Madalena Casanova: velejadora quer ser a primeira portuguesa a atravessar sozinha o Atlântico
Com apenas 20 anos, ela se prepara para o percurso que será feito em 2027
- Lisboa
Março 31, 2026
Era uma manhã do fim de janeiro na Marina de Cascais. Choveu, caiu granizo, abriu sol, ventou bastante, e o frio atingiu os ossos. O tempo parecia programado para mostrar à equipe da EntreRios um pouco das intempéries que a velejadora Madalena Casanova está habituada a enfrentar em alto-mar. O pequeno veleiro Stinkfoot serviu não só de locação, mas de abrigo para esta entrevista com a jovem de 20 anos que quer fazer história e se tornar a primeira portuguesa a atravessar sozinha o Atlântico.
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Madalena acaba de partir para a França, rumo a Lorient, o principal polo da vela offshore (de longas travessias, em condições extremas) na Europa, para mais uma etapa de preparação para a Mini Transat de 2027 que é, justamente, uma regata transatlântica em solitário, feita por veleiros monotipos de apenas 6,5 metros. Criada em 1977, a prova de quatro mil milhas náuticas parte da França, com uma escala nas Ilhas Canárias, terminando em Salvador, sendo que a parte final é a mais longa, com cerca de 17 dias ininterruptos no oceano. “Eu quero puxar o máximo por mim, pelo barco e para conhecer os limites de nós dois”, diz Madalena.
Ela tem treinos físicos, preparação técnica e acompanhamento psicológico para estar em seu melhor dentro do barco, onde todos os recursos se reduzem ao essencial. A comida são alimentos liofilizados (processo semelhante à desidratação). Apesar de toda a tecnologia moderna, a navegação é feita como antigamente, com mapas de papel e, no máximo, GPS. Não há telefone ou internet, proibidos pela comissão organizadora da competição.
Dorme-se em ciclos de 20 minutos — mais do que isso é arriscado bater em outra embarcação, por exemplo —, seja dia ou noite. “O mais assustador é a sensação de não conseguir governar as velas, o leme, a própria rota”, explica Madalena, que já vivenciou a experiência quando um dos lemes partiu após um ataque de orcas. “Elas fazem isso por brincadeira, não é agressividade”.
Madalena passou boa parte da infância na ilha de Santa Maria, nos Açores. Mais tarde, a família mudou-se para Lisboa. “Íamos de férias para o Mediterrâneo, mas em embarcações com motor”, lembra. Sem saber o que estudar na faculdade, ouviu do padrasto a sugestão de tentar trabalhar como skipper (capitão de embarcações). “Mas nenhum de nós tinha experiência nesta área. Ele e a minha mãe são controladores de tráfego aéreo”.

Espírito aventureiro, Madalena tinha. Depois de alguns cursos, conseguiu o primeiro trabalho, em meio período, ao lado do renomado skipper António Fontes. Nesse momento, o mar deixou de ser paisagem e passou a ser vocação de aventuras e trabalho. No fim de 2023, ela cruzou o oceano Atlântico pela primeira vez, de Cabo Verde ao Caribe, numa travessia de 17 dias com mais três pessoas. No início do ano passado, completou a prova de mil milhas náuticas sozinha, durante 11 dias, da França a Portugal — o que a qualificou para a Transat.
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Madalena relembra que, desde a escola, se sentia profundamente tocada e impressionada com as histórias sobre os navegadores portugueses e a herança simbólica das grandes travessias. “Admiro muito as pessoas que se lançaram ao mar numa época em que se acreditava que a Terra era plana”, afirma. O sonho do futuro já existe: “É uma volta ao mundo”.