Há filmes que contam uma história. Outros contam a nossa. Foi essa a sensação que ficou na sala, em Lisboa, depois da sessão especial de Livros restantes, longa-metragem que conquistou o público brasileiro e estreia em setembro nos cinemas portugueses. Ao lado da diretora Marcia Paraiso, da protagonista Denise Fraga e da equipa do filme, a conversa que se seguiu à exibição foi muito mais do que uma entrevista: foi um encontro sobre memória, identidade, literatura e aquilo que permanece quando tudo parece mudar.
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O ponto de partida da história é simples e delicado. Ana Catarina, professora de literatura, decide se mudar para Portugal depois dos 50 anos. Antes da viagem, doa quase todos os livros da sua biblioteca. Restam apenas cinco volumes, todos com dedicatórias especiais. Para conseguir partir, ela decide devolver cada livro à pessoa que um dia o ofereceu.
O que parece um gesto prático transforma-se numa travessia emocional. Cada reencontro revela uma versão diferente da mulher que ela foi. Cada livro devolvido abre uma porta que permanecia fechada há décadas.
Quando a ficção nasce da vida
Marcia Paraiso conta que tudo começou muito antes de existir um roteiro. Nasceu da própria experiência de carregar livros em sucessivas mudanças de casa.
“Os livros eram muito mais do que objetos. Eram marcadores da minha memória”.
Ela recorda que, durante anos, transportou caixas de livros entre diferentes cidades. Alguns se perderam, outros estragaram, mas todos guardavam momentos específicos da sua vida. Até que uma noite sonhou que devolvia aqueles livros às pessoas que lhos tinham oferecido. Ao acordar, percebeu que tinha encontrado a premissa do filme.
Mais do que um objeto, os livros se tornaram personagens silenciosos de uma narrativa sobre aquilo que escolhemos guardar e sobre aquilo que finalmente conseguimos deixar partir.
Quando Marcia decidiu convidar Denise Fraga para protagonizar o filme, nem sequer a conhecia pessoalmente. Conseguiu o contato através do cabeleireiro da atriz e enviou o roteiro.
Naquele momento, Denise estava em Portugal, filmando outro longa-metragem. Recebeu o roteiro sobre uma mulher brasileira que decide reconstruir a vida justamente se mudando para Portugal.
“Parecia que o roteiro estava conversando comigo”, recorda a atriz.
Segundo Denise, os personagens escritos por Marcia “saltam das páginas como gente de verdade”. Talvez porque a realizadora tenha passado décadas fazendo documentários, ouvindo pessoas comuns, histórias anónimas. Essa escuta se tornou o grande diferencial da sua ficção.
Embora trate de temas como envelhecimento, migração, violência, relações familiares, preconceito, pertencimento e recomeços, Livros restantes nunca procura transformar a dor em espetáculo. Marcia prefere se aproximar do silêncio, daquilo que permanece guardado durante anos. Uma das sequências mais marcantes aborda o abuso sexual infantil vivido pela protagonista.
Sem excessos dramáticos, a cena se tornou uma das mais difíceis de filmar e, ao mesmo tempo, uma das mais impactantes para o público brasileiro. Segundo a realizadora, inúmeras mulheres escreveram pra ela depois das sessões contando que se sentiram finalmente representadas. Muitas disseram nunca ter conseguido falar sobre aquilo que viveram. O filme falou por elas.
“As rugas precisam servir para alguma coisa”
A conversa com Denise Fraga rapidamente ultrapassa o cinema. Falar de Ana Catarina é também falar da mulher contemporânea. Daquela que chega aos 50 anos ouvindo que já passou o tempo de sonhar. Para Denise, essa ideia precisa ser urgentemente abandonada: “As rugas têm de servir para alguma coisa”.
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Ela fala sobre maturidade sem romantizar o envelhecimento. Reconhece que o corpo muda, que há dores e desafios, mas acredita que existe uma liberdade que só o tempo oferece. Uma liberdade para finalmente perguntar: Quem sou eu agora? E, sobretudo: Quem ainda quero ser?
Um sucesso construído pela identificação
No Brasil, Livros restantes permaneceu treze semanas consecutivas em cartaz, um feito raro no cinema nacional. Depois chegou às plataformas de streaming, onde continuou conquistando espectadores. Mas o que mais surpreendeu Denise Fraga foi outra coisa. Pessoas passaram a parar para falar com ela na rua sobre o filme. Não dos grandes sucessos da sua carreira. Nem de personagens clássicas. Falavam de Ana Catarina. Falavam de como o filme tinha dado coragem para telefonar para alguém, reencontrar uma antiga amizade, abrir um livro esquecido ou simplesmente repensar a própria vida.
Como resumiu um espectador português durante uma sessão em Coimbra: “Este filme esticou a minha vida”.
Talvez não exista elogio maior para uma obra sobre literatura.
Um cinema feito por mulheres
Também nos bastidores, Livros restantes carrega um posicionamento claro. Marcia Paraiso reuniu uma equipe maioritariamente feminina nas principais chefias técnicas: direção de fotografia, direção de arte, produção, montagem e som. Mais do que uma decisão estética, foi uma escolha política.
A realizadora acredita que criar espaços onde mulheres possam liderar significa ampliar olhares, sensibilidades e formas diferentes de construir imagens. Sem precisar provar, o tempo inteiro, que sabem o que fazem.
Entre Brasil e Portugal, uma mesma língua, muitas memórias
Não por acaso, Portugal ocupa um lugar central nesta história. Não apenas como destino da protagonista. Mas como espaço de continuidade. Durante a conversa em Lisboa, Denise Fraga falou da ligação afetiva que sempre manteve com o país, herdada dos avós portugueses e fortalecida pelos trabalhos recentes realizados no país. Para ela, Brasil e Portugal vivem hoje um momento especial de aproximação cultural. “Somos uma grande pátria da língua portuguesa”.
Talvez seja justamente essa língua comum que faça Livros restantes atravessar o Atlântico com tanta naturalidade. Porque, apesar das geografias diferentes, saudade, memória, família, despedidas e recomeços continuam falando o mesmo idioma.
Um convite para viver
No final da entrevista, pedimos a Denise Fraga que resumisse o filme numa única frase. Ela sorriu antes de responder: “É um filme que dá vontade de viver”.
Talvez seja essa a melhor definição. Porque Livros restantes não é apenas sobre livros. É sobre as pessoas que fomos. Sobre aquelas que ainda habitam dentro de nós. E sobre a coragem rara, difícil e profundamente humana de perceber que nunca é tarde para abrir uma nova página.