Fórum de Lisboa

Ministro português propõe imigração mais humana e nega contradição em acordos do governo com o Chega

PSD, partido do governo de Luis Montenegro, e Chega tem se aliado no Parlamento para aprovar pautas anti-imigração

Junho 3, 2026

Luis Neves. Crédito: Renan Araújo

O ministro da Administração Interna de Portugal, Luis Neves, afirmou, nessa quarta-feira (03), que o governo busca promover uma imigração mais regulada e mais humana e destacou que os imigrantes são importantes país. Apesar disso, ele diz não enxergar uma contradição na aliança do partido do governo, o PSD, com o Chega, partido de extrema-direita que possui a segunda maior bancada na Assembleia da República e que possui um discurso abertamente anti-imigração. PSD e Chega se aliaram para aprovar diversos projetos no Parlamento, inclusive a Lei da Nacionalidade e a Lei dos Estrangeiros que, desde o ano passado, têm restringido as regras de imigração no país.

“Para aprovar determinado diplomas precisamos do apoio do Parlamento, porque esse é um governo que não tem a maioria. Por isso, aquilo que se procura fazer com cada projeto é encontrar aqueles que possam nos apoiar, independentemente. O governo também tem tido essas conversas com o Partido Socialista, então essa é uma não questão”, afirmou ele, em entrevista exclusiva à EntreRios.

Segundo ele, a ideia da remigração, que é a expulsão de todos os imigrantes, não pode acontecer do ponto de vista legal e do ponto de vista humano. “As pessoas são necessárias e cada ser humano tem o direito de vir à procura de melhores condições de vida. O que defendemos é regular e saber quem são as pessoas”, reforçou.
O conceito de remigração tem sido debatido como um dos principais discursos da extrema-direita, inclusive por parte do Chega, que apresentou um Plano Nacional de Remigração, que pretende expulsar imigrantes ilegais em situação de desemprego e até mesmo aqueles regularizados em algumas situações. O debate também foi feito em um encontro realizado com líderes da extrema-direita mundial na última semana em Figueira da Foz.

O ministro afirmou também que tem havido articulações com o governo brasileiro para o combate a organizações criminosas. “Nós temos essa relação por via da justiça. Já fui diretor nacional da Polícia Judiciária e tínhamos uma grande ligação com a Polícia Federal brasileira sobretudo nas esferas do crime organizado”, destacou. Ele disse que, em relação à classificação de Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas por parte dos Estados Unidos, Portugal e Europa não devem tomar qualquer tipo de ação no momento.

Fórum de Lisboa

Luis Neves esteve no painel de abertura do último dia do Fórum de Lisboa, que termina nesta quarta-feira (3), e também falou sobre o combate às organizações criminosas em Portugal associado a redes internacionais ligadas ao tráfico de drogas. Segundo ele, o crime organizado também tem se associado a muitos crimes virtuais, que incluem crimes de ódio contra minorias, incluindo imigrantes, fake news e envio de desinformação.

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“Essas são comunicações muito difíceis de se ter acesso, são operações impenetráveis. Nossos tribunais ainda são muito conservadores e existe uma defesa ao direito da privacidade que envolvem aspectos econômicos das grandes operadoras do mercado e que não permitam que o governo tenha acesso a essas informações essenciais para a realização de investigações”, destacou.

Para o ministro, esses criminosos têm aproveitado a utilização de mensagens criptografadas e do sigilo das plataformas digitais para a realização de práticas ilegais. “É preciso combater a ideia de que há uma permanente vigilância sobre a privacidade dos cidadãos. Não se trata de uma questão ideológica”, frisou.

Ele ainda elogiou algumas respostas que a Justiça brasileira tem dado em relação às comunicações de suspeitos de estarem envolvidos com o crime organizado. Para ele, é preciso ter o olhar a uma imigração mais humanizada ao se deparar com casos de imigrantes que se envolvem com o crime organizado e que são utilizados como mula (pessoas utilizadas para o transporte de uma pequena quantidade de droga) pelos grandes grupos. “Muitos deles se envolvem por uma pequena quantia de dinheiro e estão em situação de pobreza. O foco de qualquer jurista ou advogado deve ser na defesa da diversidade do ser humano”, afirmou.

renan@revistaentrerios.pt