Dia das Mulheres

Mulheres do grupo de samba “Coletivo Gira” transformam o 8 de Março em luta e celebração

Grupo fundado em Lisboa por imigrantes brasileiras usa o samba para promover cultura afro-brasileira, igualdade de género e representatividade

Março 8, 2026

Emile, Tida e Kali do Coletivo Gira. Crédito: Leticia Diniz
Samba, resistência e imigração por Emile Pereira, Tida Pinheiro e Kali Peres do Coletivo Gira. Crédito: Leticia Diniz

O samba que ecoa nas rodas do Coletivo Gira, em Lisboa, é mais do que música: é também um ato político. Fundado em 2021 por mulheres imigrantes brasileiras com histórias e origens diversas, o grupo nasceu do amor pelo samba e pelas suas raízes afro-brasileiras, mas também da vontade de ocupar espaços. 

Formado por Kali Peres (cavaquinho e voz), Emile Pereira (percussão e voz), Tida Pinheiro (percussão e voz), Lika Mattos (percussão e voz), Meli Huart (percussão), Bibi Nobre (baixo) e Brunão (pandeiro), o coletivo defende eventos onde a convivência, o respeito e a celebração caminham juntos com mulheres, pessoas negras e a comunidade LGBTQIAP+ no centro da roda.

Com o mês de março chegam também as celebrações do  Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. Nesta reportagem ouvi três integrantes do grupo de samba sobre a data: 

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Na entrevista Emile Pereira citou Leci Brandão como uma de suas referências artísticas. Crédito: Leticia Diniz

Para Emile Pereira, de 35 anos, nascida no sul da Bahia e que viveu muitos anos em Minas Gerais, o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é antes de tudo uma data de posicionamento:

“Para mim é uma data política, mais que importante a gente lembrar. Infelizmente não dá para comemorar. Comemorar o quê? Ser mulher no Brasil e ser alvo de violência? A gente usa esse momento para fazer política mesmo, para reivindicar, tocar o dedo na ferida e falar do que precisa ser dito. Menos flores e mais assuntos importantes”, afirma. Segundo ela, a visibilidade do dia ajuda a expor questões urgentes e a lembrar que a luta por direitos ainda está longe de terminar.

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Tida Pinheiro sonha com paz e tranquilidade para as mulheres. Crédito: Letícia Diniz

A percussionista e cantora Tida Pinheiro, de 42 anos, gaúcha que passou parte da vida no Rio Grande do Norte, reforça que o significado do 8 de março vai além de uma única data no calendário:

 “É bom para refletir, mas é mais uma data de uma luta que a gente faz todos os dias. Ainda mais num coletivo de mulheres e pessoas não binárias. Talvez agora os ouvidos estejam mais atentos porque a data traz visibilidade, mas a nossa luta acontece todos os dias do ano, todas as horas”, diz. Para ela, a existência do coletivo já é, por si só, uma forma de resistência.

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Kali relembrou outras sambistas como Beth Carvalho e Dona Ivone Lara. Crédito: Letícia Diniz

Kali Peres, de 36 anos, natural de Porto Alegre, destaca que o trabalho do grupo também passa por ampliar debates sobre diversidade dentro do próprio movimento feminista:

“Uma das coisas importantes é reforçar a interseccionalidade e entender essas diferentes ‘mulheridades’. Para além da misoginia que mata todos os dias, também existe uma transfobia muito forte, seja aqui ou no Brasil. Então, dentro do 8 de março, reforçar essa interseccionalidade é fundamental”, afirma a artista, que assume o cavaquinho e a voz nas rodas do coletivo.

Coletivo Gira.Crédito: Letícia Diniz
A formação completa d0 Coletivo Gira. Crédito: Letícia Diniz

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Entre apresentações e encontros culturais em Portugal e em outros países da europa, o Coletivo Gira segue construindo um caminho que mistura arte, pertencimento e militância. O sonho agora é ampliar ainda mais essa roda de samba e levá-la também ao Brasil,  fechando um ciclo simbólico entre origem e trajetória.

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Enquanto isso, cada apresentação continua a reafirmar o propósito do grupo: manter viva a cultura popular brasileira e abrir espaço para que outras mulheres e pessoas não binárias possam ocupar o palco, o instrumento e a própria história.

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