, e obras contemporâneas. As vitrines luminosas de seu ateliê na Avenida da Liberdade, em Lisboa, são janelas para o Brasil.
Entre móveis policromados, pratarias raras e até obra de Adriana Varejão, o marchand comanda o espaço como quem rege uma orquestra. Nada ocupa um lugar por acaso, e cada peça “precisa conversar com a outra”. O sobrenome Musse carrega mais de 120 anos de história dedicada à arte, memória e beleza. A saga da família começou em 1918, quando libanês David Musse deixou Beirute rumo ao Rio de Janeiro.

O destino mudou os planos: David passou mal no navio e desembarcou em Salvador. Acabou ficando. Fascinado pela cultura brasileira, trocou o emprego de comprador de ouro do Banco do Brasil pelo comércio de arte e antiguidades. Vindo de uma terra milenar, achou curioso que, no Brasil, peças de 200 anos já fossem consideradas antigas. David Musse chegou a ser chamado de “Rei David, o rei dos antiquários”, frequentado por celebridades como Jorge Amado, Roberto Marinho e grandes artistas e empresários da época, segundo conta o neto.

Itamar Musse, formado em museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), assumiu o legado familiar com a elegância de quem compreende e preserva a própria história. Desde 1998, seu antiquário no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, ocupa dois prédios, nos quais “as peças respiram”. Recebe colecionadores, pesquisadores e curiosos para verem arte, do barroco à contemporaneidade. Mas a expansão mesmo foi em Lisboa. “Portugal parecia improvável. Eu queria a loja na Avenida da Liberdade, onde parece impossível achar um imóvel. Porém, certo dia, passando pela calçada, vi uma placa de ‘aluga-se’. Era o destino de novo”. A loja, que também funciona com horários marcados, como a de Salvador, é uma embaixada da arte brasileira, de peças sacras setecentistas a obras contemporâneas.
No centro do espaço, uma escultura de Adriana Varejão, inspirada nas “figuras de convite” (que surgiram no contexto barroco e refletem a ênfase ritual e cenográfica da época, sendo uma expressão original da azulejaria portuguesa) e dá boas-vindas aos visitantes: “Ela representa esse diálogo entre os dois mundos, um aprendendo com o outro”. Todos os artigos têm valores revelados sob consulta. O marchand enxerga na arte sacra um elo poderoso entre os países: “Os portugueses trouxeram os cânones, mas no Brasil eles se misturaram à nossa cultura com novas luzes, calor e sensualidade. Essa fusão criou algo único. É isso que a gente mostra”.

Entre as histórias marcantes da trajetória de Musse está o projeto Florindas, que nasceu de um incômodo e virou livro: “Eu sempre via fotografias antigas de mulheres negras baianas, belamente vestidas e cheias de jóias, mas elas nunca tinham nome. Eram apenas ‘escravas baiana’, ‘crioula baiana’. Aquilo me frustrava profundamente”. Durante 30 anos, Musse reuniu imagens e peças até encontrar uma fotografia que mudaria tudo: uma mulher chamada Florinda, usando as jóias de sua coleção. A partir dela, o marchand reconstruiu uma história de resistência feminina: “Descobrimos uma narrativa de superação e dignidade. Demos nome e história que haviam sido apagados”.
Não é apenas com arte que a galeria se destaca. Em Salvador, ele e sua esposa, Vanessa, são anfitriões de uma das festas mais badaladas do calendário baiano: o 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, celebrado na cobertura de seu espaço no Rio Vermelho, de frente para o mar. “O que começou com poucos amigos virou um evento valorizado. É uma energia poderosa”, diz. A festa, que hoje figura no calendário cultural da cidade, atrai colecionadores, artistas e amigos: “É uma celebração de fé e gratidão. A Bahia tem a magia que transforma as pessoas. A arte e a fé têm isso em comum: ambas nos conectam ao invisível”, afirma.
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Quando não está garimpando obras, Musse se dedica à gastronomia: “Arte é o hobby. Mas logo depois vem a comida”. No paladar convivem azeite de dendê, vinho verde e cachaça: “Trouxe até farinha fina na mala para me sentir mais em casa e dividir com amigos”. A casa baiana, curiosamente, é um espelho da dualidade entre o antigo e o moderno: “É contemporânea, feita de vidro, pedra e concreto. Mas, por dentro, é cheia de antiguidades”.
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O sobrenome Musse continua atravessando gerações. O filho, também Itamar, 24 anos, segue os passos do pai: “Tive sorte porque ele é nosso único filho e gosta de arte. Desde pequeno se encantava com peças antigas. Vê-lo continuar esse legado é a maior alegria que eu poderia ter”. A história levando consigo o espírito do tempo, o olhar apurado e a generosidade de quem acredita que arte é, antes de tudo, uma forma de fé. “Acho que o destino sempre apontou o caminho. O nosso trabalho é só continuar ouvindo o que ele tem a dizer”, ensina Itamar Musse.
jordan@revistaentrerios.pt
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