Brazil core

Moda, música e cultura impulsionam o Brasil como referência estética e criativa no mundo

Seja com os clássicos chinelos de dedo ou ainda com os códigos da periferia urbana, o país reaparece como estética desejada

Maio 29, 2026

Grazielli Nery posa com look Conceito Lisboa no estilo Brazil core (Foto: Faya)

Está nas ruas de Paris, nas vitrines de Londres, nos feeds novaiorquinos, em editoriais de moda, campanhas globais, nas passarelas. É o verde-e-amarelo que emerge da bandeira brasileira e invade vitrines e ruas pelo mundo. O Brasil está na moda — inclusive no próprio país, onde chegou a ser marcador ideológico da extrema-direita. Mas foi resgatado. Seja com os clássicos chinelos de dedo ou ainda com os códigos da periferia urbana, o país reaparece como estética desejada sob o rótulo de Brazil core — tendência de moda que celebra a identidade brasileira.

“Todas as marcas estão com um pouco de estética brasileira, incluindo as europeias. Não só nas cores, mas até a própria bandeira está muito famosa”, diz a empresária Bruna Gomes. Trata-se de um reposicionamento do país no imaginário global. Uma das evidências é o fomento turístico: foram mais de 9 milhões de estrangeiros em 2025, número recorde da série histórica, segundo a Embratur.

O crescimento de 37,1% em relação a 2024 não se explica apenas por fatores econômicos ou cambiais, mas também por um aumento da visibilidade cultural de fora para dentro das linhas geográficas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um dos grandes responsáveis por essa reinserção do país na agenda internacional e vem se destacando como líder global. O mundo volta a olhar para o Brasil com interesse renovado e impulsiona a derrubada da ‘síndrome de vira-lata’ (ou complexo de inferioridade), incentivando a valorização.

 

Bad Bunny com camisa de estética vintage do Brasil em show em São Paulo. Reprodução/Instagram @badbunnypr

Para Iron Neto, fundador da agência todos. (assim mesmo, em letras minúsculas e com ponto ao final), especialista em cenografia e experiências de marcas em grandes eventos, um dos momentos simbólicos dessa redescoberta global do Brasil foi o megashow de Madonna na praia de Copacabana, em 2024: “Ela entrar no palco com a bandeira brasileira funcionou quase como um resgate de autoestima coletiva”. Ele também afirma que, “em um cenário global marcado por tensões, o Brasil voltou a aparecer como um lugar desejável”.

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No bojo do movimento, outro conceito historicamente ambíguo, o chamado ‘jeitinho brasileiro’, passa por uma revisão. Antes associado ao improviso ou à informalidade de forma pejorativa, agora é capacidade adaptativa e criatividade aplicada. Helen Pedroso, diretora de responsabilidade corporativa do grupo L’Oréal no Brasil, ‘desenha’: “O ‘jeitinho brasileiro’ deixa de ser apenas um traço cultural e torna-se uma ferramenta poderosa para construir pontes, especialmente em ambientes corporativos globais”.

Segundo ela, há um modo de atuação brasileiro que ganha valor em um mundo cada vez mais atento à competência intercultural. Esse traço vai além da hospitalidade e do sorriso fácil, manifestando-se em menor formalidade entre hierarquias, flexibilidade e capacidade de improviso — características hoje vistas como ativos estratégicos. Foi justamente essa capacidade de operar fora de modelos rígidos que chamou a atenção do professor Jaideep Prabhu, referência mundial em inovação e negócios internacionais.

Virginia usa Brazil core. Reprodução/Instagram @virginia

Ao falar sobre resiliência em contextos complexos, em um curso da Universidade de Cambridge (Inglaterra), ele comentou sobre o ‘jeitinho brasileiro’ como capacidade de encontrar soluções mesmo diante de recursos escassos. “Essa visão ressignificada toca em um ponto essencial: inovação não nasce apenas em laboratórios de alta tecnologia, mas também da observação atenta, adaptação e engenhosidade”.

Brazil core está associado a um conjunto de signos, como cores vibrantes, futebol, corpos bronzeados, paisagens tropicais, referências de favela e streetwear. Para o estilista Beto Neves, fundador da marca carioca Complexo B, uma das pioneiras na valorização da identidade cultural brasileira na moda masculina, esse interesse global dialoga com a forma como o Brasil transforma adversidade em linguagem cultural. “No país, a saudade vira samba, algo transformador. Neste momento em que o mundo está conturbado, o país acaba sendo uma inspiração, uma referência de cor, alegria e, principalmente, superação”, diz ele, que hoje vive em Lisboa e administra a marca na Europa.

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No Rio Fashion Week, em abril, na cidade que lhe dá o nome, a grife de praia Blue Man fez um desfile cheio de verde, amarelo e azul, com Helô Pinheiro, a eterna garota de Ipanema, exibindo, no fim, uma bandeira do país estilizada. Foi catártico.

As sandálias Havaianas, sinônimo de brasilidade, foram eleitas, ano passado, o produto mais desejado do mundo pelo Lyst, índice que mede tendências globais. Segundo o estilista Anderson Vescah, “o movimento é uma mistura de cultura periférica com futebol, streetwear e um tropicalismo que celebra a riqueza cultural do país”. A modelo e estilista Grazielli Nery, que vive em Portugal, observa: “Quem usa o estilo Brazil core quer sentir um pouco da essência do ser brasileiro, da alegria, malemolência e leveza como muitos de nós levamos a vida”.

A clássica Havaianas Trade (azul e branca) está na moda até em acessórios. Reprodução/Instagram @havaianas

Eduardo Santos, fundador da Conferência de Luxo Contemporâneo e Inovação, diz que o interesse internacional tem ajudado a reposicionar o maior país da América do Sul. Ele cita como exemplos a campanha da grife Rabanne, filmada na favela carioca Rocinha, e o desfile da Louis Vuitton no Museu de Arte Contemporânea de Niterói (RJ) como exemplos de visibilidade. “Esse interesse pode tirar o país do papel de coadjuvante para virar referência de estilo e reverberar em mais negócios para marcas nacionais que exportam”.

Campanha da Rabanne na Rocinha. Crédito: Divulgação

A tendência tem duas faces: pode fortalecer o chamado soft power (poder de influência) brasileiro ou tornar o país um exportador sustentado por estereótipos, pondera Santos. Elementos associados à cultura popular e periférica passam a circular em novos contextos, muitas vezes desconectados de suas origens sociais. “De um lado, temos elementos que efetivamente promovem uma mudança cultural; de outro, existem questões que são puramente estéticas, atendendo a modismos, a uma dinâmica de mercado em que esses conteúdos são consumidos apenas de forma comercial”, afirmou o professor Marco Antônio de Almeida, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), em entrevista ao Jornal da USP.

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Celebridades como o artista porto-riquenho Bad Bunny ajudaram a amplificar a identidade latino-americana, da qual o Brasil faz parte, levando referências regionais a audiências massivas. As indicações ao Oscar dos filmes Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, além da visibilidade internacional da cantora Anitta, que alcançou o topo do Spotify global, reforçam uma imagem contemporânea e plural do país. E o movimento ganha ainda mais fôlego com a proximidade da Copa do Mundo. Como diz a expressão que está na moda, é “puro suco de Brasil”.

Créditos foto Grazielli Nery

Vestido sobre cropped: Conceito Lisboa
Óculos: Diesel
Beleza: Inês Lapa 
Stylist e produção: Anderson Vescah 

fernanda@revistaentrerios.pt

Fernanda Baldioti
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