Cultura

Lu Araújo e o MiMo Festival: música, patrimônio e revolução cultural

A criadora fala sobre os bastidores, desafios e conquistas de um evento gratuito que transformou paisagens históricas em palcos de arte no Brasil, Portugal e agora rumo à França

Julho 16, 2025

Apaixonada por música Lu Araújo, desde sempre, ouvia Leny Andrade, Elsa Soares, Vinícius de Moraes, Chico Buarque e Beto Guedes. Crédito: André Henriques

Criadora de um dos festivais mais respeitados do circuito musical, a paulista — de coração e sotaque carioca — Lu Araújo é a mente e a alma por trás do MIMO Festival.

Um evento que vai além da música e se firma como plataforma de cultura, educação e valorização do patrimônio histórico. De origem brasileira, o MIMO nasceu em Olinda, Pernambuco, com a proposta ousada de descentralizar o acesso à música, promovendo encontros entre artistas consagrados e novos talentos em cenários históricos, como igrejas, praças e teatros. E o melhor: gratuito. 

Nesta entrevista, Lu compartilha bastidores, escolhas e emoções que marcaram a trajetória do MIMO, desde os desafios de montar um festival gratuito e internacional no Brasil até a expansão para Portugal, onde encontrou em Amarante um solo fértil para semear arte e renovar tradições.

Com humor, sinceridade e paixão, ela reflete sobre curadoria, legado e a conexão  que tem com a música e com os lugares por onde o festival está.

O MIMO já passou por diversas cidades brasileiras, como Recife, João Pessoa, Ouro Preto, Paraty, Tiradentes, Rio de Janeiro, São Paulo, Itabira, Serra e São Francisco do Sul. Em 2016, chegou em Amarante, Portugal e no ano seguinte, ao Reino Unido, levando sua programação a Glasgow, na Escócia.

Agora, em 2025, o festival dará mais um passo ao se tornar parceiro do renomado Jazz in Marciac, um dos mais prestigiados festivais de jazz do mundo, como parte da Temporada Cruzada Brasil-França / Saison Croisée France-Brésil 2025.

Uma entrevista que é, ao mesmo tempo, um mergulho no universo criativo de uma produtora cultural e uma celebração do poder transformador da arte.

Lu Araújo tem uma relação longa com a música pois o pai era dono de loja de discos. Crédito: André Henriques

Por que Amarante?

Por que não Amarante? (risos) Não é muito a cara do MIMO também ser centralizado. O MIMO é um festival meio diferente. Às vezes, acho que fiz tudo da maneira mais “complicada” (risos), porque comecei um festival totalmente descentralizado. Quando quis criar o MIMO, resolvi fazer isso em Pernambuco, em Olinda. Então, acho que me acostumei a fazer as coisas pelo lado mais complexo.

O MIMO então já nasce com esse DNA.                                              

Exato! Eu montei um festival gratuito, internacional, numa região que não recebia atrações de fora. Recife sempre foi um grande polo cultural, mas muito vinculado às questões brasileiras. E em Portugal, acho que trilhei um caminho parecido com o do Brasil: escolhi Olinda em vez de Recife.

Um percurso desafiador, né?                                                                        

Sim porque tive uma trajetória na contramão dos projetos que se estabelecem nos grandes centros urbanos, que depois se espalham para regiões menores. Talvez isso também tenha me impulsionado em Portugal.

Qual é a característica do festival?                                                                  

O MIMO tem três pilares: a música de excelência, a utilização do patrimônio histórico como base para as realizações — juntando o componente do passado com a arte da atualidade — e o pilar da educação, que é uma parte silenciosa do festival, mas muito importante.

Acho que o festival cresceu, conquistou um público e deixou um legado importante para várias gerações. É muito prazeroso — fico até emocionada — quando um artista como Amaro Freitas (que ganhou o prêmio MIMO Instrumental), hoje em plena ascensão, me conta o que o MIMO provocou na vida dele. E há tantos outros depoimentos de músicos, já consagrados, que hoje estão no mercado.

A bucólica Amarante fica há 300 km de Lisboa e 60 km do Porto. Crédito: Diogo Marinho

E como surgiu Amarante?

Na verdade, não pensei em fazer em Amarante. Eu queria fazer no Porto. Em 2014, fui pela primeira vez ao Porto, achei incrível e decidi investir lá. Quando estava nesse processo de internacionalização, nas primeiras conversas, uma conhecida me falou sobre uma cidadezinha na Rota do Ouro, muito charmosa, que poderia ter interesse em conversar — além de ter uma relação religiosa com o Brasil.

E como foi a chegada em Amarante?

Lembro bem… Cheguei num dia de sol.  Estava frio, mas com sol. Desci numa rotunda que dá direto no Parque Ribeirinho e quando cheguei ali e olhei o rio, tive uma sensação parecida com a que tenho quando ando em Copacabana quando saio de Ipanema e vejo a baía inteira, o mar brilhando como se tivesse 30 milhões de potes de purpurina. O rio estava assim… brilhante. E aquilo me capturou.

O MIMO é um legado também para a cidade, né?                                

Com certeza! Amarante teve seu auge nos anos 80 e 90, com boates famosas, docerias conhecidas… Depois entrou num processo de decadência. E eu cheguei num momento em que começava uma revitalização. Foi estranho, porque eu não tinha certeza de nada. Quase dez anos depois, olho para o que a cidade se transformou e tenho plena certeza de que o MIMO foi importante nesse processo.

Acho que o festival contribuiu, já nos dois primeiros anos, para Amarante receber um importante reconhecimento da UNESCO como patrimônio criativo da humanidade.

“Amarante é considerada cidade criativa da música pelos festivais, pela tradição musical e pela viola amarantina, que é algo único de lá. Uma viola diferente, mais tenor.”, orgulha-se Lu Araújo que mora entre o Rio de Janeiro e o Porto.

Em 2024, o MIMO Amarante reuniu 70 mil pessoas. Crédito: Divulgação

Com tantos anos de festival, como você faz a curadoria do cartaz?

Com o frio na barriga que sinto toda vez que fecho uma programação. Porque é preciso combinar diversos gêneros, texturas musicais, e fazer com que tudo faça sentido para o público. Talvez isso tenha sido o que mais aprendi ao longo do tempo: como combinar música antiga com eletrônica, jazz, música africana… Aí entra o feeling e o estudo, porque passo horas ouvindo, pesquisando e sempre fui apaixonada por música.

O que você ouve fora do trabalho? O que toca no seu Spotify?    

Tenho pouco tempo para ouvir música fora das pesquisas. Mas, quando escolho, sou bem clássica. Há artistas que, para mim, são fundamentais  como Nana Caymmi, que ouço desde menina, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti… Gosto também do Elomar, aquele cantador baiano.

Mas o que você ouviu no último ano?                                                            

Neste momento, por exemplo, estou bem apaixonada pelo trabalho da Juliana Linhares. Acho ela excelente tanto em disco quanto no palco. A Jéssica Gaspar também. Entre os internacionais, adoro Sandra Jobarteh ela é maravilhosa. E sou fã do Christian Scott. Tenho ouvido muito Delgrès, uma banda francesa que estou trazendo para o Brasil agora, e adoro o Benjamin Clementine.

Você trabalhou com muitos músicos antes de começar o festival. Tive a honra de trabalhar com artistas que eu amava. Tanta admiração que às vezes era difícil até ser empresária deles. Trabalhei com João Nogueira, que amo até hoje. Trabalhei com Elza Soares, com Zeca Baleiro no início da carreira, com Chico César, Rita Benneditto… Trabalhei muito com música instrumental, por isso sou muito ligada ao ouvido também.

Cartaz do MiMo Amarante 2025. Crédito: Divulgação
jordan@revistaentrerios.pt