Música

Muito além dos palcos: Festival Músicas do Mundo se reinventa sem perder a alma

Entre mudanças na infraestrutura, economia de recursos e reforço na segurança, o FMM chega à 26ª edição provando que continua sendo um dos maiores encontros culturais da Europa

Julho 25, 2026

Festival Músicas do Mundo. Crédito: Reprodução Instagram
Festival Músicas do Mundo. Crédito: Reprodução Instagram

Durante nove dias, Sines deixa de ser apenas uma cidade do litoral alentejano para se transformar em um lugar onde o mundo inteiro parece caber entre ruas estreitas, muralhas medievais e o mar. Em sua edição que termina neste sábado (25), o Festival Músicas do Mundo (FMM) passou por Porto Covo antes de ocupar Sines com artistas de diferentes continentes em praças, castelos, centros culturais e avenidas. Mas quem conhece o evento sabe que a música é apenas parte da experiência.

O FMM reúne um público difícil de definir. Há quem viaje milhares de quilômetros por causa de um artista específico. Há moradores que simplesmente descem a rua para assistir aos shows gratuitos. Há famílias inteiras que repetem o ritual todos os anos e jovens que chegam atraídos por essa promessa de convivência quase utópica — uma espécie de sonho hippie contemporâneo que insiste em existir há 27 anos no sul de Portugal.

Nas ruas, não existe um único idioma. Escutam-se conversas em português, espanhol, francês, inglês e tantas outras línguas quanto os ritmos que ecoam dos palcos. Crianças dividem espaço com idosos, turistas convivem com moradores e desconhecidos sentam lado a lado nos degraus do Castelo para descobrir artistas que nunca ouviram antes.
Essa atmosfera é justamente o que a organização considera o maior patrimônio do festival. “Nós não estamos aqui apenas para fazer uma festa. Estamos aqui para mostrar que a festa precisa ser de todos, e não apenas de alguns”, resume o diretor do FMM, Carlos Seixas.

LEIA MAIS: Otto fala sobre reinvenção, novo disco e o espetáculo “Apocalíptico” antes de show no FMM Sines

Foi essa ideia que deu origem ao festival, há quase três décadas. Segundo Seixas, o projeto nasceu do desejo de valorizar aquilo que Sines representa desde a sua origem: um porto histórico marcado pelo encontro de povos e culturas. “A ideia era celebrar essa ligação de um porto milenar, um ponto de encontro de povos diferentes.”

Desde então, o festival construiu uma identidade rara no circuito internacional. Mais do que reunir grandes artistas, tornou-se um espaço dedicado à descoberta musical, às diásporas, às migrações e às culturas frequentemente ausentes dos grandes festivais comerciais.

É justamente essa identidade que explica por que, mesmo com mudanças importantes nesta edição, o FMM continua atraindo milhares de pessoas. O festival mudou — e muita gente percebeu. Quem frequenta o FMM há anos encontrou algumas diferenças logo na chegada. Os bastidores ficaram mais restritos. A área reservada diminuiu. O camping foi reorganizado. Algumas estruturas desapareceram enquanto outras ganharam reforço. As mudanças não aconteceram por acaso.

O presidente da Câmara Municipal de Sines, Álvaro Beijinha, explica que precisou rever a forma como administra um evento que ultrapassou os 2,1 milhões de euros em custos na edição anterior. A meta deste ano era economizar entre 350 mil e 400 mil euros sem comprometer aquilo que realmente importa para quem visita o festival. “Nós não cortamos investimento. Cortamos despesas que consideramos supérfluas.”

+ LEIA MAIS: The Strokes lança álbum após seis anos; uso de auto-tune na voz de Julian Casablancas gera polêmica

Segundo ele, boa parte da economia veio de uma mudança de estratégia.
Em vez de contratar empresas para serviços internos, a própria câmara assumiu atividades como alimentação das equipes e parte da logística. “Só aí diminuímos brutalmente os custos.” Também houve uma reorganização das áreas técnicas. “Quem entra nesses espaços precisa estar trabalhando. São profissionais, técnicos ou imprensa. Deixou de ser um espaço aberto para qualquer pessoa.”

Mais segurança, menos improviso

Se houve economia em algumas áreas, outras receberam investimento maior. A segurança foi uma das prioridades. Nos últimos anos, era comum encontrar barracas espalhadas por diferentes pontos da cidade, especialmente em jardins e espaços públicos, situação que gerava reclamações dos moradores. A resposta veio com uma reestruturação do camping oficial. Além da ampliação da área destinada aos campistas, o ginásio municipal passou a funcionar como apoio permanente, oferecendo chuveiros e banheiros.

A mudança também permitiu reduzir gastos com estruturas temporárias alugadas. “Em vez de alugarmos novas infraestruturas, aproveitamos aquilo que já era patrimônio da cidade”, explica Beijinha. A estratégia melhorou a organização, reduziu custos e buscou equilibrar dois interesses que convivem durante o festival: o dos milhares de visitantes e o dos moradores que seguem vivendo a rotina da cidade.

Uma cidade inteira faz parte do espetáculo

No FMM, os palcos são apenas uma parte da programação. O espetáculo continua nas esplanadas lotadas, nas praias durante o dia, nas feiras de artesanato, nos pequenos restaurantes e nas conversas que atravessam a madrugada.

+ LEIA MAIS: North Wave reúne vozes femininas da música em festival nos Açores

Segundo um estudo da Prefeitura, cada visitante permanece, em média, oito dias em Sines, movimentando hotéis, alojamentos locais, comércio e serviços. Curiosamente, o prefeito acredita que o crescimento do turismo na Costa Alentejana mudou até a relação do festival com a cidade. “Hoje os restaurantes já estão cheios antes mesmo do festival. A hotelaria também.”
Mesmo assim, ele não tem dúvidas sobre o impacto econômico e cultural do evento. “É o maior embaixador que Sines tem.”

Carlos Seixas vai além. Para ele, o maior legado do FMM não pode ser medido em números. É a capacidade de reunir pessoas completamente diferentes em torno da curiosidade, da música e do respeito às diferenças.
“Sines é a capital da música da diversidade, da tolerância e do encontro entre os povos.” Talvez seja justamente essa a explicação para o sucesso de um festival que resiste há quase três décadas.

Enquanto os artistas sobem ao palco, a cidade inteira se transforma em cenário. As ruas deixam de pertencer apenas aos moradores e passam a acolher visitantes do mundo todo. E, por alguns dias, Sines lembra que a diversidade pode ser vivida de forma simples: compartilhando uma praça, uma canção e o pôr do sol sobre as muralhas do castelo.

redes@revistaentrerios.pt

redes@revistaentrerios.pt