Mercado de criptomoedas avança em Portugal e corretora brasileira se destaca com investimento milionário
Mercado Bitcoin Portugal quer investir mais de 50 milhões de euros em sua expansão para a Europa
- Lisboa
Dezembro 1, 2025
O mercado de criptomoedas e dos ativos digitais têm apresentado grande avanço em Portugal nos últimos anos e o país tem se destacado no setor na Europa e no mundo. O relatório Blackrock People & Money 2024 apontou que 43% dos investidores portugueses afirmam ter criptoativos, muito acima da média do continente de 22%.
Já o relatório Geography of Crypto Report 2025, do Chainanalysis, apontou que, proporcionalmente ao tamanho da população Portugal está em 20º lugar em relação às atividades de criptos no país.
Em meio a esse cenário, uma corretora com origem brasileira se destaca. A Mercado Bitcoin surgiu em 2013, se tornou um unicórnio (empresa com valor de mercado de mais de US$ 1 bilhão) e hoje já possui uma carteira de 4,5 milhões de clientes. Em 2022, a holding do grupo, a 2TM, comprou a corretora Criptoloja e, em 2023, mudou o nome para Mercado Bitcoin Portugal.
Com a entrada da legislação MiCA, a exchange quer investir mais de 50 milhões de euros até 2030 para a expansão para toda a Europa e ampliar a participação internacional da empresa para 25% do seu faturamento total. Hoje, a operação em Portugal (único país em que atua fora do Brasil) representa cerca de 3% do total.
“A nossa ideia é que a estrutura principal na Europa continue em Portugal, especialmente para relacionamento com clientes, parceiros e reguladores, mas que a gente passe a atuar em diversos países do continente”, explica Reinaldo Rabelo, CEO da Mercado Bitcoin Portugal.
Para o futuro, a empresa também pretende ampliar suas atividades para outros países da América Latina, Estados Unidos e Ásia após a consolidação em território europeu.
Segundo Rabelo, a nova legislação europeia de criptomoedas, a MiCA (leia mais abaixo) facilitou a expansão dos investimentos, já que padroniza as regras para atuação em todo o território. “A operação ficaria muito mais encarecida se fosse feita de país a país. A MiCA oferece a segurança jurídica para investimentos de maior porte e favorece essa expansão”, ressalta ele.
A Luso Digital Assets é outra empresa que tem operado desde o início da regulamentação por parte do Banco de Portugal, em 2021. Com foco 100% em cripto, a empresa nasceu dedicada a pequenos varejistas e se transformou para atender empresas e pessoas físicas com alto poder aquisitivo. Para Ricardo Filipe, fundador da Exchange, o mercado de criptomoedas português tem crescido e se mostra mais maduro.
“Temos assistido a uma entrada acentuada de indivíduos e empresas dedicadas ao ramo, o que tem traduzido muito pessoal qualificado, aumentando também a qualidade dos eventos nessa área, além da presença de escritórios de desenvolvimento em Portugal para grandes projetos internacionais”, destaca ele.
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A Luso fornece serviços para diferentes regiões em todo o mundo, operando em parceria com corretoras locais em lugares em que não pode atuar diretamente. O objetivo da empresa é criar uma rede global em criptoativos, para tornar mais ágeis e mais baratas as operações e investimentos, além de ampliar os conhecimentos sobre a área.
“Mais tarde iremos também fornecer ligações a alguns serviços de investimento em criptoativos para adicionar ao portfólio dos investidores tradicionais”, destaca.
Regulamentação
As atividades de criptomoedas são regulamentadas pelo Banco de Portugal que, desde 2021, emite licenças para a operação das exchanges, de acordo com os dispositivos da Lei n.º 83/2017 contra o Branqueamento de Capitais e Financiamento do Terrorismo.
Ao todo, existem dez empresas licenciadas com sede no país, para além de plataformas internacionais. Em 2024, a União Europeia aprovou a MiCA (Markets in Crypto-Assets), legislação que estabelece regras harmonizadas para criptoativos em toda a União Europeia e estabelece mecanismos padronizados de proteção de ativos, supervisão, fiscalização e informação para os investidores. As regras devem ser implementadas até 2026.
A lei já aprovada pelo Parlamento Europeu foi enviado para o parlamento português em setembro para adaptação no país. A regulamentação manterá o Banco de Portugal na supervisão do setor de criptoativos e na autorização do registro dos prestadores de serviços, enquanto a Comissão de Mercado de Valores Imobiliários (CMVM) ficará com ações voltadas para a prevenção, gestão de conflitos e reclamações.
“A lei assegura a integridade dos mercados, busca prevenir abusos e contribuir para a estabilidade financeira, para o bom funcionamento do sistema e para a resposta a riscos para a política monetária. Isso é muito importante para estabelecer uma política monetária comum”, avalia Matilde Lavouras, professora da Universidade de Coimbra.
Filipe destaca que a Luso já era regulada em relação à lavagem de dinheiro e destaca que a MiCA aumenta a segurança para o mercado. “Os investidores podem estar certos de que os seus fundos estão em segurança e são utilizados da forma mais correta, obtendo o melhor preço de mercado”, analisa.
Rabelo ressalta que Portugal foi um mercado pioneiro ao criar, em 2021, regras de licença para empresas cripto, criando um importante movimento. Na sequência, o país também apostou em benefícios fiscais e incentivos, como a isenção de tributação para os ganhos com ativos virtuais, o que estimulou esse mercado. Ele pondera, porém, que ao longo dos anos, Portugal ficou um pouco para trás no estímulo às criptos.
“Portugal largou na frente mas acabou sendo prejudicado por conta de diversas mudanças de governo. Hoje, dentro do MiCA, apenas Portugal e Bélgica ainda não habilitaram suas empresas para operar no continente. Ainda há espaço para acelerar essa adoção das criptomoedas”, avalia.
Integração com o mercado brasileiro
Recentemente, o Banco Central do Brasil (BC) também anunciou novas regras para aumentar a transparência e a lavagem de dinheiro com criptoativos. As empresas do segmento precisarão oferecer informações sobre as operações feitas pelos clientes, aumentando a rastreabilidade, como já acontece com os bancos tradicionais. As normas devem entrar em vigor a partir de fevereiro e passam a integrar o mercado regulado do BC.
Reinaldo analisa que a regulação possui semelhanças com o que se observa em Portugal e avalia as novas regras de maneira positiva.
“Toda regulação traz um período de adaptação por parte de quem opera, porque o investimento inicial passa a ser um pouco maior. Mas ela não inviabiliza de forma alguma a entrada de novos players no mercado, já que ela representa muito mais segurança para as empresas e para quem opera através delas”, afirma.
Para Rabelo, o momento é positivo e também coincide com a entrada de fintechs operando criptos no mercado europeu, como é o caso da Revolut que expandiu suas operações recentemente. Para ele, outras corretoras, inclusive brasileiras, também podem aproveitar o movimento e utilizar Portugal para expandir suas operações.
“A gente conhece muitos brasileiros que trabalham no ecossistema cripto, inclusive em tokenizadoras, e que moram em Portugal. Existe um cenário propício para que mais exchanges possam explorar esse cenário”, conclui.
A empresa ainda afirma querer trazer o DNA de investimentos brasileiros para outros tipos de ativos virtuais, como é o caso da renda fixa digital, que segundo a exchange, pode proporcionar rendimentos de até 22% ao ano. Outro diferencial apontado pelo executivo é a utilização do PIX como meio de pagamentos e das stablecoins como forma de realizar a liquidação de valores de um país para o outro dentro do sistema cripto e podem substituir sistemas como o Swift, por exemplo.
A empresa ainda quer implantar o WhatsApp com o uso de inteligência artificial para realizar ordens de compra, transferências e investimentos dos produtos da Exchange.
“Estamos testando essa ferramenta com alguns clientes em Portugal antes de levar isso para o mercado brasileiro. Aqui conseguimos testar com mais agilidade e fluidez até pelo tamanho do mercado. Portugal passa a ser um polo de inovação para o mercado Bitcoin”, destaca.
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