Marluci Martins

Messi não é santo

Craque argentino foi cúmplice das artimanhas de sua seleção na final da Copa

Julho 23, 2026

Messi. Crédito: Reprodução Instagram
Messi. Crédito: Reprodução Instagram

É justa a idolatria por Lionel Messi como jogador de futebol. Pode-se até ouvir o argumento de quem o compara ao maior de todos, Pelé. Mas é preciso percorrer um trecho de sua trajetória na contramão do que o currículo histórico nos mostra e, desculpem, ter coragem de dizer o que ninguém quer ouvir: Messi não é santo. Um ídolo não pode cometer qualquer deslize que comprometa o fair play, natureza fundamental e poética do esporte.

Foi patética sua tentativa de convencer o árbitro a expulsar o lateral Cucurella na final da Copa do Mundo, buscando se beneficiar da Lei Vini Jr, aquela que, para coibir ofensas, determina a punição de quem tapar a boca ao se dirigir ao adversário. Messi foi malandro, descendo ao nível do reles peladeiro de rua que apela feio para levar vantagem. Não lhe caiu nada bem o papel de espertalhão. Destoou. Messi não tem roupa para a pilantragem, a artimanha, a trapaça.

Também foi ridícula sua cumplicidade com Nicolás Tagliafico, que se jogou no chão, sozinho e sem bola, no momento que o árbitro, distante daquele inesperado corpo no chão, expulsava, em outra cena, Enzo Fernández, após lance violento que lhe valeu o segundo cartão amarelo. Messi dedicou segundos de sua biografia a mostrar que o companheiro Tagliafico também estava caído no gramado. Ora…

É difícil apontar para Messi. É difícil usar adjetivos pejorativos contra aquele que torna o futebol ainda mais lindo de se ver. E os árbitros também devem compartilhar esse sentimento, tanto que o craque argentino não foi expulso ao pisar na panturrilha do zagueiro argelino Aïssa Mandi nessa mesma Copa. Messi ainda saiu de campo coroado e ovacionado por ter feito os três gols da vitória de sua seleção.

Tais fatos seguem afastados da biografia do craque, mas o aproximam das cobranças além do futebol. Ainda que acumule pontos positivos pela opção por uma vida sem polêmicas e à margem de ostentações nas redes sociais, Messi ainda precisa associar sua influência na história do futebol a campanhas mais enfáticas e frequentes contra o racismo, tema inconcebível que mancha a briosa camisa da Argentina, volta e meia envolvida em casos de explícita injúria racial. Messi, claro, não é obrigado a levantar a bandeira da causa abominável que oprime e exclui. Mas deveria. O mundo merece o posicionamento de um ídolo desse naipe. É preciso endurecer o discurso sozinho, já que sua seleção faz exatamente o contrário.

Por falar na seleção de Messi, a reconhecida insolência do futebol argentino alcançou o mais alto patamar da fama internacional. Tudo o que brasileiros e demais sul-americanos já sabiam a respeito dos hermanos reverberou no mundo inteiro durante a premiação da Copa do Mundo: como meninos mimados e emburrados no torneio da escola, os derrotados permaneceram de costas para o palco no qual os campeões receberam a taça. Por que ninguém lhes ensinou a perder de cabeça erguida, madre mía? Foi feio. Vergonhoso. Até porque a Argentina não foi vítima de nenhuma injustiça. A Espanha esteve anos-luz melhor, e ponto final.

Só não enxergou isso quem ficou de costas para o jogo. Messi enxergou, mas, para tentar reverter a superioridade do adversário, escolheu o perigoso caminho da tramoia, tão comum entre seus pares. Uma pena. A arrogância e a má-fé não andam de mãos dadas com a boa educação e a grandeza.

Marluci Martins. Crédito: Divulgação