Análise política

Lula em Portugal: o que está em jogo para os imigrantes brasileiros

A passagem do chefe de Estado brasileiro deve incluir discussões sobre cooperação econômica, mas também coloca em evidência temas como discriminação e o combate à xenofobia

Abril 20, 2026

Lula em Portugal: o que está em jogo para os imigrantes brasileiros. Crédito: Reprodução Instagram
Lula em Portugal: o que está em jogo para os imigrantes brasileiros. Crédito: Reprodução Instagram

A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Portugal, marcada para esta terça-feira (21), acontece num momento em que o debate sobre imigração, xenofobia e racismo ganha força no país europeu. Antes de chegar a Lisboa, Lula passou por Espanha e Alemanha e terá uma agenda dividida entre encontros com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o recém-empossado presidente António José Seguro.

A passagem do chefe de Estado brasileiro deve incluir discussões sobre cooperação econômica, aeronáutica, ciência, tecnologia e inovação, mas também coloca em evidência temas sensíveis para a comunidade imigrante, como imigração, discriminação e o combate à xenofobia.

Para o cientista político David Pimenta, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a visita ocorre num contexto diretamente ligado à realidade da comunidade brasileira no país, a segunda maior fora do Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos.

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“O aumento da população também coincidiu com um aumento no número de crimes de ódio, de xenofobia e de racismo por aqui, que é algo que tem gerado preocupações”, destaca à EntreRios.

Carta aberta a Lula

Nos dias que antecedem a visita, a Casa do Brasil em Lisboa enviou uma carta à Embaixada do Brasil em Portugal, que será encaminhada a Lula, alertando para o aumento de crimes de ódio e de xenofobia no país europeu. O documento reforça preocupações da comunidade brasileira sobre o agravamento do clima de intolerância.

A visita acontece também num momento politicamente sensível, após a aprovação da Lei da Nacionalidade, que endurece as regras para a concessão da cidadania portuguesa e afeta diretamente milhares de brasileiros residentes no país. O projeto ainda aguarda decisão final do presidente António José Seguro, que poderá sancioná-lo ou remetê-lo ao Tribunal Constitucional até ao final de abril.

Durante a agenda oficial, Lula deverá reunir-se com António José Seguro, do Partido Socialista, que se opôs à proposta no Parlamento, e também com Luís Montenegro, do PSD, partido que liderou a aprovação da lei em articulação com o Chega, de extrema-direita.

“Isso coloca duas lógicas em oposição. Em um lado temos o governo português que tem uma postura de maior controle da imigração, muito em linha com o que está passando com vários países europeus que inclusive pressionaram Portugal a adotar mais restrições; e do outro lado o interesse do Brasil que quer aumentar a mobilidade dos seus cidadãos”, analisa.

Segundo o especialista, a intensificação dos fluxos migratórios e a maior presença de estrangeiros em Portugal coincidiram com o fortalecimento de partidos de extrema-direita e com o aumento da centralidade do tema imigração no debate político.

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“Tornou-se um tema muito quente na política e que passou a ser tratado por todos os partidos políticos. E isso tem um grande impacto para o Brasil por conta da população muito representativa por aqui”, diz.

Protestos durante a visita

O Chega, liderado por André Ventura, já anunciou protestos contra a presença de Lula em frente ao Palácio de Belém, onde ocorrerá parte dos encontros oficiais, além de mobilizações nas redes sociais.

No mesmo local, está prevista uma manifestação de apoiadores do Partido dos Trabalhadores (PT) em Lisboa. Já o PSD deverá adotar uma posição institucional, evitando envolvimento direto nas manifestações.

No campo diplomático, o Brasil também avalia a possibilidade de aplicar o princípio da reciprocidade, o que poderia impactar o tempo de concessão de nacionalidade a cidadãos portugueses no Brasil. Ainda assim, especialistas apontam que a medida não deve alterar de imediato o andamento da Lei da Nacionalidade em Portugal.

“No gabinete privado poderá haver uma pressão por parte do governo brasileiro, mas não acredito que o governo de Montenegro cederá em suas posições. Já por parte de António José Seguro, é um presidente mais consensual, que não deve romper com o que o governo busca fazer. Ele deve remeter para questões mais técnicas ou ligadas à leitura constitucional que este tema pode ter”, finalizou.

renan@revistaentrerios.pt

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