Economia

Juros caem nos Estados Unidos: veja como isso afeta seus investimentos no Brasil e em Portugal

Especialistas analisam os melhores tipos de investimentos após o corte juros americanos em 0,25 ponto percentual

Outubro 30, 2025

Queda da taxa de juros diminui o preço do dólar e torna os investimentos europeus mais atrativos. Crédito: Freepik

O Banco Central dos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), baixou, nessa quarta-feira (29), a taxa de juros do país em 0,25 ponto percentual, passando de 4% para 3,75%.

Essa é a segunda queda consecutiva dos juros americanos que, no mês de setembro, passaram 4,25% para 4% após um período de nove meses sem reduções.

A decisão do corte de juros veio de acordo com a expectativa do mercado mesmo com o shutdown, a paralisação parcial do Governo Federal, que trouxe escassez de dados sobre o cenário econômico americano.

Nos Estados Unidos, a queda da taxa de juros pode tornar o ambiente do mercado de trabalho e das empresas mais favorável e sinaliza um aumento do controle da política monetária, mas pode pressionar a inflação com um crédito mais acessível.

A redução também possui efeitos em todo o mundo, uma vez que o dólar possui grande relevância no mercado internacional. Mas de que forma isso afeta os brasileiros que vivem em Portugal e no Brasil? E que tipo de investimentos podem se tornar mais atrativos nessas condições?

Investimentos em Portugal ganham atratividade

Óscar Afonso, diretor e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, destaca que a queda da taxa de juros pode trazer mais atratividade para os mercados europeus, uma vez que pode haver redução nos investimentos feitos na moeda norte-americana.

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Porém, de acordo com o especialista, é preciso enxergar o contexto cautela.

“Há um risco associado à maior volatilidade cambial e à reavaliação dos fluxos de capitais internacionais, o que exige prudência e uma gestão ativa dos portfólios”, afirma.

Setores europeus e portugueses em destaque

Natalie Verndl, economista e Delegada do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), destaca a possibilidade do aumento do poder de compra dos europeus, já que a queda do dólar reduz custos de importações em termos de energia, alimentos e outros produtos. Ela também ressalta que alguns setores da economia portuguesa, como os títulos públicos, podem se beneficiar diretamente.

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Segundo ela, “esse ambiente pode favorecer companhias com atuação internacional, como as de setores de turismo, energia e infraestrutura. Pode haver ainda um impacto indireto no mercado imobiliário português, já que as taxas são definidas pelo Euribor, e não pelo Fed. Com um dólar menor, aumenta a percepção de liquidez, o que reduz a pressão sobre crédito por parte do Banco Central Europeu”, analisa.

Afonso reitera e destaca que ativos de maior risco relativo se tornam mais atrativos que os de menor risco, como os títulos públicos, que passam a oferecer rentabilidades menores.

“Podem ser mais apelativos investimentos como ações e fundos de investimentos em ações, sobretudo de setores cíclicos ou de crescimento (como tecnologia, energia verde e consumo discricionário), que tendem a se beneficiar de condições monetárias e mais expansionistas. Também podem ser atrativos obrigações corporativas e obrigações de mercados emergentes, ativos e fundos imobiliários e investimentos alternativos, como matérias-primas e ouro”, avalia.

Já Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, frisa que a procura por papéis de crescimento ou de duration longa como tecnologia, small caps (empresas com menor capitalização e rentabilidade nas Bolsas) e crédito de maior maturidade tende a aumentar entre ativos fora do Brasil, já que as taxas mais baixas diminuem o desconto aplicado aos fluxos de caixa futuros.

Reflexos no Brasil e oportunidades no mercado local

No Brasil, Lima avalia que juros mais baixos podem favorecer um câmbio menos volátil, o que alivia custos para empresas exportadoras e para operações com dívida em dólares.

“Isso abre espaço para que o Banco Central do Brasil tenha mais liberdade para manter ou reduzir a Selic, o que melhora o ambiente para projetos de investimento que dependem de financiamento. Contudo, cabe cautela: se o corte for interpretado como sinal de fraqueza econômica nos EUA, os riscos de volta de aversão ao risco podem emergir”, diz.

A representante do Corecon-SP destaca que, para quem investe no Brasil, o movimento pode gerar boas oportunidades para o mercado de renda variável, com especial foco em ações voltadas ao consumo interno, como construção civil e educação.

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Esses setores tendem a se beneficiar de melhores condições de crédito e de um aumento na confiança do mercado, além do impulso aos fundos multimercados e cambiais. Investimentos com captação externa, como as debêntures de infraestrutura, também ganham vantagem com a redução do custo de financiamento internacional.

Valorização do real e controle da inflação

Natalie explica que a decisão mais branda do Fed reduz a volatilidade global, melhora o apetite ao risco e atrai capital para novos investimentos, impulsionando a bolsa. Juros mais baixos também tendem a valorizar o real — “o que ajuda a conter a inflação, especialmente de insumos importados, como combustíveis, trigo e componentes industriais” — e podem criar um ambiente mais favorável à política monetária.

Para ela, o cenário pode ser particularmente interessante para os brasileiros que vivem em Portugal e que podem se aproveitar da atratividade de títulos europeus e também da tendência positiva do mercado brasileiro.

“Com o corte dos juros americanos, tanto os investimentos no Brasil quanto em Portugal sinalizam para um ambiente mais favorável, visando o crescimento econômico e a atração de capital para investimentos produtivos”, finaliza.

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